Tipos

– Credo, que lugar. Essa foi a primeira impressão da Milu quando entrou na casa. Ali, até o novo era velho. Tinha tapetes por cima do carpete, quinquilharias transbordando por móveis amontoados e até cortinas mal-humoradas. O único detalhe dourado desse ambiente vinho era a lâmpada na outra ponta do hall, imagine. O seu decorador ia ter um troço se visse isso. Ah, se ia. Ela estava nisso quando um homem finalmente apareceu lá no finzinho do corredor.

Ele era meio esquisito. Magro, mas baixinho – ao contrário da maioria dos personagens magros – e tão passado quanto a casa. As suas impressões sobre a Milu também não foram das melhores. Sabe como é, um homem como ele não está acostumado às cores berrantes das suas roupas e dos seus gestos. Mais uma nova rica, suspirou. E apresentou-se:

– Boa tarde, madame.
– Boa tarde, senhor….
– Olivares.
– Ah, é mesmo. A Lica tinha me falado.
– Quem?
– A Lica… A Lili Bonsucesso. Conhece?
– A senhora Liliane Almmeida Ventura Bonsucesso? Naturalmente.
– É, ela. Somos amicíssimas.
– Sei. Então, madame….
– Milu.
– Certo. Então, madame …* a-hem*… Milu, em que posso ajudá-la?
– Eu vou dar uma festa chiquérrima. O meu decorador, o Vouig, está cuidando dos preparativos, sabe? Então, ele é tudo, mas está está com zilhões de coisas para se preocupar e não pode fazer os convites.
– Entendo.
– Pois é. Aí eu lembrei dos convites que o senhor fez para a Lica. Lindérrimos!
– Obrigado. Hoje em dia é tão difícil encontrar alguém que aprecie a arte que é a caligrafia artesanal…
– É mesmo, não é? Mas eu a-mei. A sua fonte é muito mais bonita que a do computador.
– Como?
– O que?
– Está havendo um engano. A senhora acha que eu faço fontes?
– Sim. Por que? Não faz?
– Claro que não, minha senhora! Fonte é aquilo que fica no meio de praças e jardins, jorrando água. A senhora vê alguma coisa assim por aqui?
– Óbvio que não!
– Então, como a senhora pode ver, eu não faço fontes.
– Ah.
– ….
– E faz o que então?
– Tipos.
– As letras que o senhor desenha são tipos, e não fontes. É isso?
– Perfeitamente!
– Certo, certo. Que seja.
– Olha, senhora… *a-hem*… Milu – não é? – preciso ser honesto. Pensei que a senhora entendesse o valor de um calígrafo como eu, mas creio que me enganei. Não sei se daria certo.
– Olha, seu Olivares, não quis ofender. Mas o senhor não acha que está exagerando?
– Não.
– Ai, Cristo! Bom, paciência. Se o senhor não está interessado….
– Hum… Quantos convites são?
– Uns quinhentos.
– Quinhentos?!?!
– A-hã. Interessa?
– Bem…
– Quanto sai?
– Setenta reais cada um.
– Tudo bem.
– À vista?
– À vista. O senhor vai fazer os convites, então?
– Vou, vou. Acho que a senhora não falou por mal. Foi um erro honesto.
– Sei. Foi mesmo.
– Naturalmente.

No fim das contas, a Milu saiu daquele lugarzinho desagradável com assunto para o jantar. Não que fizesse diferença, já que ela falava mesmo quando não tinha o que dizer; o Alceu, o marido, fazia a sua parte e fingia ouvir. Assim iam todos os jantares. Por isso ele quase não prestou atenção nela falando daquele senhor esquisitérrimo, de como o Vuig ia achar a casa dele um horror, e muito menos do que ela tinha ido fazer lá. Até, é claro, ouvir o preço.

– Isso tudo é para quê, mesmo?
– Para os convites.
– Não é muito, não?
– Ah, Cezinho, o homem é um artista! Um calígrafo!
– Deve ser mesmo! Só assim para umas letrinhas custarem tanto….
– Deixa de ser rabugento. O convite vai ficar elegantésimo, você vai ver.
– Espero. Qual fonte ele vai fazer? Adoro aquelas cheias dos risquinhos….
– Ah, nenhuma.
– Nenhuma?!?!?!
– Nenhuma. Ele não faz fonte…
– Faz o que então?
– Tipo

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5 Comentários on "Tipos"

  • paulo roberto vasconcellos diz

    Com efeito, o mancebo faz tipo. Além disso, a implicância dele com “fonte” não se sustenta. “Fonte” é o conjunto de caracteres tipográficos, se ele faz tipo, também faz fonte. O bom do seu texto é que ele não toma partido. Tanto a nova rica, alvo fácil, quanto o senhor refinado estão expostos à crítica.

  • paulo diz

    Eu já vi, e imagino que você também, gente com essa exata cisma. E mesmo sem ter a noção exata da idéia de conjunto e unidade, sempre achei a discussão estéril. Tudo resume-se a se fazer entender, seja por tipo, seja por fonte. Funciona como uma metonímia, certo? Quanto ao partido… Bem, eles são como, são… hehehehehehe

    Abrs

  • paulo diz

    E, para mim, ela tem noção de que a sua figura é alvo de desprezo, mas não o seu dinheiro. E usa isso para jogar com o cara.

  • paulo roberto vasconcellos diz

    É verdade. Pensando bem, ela leva uma vantagem sobre ele por ter consciência de seu desprezo. Já o figura, quer dizer, o tipo, não. É difícil para um tecnólogo ter esse tipo de autocrítica. Conheço o tipo. eles apostam demais no conhecimento que possuem e acabam perdendo a noção de realidade, aí se apegam a detalhes ridículos e sem importância. Acontece muito isso com gramáticos. Naquele pseudo poema, gramaticão, eu quis mostrar um pouco isso. É engraçado eu não ter reparado muito nessa sutileza do seu personagem.

  • alyne diz

    axo legal essas cronicas (Y)

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