Carta Cartográfica

É um dia como qualquer outro. Você está lá, tranquilo, tudo na mais perfeita normalidade. Aí chega o e-mail. Um e-mail inesperado, vindo sabe-se lá de onde – quer dizer, você sabe, mas assim é mais dramático. Seja como for, chega o e-mail. Nele, o convite para uma festinha no sábado. Até aí nada de mais. Só o simpático desejo de um amigo de comemorar o aniversário dele com você por perto. Legal, legal. O convite segue o roteiro de sempre. Primeiro os gracejos habituais, depois a informação que é tudo de graça – detalhe importante nesses tempos de consumação mínima e festas em bares ou danceterias – aí vem a data e, por fim, o endereço.

Engraçado. Você nunca ouviu falar dessa rua. Será que leu direito? Pára tudo, nova olhada. Agora com atenção redobrada. É, é isso mesmo. E a rua continua sendo desconhecida. O jeito é procurar um amigo na lista de destinatários e ver se ele pode ajudar.

– Faaaaaala!
– Beleza, carinha?
– Opa, só.
– E aí, o que pega?
– Sabe o lance da festa do Zuê?
– Sei. Que tem?
– Onde é essa jaca?
– Nem idéia, mas fica tranquilo que ele falou que vai mandar um mapinha.

Claro, que bobagem. O tal mapinha é obrigatório. Normalmente é feito à mão e sempre, repito, sempre, faz a coisa parecer mais simples do que é. Para isso conspiram também os deuses. Pode reparar como todas as vezes que partimos com rumo incerto o céu está azul, a temperatura está amena e a idéia de cair na estrada até parece convidativa. Tudo artifícios para nos distrair de nosso ignóbil destino. Basta chegarmos ao fim do trecho que conhecemos para aparecer uma certa instabilidade. Na gente e no céu. O firmamento balança por causa das risadinhas divinas, satisfeitas com a peça que pregaram; nós trememos porque de repente fica claro que não sabemos para onde estamos indo.

A essa altura você já está num caminho sem volta. Na verdade, vocês. Sim, vocês, plural, porque ninguém é louco de embarcar numa dessas sozinho, espero. É indispensável contar com no mínimo mais uma pessoa no carro. Afinal, alguém tem que segurar o mapa e levar a culpa quando as coisas começarem a dar errado. Isso deve acontecer em algum ponto entre a metade e três quartos da viagem. Esse fenômeno tem uma explicação bastante simples. É como o clássico “tenho que atravessar um descampado com chuva”. À medida que o meio do caminho se aproxima, cai cada vez mais água. No nosso caso, quanto mais andamos, mais longe ficamos de qualquer lugar remotamente conhecido. Com um agravante, ainda por cima: um simples desvio é suficiente para nos lançar em um mundo completamente estranho. E aparentemente não-cartografado, uma vez que é impossível achar no Guia de ruas aquela em que você se encontra. Para completar, você não está apenas irremediavelmente perdido, mas também distante o suficiente da casa do seu anfitrião para ele não fazer idéia do seu paradeiro. Nem adianta tentar ligar.

Diante de uma situação dessas, o primeiro reflexo de uma pessoa sensata é achar um posto de gasolina para pedir informações. Os mais paranóicos podem aproveitar a parada também para encher o tanque. Nunca se sabe, certo? O problema é que você e a população local não falam a mesma língua. Assim, cruzamentos viram rotatórias, ruelas se transformam em avenidas e o termo “centro” acaba sendo tomado por “distrito industrial”. Pior ainda é descobrir que os nativos não têm uma língua mãe, mas dialetos; daí as informações recebidas em cada parada serem contraditórias. Ou isso ou eles são o tipo de gentinha que se diverte jogando os perdidos de um lado para o outro, os malditos. Mas, verdade seja dita, nós não facilitamos para eles. Quem pode culpar o solícito cidadão por não saber em qual praça está a Farmácia Alegria indicada no mapa? Ninguém tem a obrigação de saber que é a que fica perto da padaria Santo Avozinho. O mapa que o desgraçado mandou não serve nem para conseguir orientação.

É que todo bom mapa de festa de aniversário não traz coisinhas prosaicas como nome de ruas, praças e bairros. Eles são práticos. O único endereço que consta é o da casa do infeliz. O resto das ruas rabiscadas vêm acompanhadas de referências melhores, como a orientação para pegar a saída da direita no viaduto depois do terceiro farol ou para não perder a entrada à esquerda depois do galpão com a parede lateral rosa-choque. Aquela ali, logo depois do McDonald´s. Aliás, estar perdido e ter um McDonald´s como referência é uma das maiores desgraças que podem acontecer.

– O McDonald´s é subindo ou descendo a avenida?
– Isso.

Não sei o motivo, mas mapas feitos à mão têm essa irritante mania de excluir informações precisas e achar que a pessoa não vai errar o caminho. Não tem como se enganar com uma trilha de migalhas como essa, deve pensar o bem-intencionado aniversariante. O que ele não lembra é que quem nunca andou pela região não sabe de que lado e em que altura da estrada vai aparecer o tal galpão com parede cor de rosa. Nem que existem outras coisas cor de rosa pelo caminho. Além disso, muitas vezes o que um chama de galpão não passa de ruína abandonada para o outro. É melhor deixar as intimidades para a festa, não para os mapas. Que eles tenham a liberdade de indicar a saída 28B da rodovia, de dizer que o lado certo do viaduto é o da placa “Belo Horizonte/Atibaia” – ainda que pareça esquisito – e de informar o nome das ruas e praças perto do local das comemorações. As chances de alguém se perder seriam menores, e se acontecesse, seria mais fácil o desgarrado reencontrar o rumo.

Até entendo que o autor do mapa não lembre de todas as placas do percurso. O sujeito fica tão acostumado com o trajeto que pára de prestar atenção. Nesse caso, aqui vai uma dica: entrem em um desses sites de geoposicionamento, pesquisem o melhor caminho e mandem o link no e-mail. É mais rápido do que desenhar e escanear o mapa. Mas se mesmo depois desse apelo os aniversariantes nômades do mundo continuarem insensíveis, exerça seus direitos. Diga “NÃO” ao mapa manuscrito. E largue mão de ser preguiçoso: olhe você mesmo como chegar lá.

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7 Comentários on "Carta Cartográfica"

  • Dani diz

    Putz, Paulão. Estava prestes a te mandar um mapa pra uma festinha em uma chacará mais ou menos perto de Atibaia…

  • Rafael diz

    Sinto que fui citado nesse texto …..

    O mais engraçado é que com o mesmo mapa, 3/4 dos convidados chegam sem problemas. Parabéns, acho que passei por esse tipo de situação dezenas de vezes, talvez seja um motivo para tentar me vingar e fazer o mesmo mapa manuscrito para a minha próxima festa, hehehe.

  • paulo diz

    O que me motivou mesmo a escrever isso foi a epopéia desse sábado, em Guarulhos. Duas horas para chegar na tal festa. E ainda erramos o caminho na volta. Ô, mas lembra do retorno de 90Km que o ricardo teve que fazer para chegar no sítio? :)

    De qualquer jeito, pode ficar tranquilo que eu não me eximo de culpa. Sou péssimo para ler esses mapinhas. Eles são como problemas de física para mim: ou tem informação sobrando ou faltando, nunca na medida certa.

    E Dani, pómandar! Se ele vier com as indicações,vc provavelmente vai me economizar umas horas de estrada. ;)

  • Murilo Boudakian Moyses diz

    Paulão, não me venha com desculpas, hehehe. Você que entrou no sentido errado da estrada quando fomos para o sitio do Rafa, hehehehe.

    Mas ta perdoado.

  • Nico diz

    hehehe… uma vez Paulo, sempre Paulo ! Cool !!!

  • Hahahahahahaa…. só li agora!

    Rafael citado? Só faltou você dizer o nome… heheeh…. eu também me meto em algumas dessas. Felizmente, o Guia 98 (já desatualizado) sempre anda comigo. Claro, não ajuda muito, como todo cronista sabe. A verdade está (sempre!) na crônica.

  • ok

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