Caleidoscópio

Duas colheres cheias de transpiração, uma pitada de inspiração e… Voilá! Salta uma obra de arte no capricho. Não sei que chef inventou essa receita, mas se tivesse que chutar, apostaria na turma do Monteiro Lobato. O pessoal dos salões urbanos efervescentes, não do Sítio. É um palpite lógico, já que ele foi um dos mais empenhados em fritar os modernosos que tentavam transformar as idiossincrasias da arte em picadinho.

Não que o picadinho não prometesse. Prometia. E deu muito caldo, mas só porque os rebeldes tinham mão para a coisa. Não precisavam de receita. O problema, portanto, não era com eles; era com a turba sem rumo e sem sal que vinha em seus calcanhares. O azedume da velha guarda era com o futuro, não com o presente. Já imaginou se a moda pegasse? Qualquer um com um pincel e um conceito ia querer um lugar em galerias e museus. Aí é que o público não levaria artista nenhum a sério, mesmo. Para preservar a honra da categoria, até mesmo dos modenistas que nasciam, que deve ter surgido a idéia de transpiração máxima e inspiração mínima.

Ao invés de questionarem o talento, diriam aos aspirantes que ele era secundário ao esforço. Nada mais teriam que fazer do que estudar, estudar muito, porque aí, qualquer hora dessas, a coisa finalmente pararia de desandar. Seu ponto de vista não é interessante? Abstenha-se de retratá-lo. Não tem sensibilidade? Seja objetivo. Não tem energia? Disseque com método. Se realmente há beleza demais no mundo, cedo ou tarde a insistência acaba fazendo ela se revelar. Óbvio que esse era o discurso para consumo, que a coisa não funcionava bem assim. Mas tanto faz. Importante mesmo era manter os indigestos aferrados aos grilhões do formalismo.

De fachada ou não, o fato é que esse discurso não era mentiroso. A beleza, afinal de contas, é exata. A da mulher andou até sendo medida. Dizem por aí que não importa o lugar do mundo, é sempre o mesmo tipo que monopoliza os olhares masculinos. E isso não tem nada a ver com os seriados americanos que chegam via satélite, mas com os sinais invariantes que fazem da pretendida uma boa reprodutora. Os homens são loucos por maxilares delicados, lábios carnudos e pela razão de 0,6 entre o quadril e a cintura. Na música é a mesma coisa. Para agradar, as notas só podem se engraçar se tiverem a bênção da harmonia. E ainda assim o romance não pode fugir do compasso ou andar fora do tempo.

Mesmo atividades menos exatas são igualmente precisas. Um soprador de vidro, por exemplo. Ele não tem escalas, intervalos definidos, nada, mas a taça que faz é tão estudada quanto uma sinfonia. A diferença é que a régua da experiência não se traduz no papel, ainda que seja ela desenhando as curvas e moldando o copo. Da mesma forma, é o termômetro da pele que determina se o suor do vidro resultará num cristal ou num copo de requeijão; e é o peito do artesão que calcula a estrutura da finíssima coluna de ar a sustentar o bojo da taça. No fim, são essas medidas, precisas, ainda que não exatas, que fazem com que a taça seja taça, ao invés de um objeto qualquer de vidro.

Pronta, ela é a síntese da beleza através do método. Consegue ser estética e funcional. É bela em seus contornos, em seu equilíbrio precário e até mesmo na sua fragilidade anunciada. Mas é perfeita porque revela o que existe de bonito no que acolhe. Ela se anula de bom grado se for para realçar o perfume de um bom cabernet ou fazer de um débil ponto de luz estrelas de brilho intenso; se for para deixar entrever a verdadeira textura daquele tinto ou revelar um mundo repleto de linhas impossíveis. Essa taça é como a melodia que recebe os versos ou a modelo em seu pret-a-porter. Linda sozinha, sublime se acompanhada.

Só que apesar dos visíveis méritos de sua filosofia, os formalistas foram despejados do mundo artístico. Para o bem e para o mal, os fãs da turma do picadinho tomaram conta do espaço. Mas não precisa ficar com pena, não. O pessoal que se apóia em pesquisa, técnica e insistência para embelezar até o absurdo achou um novo teto. Chama-se Marketing Político.

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2 Comentários on "Caleidoscópio"

  • Rafael diz

    Bom, eu só queria dizer: PUXA!

  • paulo diz

    apesar de não partilhar da mesma opinião sobre o picadinho, como vc bem sabe, os ingredientes da sua crônica são de primeira.

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