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Ano Novo - (09-01-2002)

A época de festas é mesmo especial. Acontece até milagre. Tem pelo menos três que se repetem todos os anos. O primeiro é as grandes cidades ficarem vazias. Todo mundo que saiu dessas cidades caber no litoral é o segundo. E o terceiro é a suspensão do tempo. Entre o final de Dezembro e o começo de Janeiro o presente fica mais deserto que as metrópoles. As pessoas ou descem para o passado e se deixam ficar nas retrospectivas, ou sobem a serra do futuro caçando perspectivas.
Até quem comemora a passagem do ano em outras datas adere à pausa temporal de Dezembro. Compreensivelmente, já que se não aderissem, e parassem antes, iam ficar para trás. Mas isso é o de menos. No fundo, o descompasso de datas é só um probleminha técnico. Existe porque os povos não tiveram a idéia de comemorar o ano-novo ao mesmo tempo. Ela apareceu mais cedo para uns, mais tarde para outros, e no tempo preciso para a maioria. Aliás, o tempo certo é o da maioria só porque ela é a maioria. Em outras terras os uns e outros é que têm o timing exato, e nós é que somos os retardatários ou os apressadinhos. De qualquer jeito, é tudo detalhe.
A verdade é que o ano-novo é uma das festas mais democrática do mundo. Nem tanto por ser comum a muitas culturas, mas porque no ano-novo vale tudo. Pode comer lentilha embaixo da mesa, usar cuecas ( e calcinhas ) amarelas, e, quem sabe, pular sete ondas com aquela graciosidade típica dos sedentários. Ninguém reclama do barulho de madrugada, do excesso de sentimentalismo ou das romãs. Mesmo quem mistura tender com abacaxi é tolerado. Na noite de ano-novo vale até acreditar que a vida vai mudar no segundo mágico que separa o último dia do ano tal do primeiro do ano seguinte. E encher a cara enquanto ele não chega.
Eu nunca tive essa grandiosidade de espírito. Lentilha, bêbado grudento e calcinha amarela são tão inadmissíveis durante o reveillon quanto no resto do ano. Gente que mistura tender com abacaxi também dispensa qualquer comentário. Mas nada disso se compara à crença no segundo mágico, de longe a pior mania de ano-novo. Sempre pensei no final de ano como uma burocracia necessária, em que a mudança mais drástica é a dos dias da semana em que caem os feriados. E olhe lá. Tirando isso, todo o resto continua igual em Janeiro. De nada adiantam os porres de desagravo ao ano que sai ou os brindes ao que entra. Primeiro de janeiro amanhece apenas com a promessa de uma ressaca daquelas e de muitos pacotinhos de sal de frutas.
Por tudo isso, eu nunca tinha comemorado um ano-novo. Até esse ano. A ficha demorou mas caiu: o reveillon é uma festa adulta, como a recepção de casamento, o Carnaval e as festas do cabide. Essas outras ainda são um mistério para mim, mas pelo menos entendi o ano-novo. Ele faz muito mais sentido depois que a nossa vida sai do café com leite e, de repente, coisas como contas e consequências não são mais opcionais. Devidamente preparado, neste ano eu esperei, torci, rezei, implorei pelo segundo mágico. Comemorei o reveillon como manda o figurino. Espero que tenha sido a última vez.



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volponi - volponi@cronistasreunidos.com.br • 11-01-2002 08:31

Olha só: finalmente você entrou no jogo? Fique à vontade, Paulão, sinta-se em casa. Daqui dá pra ver que tem bastante tender e bastante abacaxi (em todos os sentidos) pra vc… heheeh…

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