O Outdoor

Final de tarde quente, abafado. A cidade inteira é um grande congestionamento. Ele está no seu terceiro engarrafamento de hoje. Foi uma hora e pouquinho para chegar no escritório de manhã, cinquenta minutos até o prédio do cliente à tarde, e agora, terminada a reunião, já são outros sessenta minutos – e contando – para voltar ao escritório. Ele tem que passar lá antes de poder ir para casa. Melhor nem pensar no tanto de trânsito que ainda tem pela frente.

Se pelo menos o carro tivesse ar condicionado. Mas não, tem só aquele arzinho vagabundo que traz o bafo do motor. Além de esquentar mais, empesteia o carro com o mau cheiro de fora. Impressionante como a cidade fica fedida em dias assim. O ar fica carregado demais com esgoto, emissões dos escapamentos e má programação das FMs. Não tem uma que preste. Ele não aguenta mais os seus CDs também. Tanto foi forçado a ouvi-los que acabou enjoando deles. Mas tem que admitir que os disquinhos são duros na queda. Eles esquentam bastante com o calor, é verdade, mas não perdem a compostura. O som continua cristalino, e, por mais quentes que estejam, nunca derretem. Ao contrário dele. A camisa já se tornou parte do seu corpo, e as calças ameaçam seguir o mesmo caminho. Apesar disso, se recusa a tirar o paletó e a gravata. Seria como se render, capitular diante do trânsito.

O jeito é tentar distrair a cabeça. A paisagem é feia, mas interessante. O ar está tão quente que não deixa o mundo ficar parado. A ponte, os prédios, os outros carros, tudo dança diante dele. A única coisa que permance firme é a moça de atributos refrescantes no outdoor. Ele teve sorte de ficar parado na frente desse anúncio. Pelo menos foi o que um marronzinho deu a entender. O funcionário da CET, aliás, o assustou. Se tivesse visto a figura surgindo no meio da miragem vacilante de cidade, com certeza não teria tomado o belo susto que levou. Mas não estava prestando atenção, então só deu por ele quando ouviu as batidas na janela.

– O senhor se importa se eu ficar uns minutinhos no banco do passageiro?
– Não…

O marronzinho agradeceu a hospitalidade e se instalou. Por um instante o constrangimento carregou ainda mais o ar.

– O senhor pode ficar tranquilo. Não é nada, não.
– Não, sem problemas. Estou super tranquilo.
– Sei que é meio estranho, mas de onde o nosso caminhão está estacionado não dá para ver a moça do outdoor.
– Sei.
– É.
– Sabe, se eu fosse o senhor teria procurado um carro com ar-condicionado.
– Ih, enfrento isso todos os dias. Já acostumei com o calor.
– Sei.
– …
– …
– …
– Mulherão, não é?
– Nem fala. Além de bonita é gente fina.
– Sério? Você conhece?
– Claro. Já te falei, estou aqui todo dia. Eu não ia ficar esse tempo todo só olhando, né? Tinha obrigação de tentar alguma coisa.
– Realmente. Não ia fazer sentido ficar só vendo, mesmo.
– É o que eu acho. E no fim foi tranquilo, sabia?
– Fácil, é?
– Ahã. Só tive que puxar papo. Pena que não deu em nada.
– Mesmo? Por que?
– Qualquer hora você descobre.
– Sei.

Os dois ficaram olhando a mocinha em silêncio, até que o motorista viu um ambulante vendendo bebidas geladas. Chamou o homem. Quando se aproximou, recebeu-o elogiando a providencial aparição e pediu uma água. Rapidamente deu-se conta do deslize e perguntou ao seu passageiro se ele aceitava alguma coisa. Aceitava, então pediu mais uma garrafinha ao vendedor. Sujeitinho estranho, por sinal. Ficou olhando esquisito enquanto entregava as águas. O motorista só entendeu o porquê da cisma quando se virou para entregar a garrafa do marronzinho. Não tinha mais ninguém lá. Engraçado como ele conseguiu sair assim, de fininho. Talvez tivesse evaporado. Vai ver tinha sido isso: o vendedor viu o marronzinho evaporando e ficou assustado. E o outro dizendo que estava acostumado com o calor. Deu no que deu, coitado. Bom, melhor. No fim das contas ficou com as duas águas.

Abriu uma delas e voltou a olhar a mulher no cartaz. Estranho. Talvez fosse só o ar trepidante, mas ele podia jurar que a moça tinha se mexido. Redobrou a atenção. Ela piscou uma vez, e outra. Duas vezes. Não era o ar, não. Era ela mesmo. Ela, que agora sorria na sua direção. O motorista apontou para o seu próprio peito, para ter certeza de que não estava enganado, que era com ele mesmo. Mas ele não tinha dúvidas. Os ocupantes dos outros carros tinham seus olhares apagados, perdidos, muito distantes daquele painel radiante.

E pequeno. Ela tentava achar uma posição mais confortável do que a escolhida pelo fotógrafo, mas não estava fácil. Primeiro se espreguiçou, devagar, gostoso, se esticando inteira. Uns pedaços seus até sumiram nas bordas. Depois ela fez o contrário: se encolheu toda e abraçou as pernas. O rosto se acomodou no joelho, meio de lado, e as mãos, em câmera lenta, desceram pelas costas, até acharem o laço do bíquini e soltá-lo. Ele não desgrudava os olhos dela; nem ela, dele. Manhosamente, sem pressa, como convém, a mulher fez sinal para que ele viesse. Ela merecia estar naquele anúncio, em outro, em qualquer um. Era a mais pura imagem da tentação.

Nem passou pela cabeça do motorista não atender a convocação. Ele desceu do carro, tirou o paletó e a gravata – o calor agora era outro – e se pôs a furar as faixas desenhadas no chão. A felicidade esperava por ele do outro lado. Ele atravessou os carros; alcançou, enfim, um muro e o painel. Olhou para cima. Não pôde vê-la. Recuou alguns passos e descobriu alguns pedaços dela. Andou mais para trás e avistou-a melhor; já linda, mas distorcida. Aquele ângulo definitivamente não lhe fazia justiça. Continuou retrocendendo até ter a visão perfeita da mulher. Quando finalmente chegou ao melhor ponto de observação, surpreendeu-se. Estava ao lado do carro que abandonara.

Ele não tinha como se aproximar mais. Não tinha o que fazer. Dava no mesmo ir para frente ou para trás. Qualquer passo, em qualquer direção, só serviria para deixá-lo mais longe da mulher do anúncio. Ela insistia no chamado. Dando de ombros, o motorista acenou em sua direção. A mulher alargou o sorriso, levou a mão aos lábios e soprou um beijo. O afago pousou na boca dele com a delicadeza de uma brisa, cresceu, tornou todo o seu corpo um arrepio e congelou, como a pose da modelo no outdoor. Ele havia entendido.

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3 Comentários on "O Outdoor"

  • Rafael diz

    Pois é ….. vivendo e sendo surpreendido. Grande texto. Cada um que passa ….. me diz que toda esta história de escrever é de verdade. pelo menos sobre vc. (hehehe).

  • Murilo Boudakian Moyses diz

    Paulão, animal se texto! Gostei muito! Você escreve MUITOOOO melhor do que joga Mario Tenis.

  • Jacaré diz

    Que filosófico, Paulão. É a publicidade do século XXII, que não mais é apenas um cadáver que nos sorri, mas que sorri e manda beijo. :o)

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