Sequestro Relâmpago

O Geraldo vinha descendo a rua em passos acelerados. Não podia perder a próxima condução de jeito nenhum. Além de só passar de hora em hora, era a última lá para os lados dele. Se não pegasse aquela, ia ser complicado voltar para casa. Para você ver como são as coisas. Ficava o dia inteiro para cima e para baixo com o carro do patrão, aí chegava o fim do dia e ele tinha que sair correndo para não ficar a pé, sem condições de ir a lugar algum. Mas ele não se ressentia, não. Levava numa boa, achava até divertido o paradoxo, palavra bonita, que não cansava de martelar na sua cabeça. Ela continuava marretando as idéias do Geraldo quando ele avistou dois faróis se aproximando. Só que não eram os do ônibus.

Uma hora depois, o telefone tocou na casa da Zuleide:

– Alô?
– Boa noite. Quem fala?
– Quer falar com quem?
– Com a… Glorinalva ( é isso? ), faz favor?
– Olha, ela não mora aqui, mas – a voz interrmpe do outro lado:
– Ah, não, é? Tá bom, então.

O rapaz desligou. Virou-se para o banco de trás, onde estavam o Geraldo e outro homem. Foi com esse que ele falou:

– Ô, Sabugo, o bacana aí tá tentando enrolar a gente. Não tem nenhuma Glorinalva nesse número, não.
– É verdade isso, bacana? – o Sabugo inquiriu o Geraldo. Meio sem ação, tremendo, só balbuciou “É”.
– Tou falando que o cara é folgado. Admite assim, na maior caruda.
– Também não é assim, Tantam. Ele tá meio estresse, só isso. – para o Geraldo – Fala sério, cebê. O que é esse telefone que você deu pra a gente?
– …
– Olha, a gente é profissional. Quanto mais você colaborar, mais rápido acaba. Então, o que é esse telefone?
– Hum…. É um… Um telefone de recados.
– Como assim, de recados?
– É, a gente não tem telefone, né, então a dona Zuleide deixa a gente dar o número dela e anota quem ligou.
– Um telefone de recados…
– É o jeito, fazer o quê.
– Ele tá zoando a gente! Ele tá zoando a gente!
– Fica na boa, Tantam. Ele tá cooperando, não tá? – o Geraldo concordou com a cabeça.
– Não. Ele só pode tá zoando a gente. Todo mundo tem telefone hoje em dia!
– Peraí, também não é assim. Telefone ainda não é tão comum.
– Uma droga de uma linha custa setenta reais, pelo amor de deus. Tem que ser muito pé rapado pra não ter telefone.
– Também não precisa humilhar o cara, Tantam. Ele não tem culpa. Respeita, né, meu?
– Cacete!
– …
– Isso é culpa tua, Sabugo!
– Minha?
– É, tua.
– Ô, peraí.
– Peraí, nada. É culpa sua, mesmo. Eu te falo que essa coisa de sequestrar neguinho em ponto de ônibus é furada.
– A gente já discutiu isso. Não dá para ficar arriscando.
– Acorda! Você é bandido, seu retardado.
– Não precisava pegar pesado.
– Tá, mal.
– …
– Não quero catar figurão, mas pelo menos alguém com carro. Até um carinha a pé, mas com roupa boa, e tal. Mas não. A gente vai num ponto de ônibus, a essa hora. Só pode dar nisso mesmo: um cara com número de recados.
– Nem tanto, cê tá exagerando….
– Coisa nenhuma. Presta atenção nesse aqui. Na carteira, só dezoito centavos e três passes. Na conta dele, nem isso. E a gente fica no prejú. É crédito de ceuluar ( para ligar para um telefone de recados, ainda por cima. Não me conformo ), gasolina. Além disso, a gente não pode ficar enrolando. Ou é na hora ou não é. – o Geraldo, que só acompanhava a conversa, não conseguiu se conter:
– Sério? Vocês não vão me levar para lugar nenhum, então?
– Claro que não! Cê tem idéia de quanto custa manter um cativeiro? Apesar de não ser barato, fazer isso de carro fica muito mais em conta.
– Ainda mais se você pode roubar o carro, né não, Tantam?
– Opa, só.
– Hehehehehehe
– Aliás, o tio aqui me lembrou de uma coisa?
– É?
– Ahã.
– O que?
– O que vamos fazer com ele?
– Boa pergunta.
– É o seguinte, gente boa. Precisamos tirar algum disso aqui. Perdemos muito tempo com você, indo em caixa eletrônico, papeando aqui… Ou você paga ou a gente te apaga.
– Mas… mas… eu não tenho nada!
– Qual o tamanho da sua TV?
– Vinte polegadas.
– Devedê?
– Deixa de ser burro, Sabugo. O cara não tem nem telefone, vai ter devedê? – para o coitado do Geraldo – Tem ou não?
– Não.
– É, então desculpa, carinha, mas não vai dar não. Diz tchau aí.
– NÃO! Espera!
– “Espera”. Esperar o que, vovô?
– De repente tem um jeito de pagar vocês.

Os três discutiram mais uns minutos e partiram. Como o Geraldo tinha perdido o último ônibus por causa deles, o Tantam e o Sabugo resolveram dar uma carona para o ex-refém. Os dois deixaram o Geraldo perto de casa e foram embora, garantindo que não iam depositar os pré-datados antes do combinado.

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2 Comentários on "Sequestro Relâmpago"

  • ahhahaahaha…… os maiores anti-bandidos assantando o maior anti-vítima….

  • Anônimo diz

    mais o menos

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