Lascas de Cabeça

Outro dia eu estava dando uma olhada nos meus blocos de fichário antigo e nos cadernos que eu usei para trabalhar. Uma coisa me deixou tranquilo: eles são indecifráveis. Quer dizer, quase. Eu consigo ler. Só eu. Cada rabisco torto, cada frase pela metade, cada ilustração, cada pseudo-diagrama, é tudo um código para me levar de volta. Não ao acontecimento. Mais longe. Ao meu pensamento naquela hora. É só ir folheando, minha memória está toda ali. Sempre foi assim, e até hoje me explico melhor se estou rabiscando alguma coisa enquanto falo.

Sei o que pensei de quase tudo.

Eu devia ter rodeado mais, tateado mais, enrolado mais. Até não mais poder. Podia ter caprichado no romance, ou, quem sabe, prestado mais atenção. Devia é ter puxado uma conversa legal, sobre, sei lá, um filme europeu, uma peça ou cabeças. E papos. Mas mandei uma indireta, num sentido, e ela devolveu outra, sem sentido nenhum. Uma sugestão de um lado, uma insinuação do outro, e o mal-entendido está instalado. Tive que correr atrás. Ainda não sei se alcancei.

Deus, no que eu estava pensando?

Aliás, o que será que ela pensou?

Não sei o que pensar.

Não adianta. É perda de tempo procurar duas pessoas que pensem igual. Cada um pensa de um jeito, e acabou.

Então não preciso fazer força para pensar diferente. Já faço isso.

Tem os que gostam de silêncio, os que falam baixinho, os que falam alto, os que falam sozinhos e os que insistem em falar com alguém; os que ficam batendo na mesa, os que ficam martelando uma idéia, os que não conseguem pensar nem de estômago vazio nem de barriga cheia; os que não tem no que pensar, os que pensam sonhando, os que sonham pensar, os que não conseguem parar, e os que não pegam nem no tranco. Tem também os que, como eu, só pensam no papel.

E você, tá pensando o quê, hein? Que isso aqui é sério?

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6 Comentários on "Lascas de Cabeça"

  • Tava pensando que você iria contar o que estava pensando, ué! heheeheh…..

  • Jacaré diz

    Como diria o filósofo, “penso, logo difiro”.

  • paulo roberto vasconcellos diz

    Eu sofro do mesmo mal. Tenho pilhas e pilhas de rabiscos, anotações, desenhos idiotas. Mas eu fiquei bem mais tranqüilo depois que eu li a tese de um cara que, entre outras coisas, falava justamente de como o cérebro funciona muito melhor com a ajuda de “sistemas exteriores de inteligência”. Esse papo de sábios que vão pra montanha e ficam mais inteligentes é bobagem. O cérebro precisa de máquinas de escrever, lápis, papel, computadores e, é claro, outros cérebros ao redor.

  • Renata diz

    Ou então: “penso, logo desisto”.

  • paulo diz

    Ou, por isso insisto

  • paulo diz

    Bom saber disso. Mas vai um conselho: certifique-se que ninguém vai conseguir entender o que vc fez. Agora, uma coisa que é muito legal é ver o que ficou para trás, especialmente os rascunhos, desenhos mais toscos, etc… Eu achei a minha fase Missão Impossível ( 1996 ), querendo mudar de sala no 3º ano, os desenhos do cursinho, do começo da faculdade…. Eles me refletem ainda melhor do que qualquer coisa que eu tenha escrito. Muito interessante.

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