Intransitividade

” (…) Tudo que se via era a nuvem de pó rastejando pela estrada, se dissolvendo e refazendo a cada poucos metros. Só muito depois, quando finalmente venceu a ladeira, que o velho carro apareceu ao lado do vigilante carvalho na beira da estrada. O motor vinha soluçando havia alguns quilômetros, mas se recusava-se a faltar a seu dono na mão. A recompensa veio na forma de uma breve parada. O valente carrinho descansaria enquanto ele checava a carga.

João desceu, esticou as pernas, e logo pôs-se a fazer o inventário. Ou, pelo menos, algo que para ele se assemelhava a um inventário. Era tanta coisa abarrotada no veículo que mesmo que quisesse não conseguiria levar a cabo uma operação que seguisse as normas internacionais. Havia pacotes no assoalho, no banco de passageiros, no banco de trás, no porta-malas e até mesmo no porta-luvas. O carro estava completamente tomado de pacotes de biscoito.

Os olhos de João passeavam pelas sacolas, contando-as uma a uma, às vezes duas ou três vezes a mesma. Esses pequenos erros lapsos não o impediram de alcançar a quantidade contada no momento da partida. Falhas de controle e metodologia à parte, não havia qualquer motivo para desconfiar que os números não fossem os mesmos. A viagem tinha sido tranquila, e assim continuaria até a cabana.

Retomou a estrada e, pouco tempo depois, chegou.”

– Pronto?
– Acho que sim…
– E aí, gostou?
– É, tá interessante.
– Interessante?
– Isso.
– Certo.
– Gostei do estilo…
– Mas?
– Não sei….
– Vai, pode falar.
– Assim, gostei do jeitão do texto, e tudo, mas… Ah, sei lá.
– Não, não. Fala! Quero saber!
– Acho que não ficou claro.
– Hum… Não ficou claro?
– É, quer dizer, tem uns pontos que estão meio confusos.
– Sei.
– E de repente podia ter um ou outro detalhe a mais.
– U-hum. Que mais?
– Ah, é mais isso mesmo.
– Tá. Então tirando essas coisinhas você gostou?
– Sim. Achei interessante.
– O “interessante”, de novo.
– Pois é. Mas olha, acho que eu vou gostar bastante quando você acabar.
– Do que é que você está falando? Eu terminei!
– Tem certeza?
– Claro que tenho! “Chegar” é verbo intransitivo. Não pede complemento, só ponto final. Foi o que eu fiz. Ponto. Fim.
– Ah, fala sério!
– Estou falando.
– Não, não tá. Não é possível.
– É melhor você parar, senão vai acabar me irritando.
– Na boa, irritado estou eu. Você fica falando de um cara estocando biscoito durante trezentos e oitenta páginas e fica por isso mesmo? Por que ele faz isso? Por que encher o carro e viajar? O que diabos tem a cabana a ver com o resto? Te ocorreu, assim, quem sabe, explicar esses “detalhes”?
– Puxa, até ocorreu. Vai ver é por isso que está tudo no livro.
– Falou então. Só se for em código.
– Todos os elementos estão lá. É só ler direito.
– Engraçado. Eu fiz isso e não encontrei nada. Especialmente sentido.
– Essa passou dos limites. Agora chega!

PS: Infelizmente não posso continuar. Como sabemos, “chegar” é verbo intransitivo, e por isso dispensa complementos.

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2 Comentários on "Intransitividade"

  • Rafael diz

    Inicialmente, esta crônica me lembrou uma reportagem na revista VEJA que falava sobre os autores sem-estilo. Porém, logo vi que se tratava de uma obra metalinguística.

  • Renata diz

    Não fala isso que ele surta!!!

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