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Intransitividade - (07-03-2002)

” (…) Tudo que se via era a nuvem de pó rastejando pela estrada, se dissolvendo e refazendo a cada poucos metros. Só muito depois, quando finalmente venceu a ladeira, que o velho carro apareceu ao lado do vigilante carvalho na beira da estrada. O motor vinha soluçando havia alguns quilômetros, mas se recusava-se a faltar a seu dono na mão. A recompensa veio na forma de uma breve parada. O valente carrinho descansaria enquanto ele checava a carga.

João desceu, esticou as pernas, e logo pôs-se a fazer o inventário. Ou, pelo menos, algo que para ele se assemelhava a um inventário. Era tanta coisa abarrotada no veículo que mesmo que quisesse não conseguiria levar a cabo uma operação que seguisse as normas internacionais. Havia pacotes no assoalho, no banco de passageiros, no banco de trás, no porta-malas e até mesmo no porta-luvas. O carro estava completamente tomado de pacotes de biscoito.

Os olhos de João passeavam pelas sacolas, contando-as uma a uma, às vezes duas ou três vezes a mesma. Esses pequenos erros lapsos não o impediram de alcançar a quantidade contada no momento da partida. Falhas de controle e metodologia à parte, não havia qualquer motivo para desconfiar que os números não fossem os mesmos. A viagem tinha sido tranquila, e assim continuaria até a cabana.

Retomou a estrada e, pouco tempo depois, chegou.”

- Pronto?
- Acho que sim…
- E aí, gostou?
- É, tá interessante.
- Interessante?
- Isso.
- Certo.
- Gostei do estilo…
- Mas?
- Não sei….
- Vai, pode falar.
- Assim, gostei do jeitão do texto, e tudo, mas… Ah, sei lá.
- Não, não. Fala! Quero saber!
- Acho que não ficou claro.
- Hum… Não ficou claro?
- É, quer dizer, tem uns pontos que estão meio confusos.
- Sei.
- E de repente podia ter um ou outro detalhe a mais.
- U-hum. Que mais?
- Ah, é mais isso mesmo.
- Tá. Então tirando essas coisinhas você gostou?
- Sim. Achei interessante.
- O “interessante”, de novo.
- Pois é. Mas olha, acho que eu vou gostar bastante quando você acabar.
- Do que é que você está falando? Eu terminei!
- Tem certeza?
- Claro que tenho! “Chegar” é verbo intransitivo. Não pede complemento, só ponto final. Foi o que eu fiz. Ponto. Fim.
- Ah, fala sério!
- Estou falando.
- Não, não tá. Não é possível.
- É melhor você parar, senão vai acabar me irritando.
- Na boa, irritado estou eu. Você fica falando de um cara estocando biscoito durante trezentos e oitenta páginas e fica por isso mesmo? Por que ele faz isso? Por que encher o carro e viajar? O que diabos tem a cabana a ver com o resto? Te ocorreu, assim, quem sabe, explicar esses “detalhes”?
- Puxa, até ocorreu. Vai ver é por isso que está tudo no livro.
- Falou então. Só se for em código.
- Todos os elementos estão lá. É só ler direito.
- Engraçado. Eu fiz isso e não encontrei nada. Especialmente sentido.
- Essa passou dos limites. Agora chega!

PS: Infelizmente não posso continuar. Como sabemos, “chegar” é verbo intransitivo, e por isso dispensa complementos.



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:: recomende :: comente este texto (2) ::
Rafael - rafaelmamute@ig.com.br • 08-03-2002 04:08

Inicialmente, esta crônica me lembrou uma reportagem na revista VEJA que falava sobre os autores sem-estilo. Porém, logo vi que se tratava de uma obra metalinguística.

Renata - renata.natacci@jwt.com • 15-03-2002 03:49

Não fala isso que ele surta!!!

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