Novos Colonos

Essa história começa com os dois produtores de TV que eu acabei de inventar. Eles têm a ingrata missão de criar um programa para roubar audiência das concorrentes. Faz mais de quatro dias que eles estão trancados em uma salinha discutindo o que fazer, mas até agora não chegaram a lugar nenhum. É que a emissora já tentou de tudo, de brigas de família resolvidas num ringue de gel até lavagem de roupa suja no ar – tipo lavanderia, mesmo. Na verdade, o problema não é aprovar uma proposta, mas manter o emprego depois que ela for para o ar.
– Coluna social de clínicas estéticas?

– Não.

– O dia-a-dia de um spa de famosos?

– Não.

– Deixa ver… tá complicado…. hum… Passa o café..

– Só dá para mais um.
As palavras saíram devagar, como uma sentença. Uma coisa é ficar sem cigarro, ou até mesmo sem oxigênio. Outra , bem diferente, é ficar sem café. Eles precisavam fazer alguma coisa. Rápido.
– Circo de pulgas! Circo de pulgas! Circo de pulgas!

– Hum…

– O que?

– Pode funcionar….

– Um circo de pulgas?

– Hã?

– O que pode funcionar? O circo?

– Não, claro que não. Ouve só…
A proposta ficou pronta pouco antes do último gole de café. Era um reality show como nunca se tinha visto. Pelo menos não em um canal só. Eles misturaram tanto as idéias dos concorrentes que acabaram chegando a um formato que não negava o plágio nem dava processo. Seguindo a fórmula básica, o programa teria gente comum abandonada à própria sorte em um ambiente hostil, e especialistas explorando, quer dizer, comentando diariamente as mazelas do grupo. Os participantes seriam cuidadosamente selecionados para não se suportarem, e , de quebra, não teriam a menor idéia de que aquilo era um programa de TV com um prêmio milionário. O “Novos Colonos” foi rapidamente aprovado e e em pouco tempo estava no ar. Tinha tudo para estourar.
Na data marcada largaram o grupo no meio do nada. Surpreendentemente, eles não se estranharam no primeiro dia. Nem nos seguintes. No fim das contas o processo de seleção tinha sido um sucesso, mas não exatamente como se esperava. Ao invés de criarem problemas, as diferenças acabaram trazendo soluções. Não importava o problema, sempre tinha alguém que sabia o que fazer. Assim, naturalmente, o grupo se organizou e passou a dividir tudo, de tarefas a histórias. Em uma semana tinham construído cabanas, hortas, panelas, talheres e uma família. O ambiente, que já era bom, melhorava a cada dia.
Na emissora, por outro lado, a atmosfera andava carregada. Em umês de exibição, o “Novos Colonos” não tinha conseguido mais do que elogios da crítica e uns cem metros de traços de audiência. Não tinha público, não tinha anunciante, e o que é pior, ainda ia demorar para acabar. O programa era um fracasso. De tanto enxergar vermelho, a emissora queria ver sangue. O clima de guerra já ameaçava fazer as suas primeiras vítimas quando o estagiário invadiu a salinha dos produtores:
– Morreu!!

– Ainda não. Tem um fundinho de café no bule…

– É, nada morreu por aqui. A gente vai achar um jeito, o programa vai decolar!

– Não, não é nada disso.

– O que é então?

– O velho… Ele morreu!

– Sério?

– Sério. O velho morreu!

– Maravilha!!
A notícia correu e as pessoas, curiosas, começaram a ligar a TV. A morte do velhinho estava ressucitando o programa. Aproveitando a deixa, os produtores decidiram visitar o grupo. Queriam ter certeza que o programa não ia desperdiçar esse novo fôlego. Não era complicado. Tudo que tinham que fazer era manter vivo o interesse do público. Quando chegaram, durante o velório, já eram milhões de pessoas acompanhado ao vivo a descida do helicóptero. E também a nova reviravolta:
– Vocês não podem enterrá-lo.

– Como é que é? Por que não?

– É contra as regras do jogo.

– Jogo?!?

– É. Ele tem que ficar até o final. Se for enterrado, todos estão desclassificados. E ningém leva o prêmio.

– PRÊMIO?!?!?

– Hum… É melhor a gente conversar… Tem umas coisinhas que vocês precisam saber….

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2 Comentários on "Novos Colonos"

  • Dani diz

    A ignorância sempre é uma dádiva.

  • paulo roberto vasconcellos diz

    já a ganância…

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