Via Sacra

Gosto de conhecer lugares novos, de ver paisagens diferentes, de provar comidas típicas. Ou seja, gosto de viagens. Mas tenho sérios problemas com tudo que acontece entre a partida e a chegada. Odeio viajar. Até uns testes de aptidão que andei fazendo acusam a minha aversão a deslocamentos. De um a dez, tirei dois – isso graças aos aviões ( e em um mundo ideal, a trens também ). Só não fui pior porque o exame fez vista grossa. Se ele tivesse se interessado, descobriria que a minha política para transporte rodoviário é republicana: tolerância zero.

Só que, obviamente, nada disso importa quando sou obrigado a viajar. Toda vez que isso acontece tento aproveitar ao máximo a viagem em si. Ficar pensando nas coisas que vou ver e nos costumes que vou encontrar ajudam a me distrair. Foi com esse espírito que embarquei para São Bernardo do Campo.

Pausa! Esse parágrafo é para você que está pensando em me chamar de fresco porque São Bernardo é “aqui do lado”. Os outros podem pular para o próximo trecho. O menor caminho indicado por um site de geoposicionamento – sim, eu faço o que digo – tinha 50 Km. Percorrendo o mesmo tanto, mas indo para o outro lado, eu chego em Itu. E todo mundo diz que ir para Itu é viajar. É a mesma distância. Para quem ainda não se condoeu, posso dizer que atravessar São Paulo não é figura de linguagem, e que além da capital ainda ficam para trás outras quatro cidades. Isso sem contar que é impossível chegar em São Bernardo em menos de uma hora e meia. Claro que se você acha que ficar no carro todo esse tempo é normal para distâncias abaixo de 120Km, eu certamente não consegui te convencer. Nesse caso, bom, leia até o final para poder me chamar de fresco com propriedade. Fim da Pausa.

São Bernardo podia ter menos caminhões e as ruas podiam ter placas informando seus nomes, mas como a observação vale para a maioria das cidades do mundo, não vou ficar pegando no pé. Desconto dado, o resto pareceu legal. Um povoado bem-cuidado e organizado até nos detalhes. A marca do progresso também estava lá: tinha umas avenidas estalando de novas. A civilidade desse simpático povo aparece até nos bairros mais tradicionais. Mais precisamente, desenhada nas ruas dos tais bairros tradicionais. Sabia que lá as vagas são pintadas no chão? Pois é. Todas as vias tem as vagas demarcadas, e o que é melhor, todo mundo respeita. Uma beleza. Facilita pra burro na hora de estacionar.

Tanta diferença na configuração do espaço urbano, no entanto, tem suas implicações. Um olhar treinado com certeza seria capaz de identificar de cara as peculiaridades culturais que elas indicam. Como esse não é o meu caso, conheci um pouco da cultura são bernardense, ou são bernardina, não sei, na pele. Participei de um ritual conhecido como pré-multa. A principal característica da pré-multa, também chamada de Aviso de Prazo de Tolerância, é ser ao mesmo tempo amada e odiada. É o equivalente ao purgatório das repartições municipais.

Quem recebe uma notificação dessas ganha 72 horas para pagar uma taxa em um posto especializado. A quantia é menor do que uma multa e os postos são dedicados exclusivamente a atender aos pré-infratores. Isso é bom – ou menos pior, quem sabe. Mas o que, afinal de contas, leva alguém a ser pré-notificado? Bom, o desconhecimento dos costumes locais. Por isso os forasteiros são as maiores vítimas desse rito. Lembra aquela coisa das vagas pintadinhas no chão, bonitinhas, e tudo isso? Elas não são bem o que aparentavam. Não são um avanço na gestão municipal, mas um dos pilares da decadância de São Paulo. As vagas rabiscadas no asfalto são a expressão máxima e inequívoca do loteamento das cidades. Só pode parar nelas quem paga. Pena que não deixam isso explícito. Não há placas de orientação e os parquímetros eletrônicos são como os tiozões que vendem talão de Zona Azul: nunca estão onde podemos achá-los.

Na Central de Atendimento ao Usuário, nova surpresa. Os são bernardopolitanos, ou beneditinos, sei lá, não são pacatos. Ao contrário. São ferozes e violentos. Pelo menos de acordo com os diversos avisos pregados na parede, declarando que o atendente também é gente e implorando um comportamento cordato. Junto desse papel, uma oração falando de harmonia e cooperação entre os homens. Tudo em vão. Nenhum deles impediu o nativo que estava na minha frente de brigar com a funcionária. Ele ainda trazia o filho a tiracolo, com a clara itenção de ensinar a prole a ser brava e combativa. Quando chegou a minha vez, não quis saber de conversa. Paguei e saí rapidinho. A minha via sacra estava longe de terminar. Eu ainda tinha a viagem de volta.

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9 Comentários on "Via Sacra"

  • Paulo diz

    O contraste entre SP e as cidades que estão em volta é pesado. Aqui na minha terra tbm é outro esquema de vida. Ainda não tem parquímetro, mas por outro lado não tem onde estacionar nas ruas. Acontece. Quanto à distância… Ahá! Eu sou chato! Não vou deixar quieto! ( hehehehehehe )

    Refiz o caminho e vc pode conferir o resultado aqui. E como o ponto inicial fica a uns 4 ou 5 Km lá de casa, a distância que eu citei no texto mesmo.

    Antes de ir, uma homenagem aos 10 anos ( tudo isso? Caramba! hehehehe )de exploração no ABC: Paulo, we salute you! ( copyright do Mytho )

  • Paulo diz

    Ou melhor, o mapa tá aqui

  • paulo diz

    Muito legal o recurso da pausa, mas algumas informações não conferem. Como vc já deve saber, há dez anos namoro a Fernanda, que por um acaso mora em SBC. A distância da minha casa, que fica em santana – zona norte, ou seja, extremo oposto, é de 35 km. Quanto ao tempo, é verdade, é quase impossível chegar lá em menos de 1 hora e meia (o mesmo trajeto de madrugada leva 30 minutos).

    Mas apesar de não ser tão longe quanto vc disse, lá realmente tem um ar de cidade do interior. Repare no sotaque, todo são bernardense fala porrrrrta.

  • paulo diz

    Vc me mata de rir… Onde já se viu colar um mapa nos comentários, a que ponto chegamos… De qualquer forma vc tem me desculpar. Eu não sabia, ou melhor, não lembrava que vc morava em Barueri, ops, desculpe, Alphaville. Aliás, como eu já te falei pessoalmente, é o manco falando do aleijado. Pô, um cara que mora no município de Barueri, desculpe, Alphaville, falando que SBC (até para escrever dá preguiça) é longe! Quanto a homenagem, eu acho que vc deve concordar comigo que existem mulheres que valem o sacrifício. O tempo e o espaço se comportam de maneira diferente na mente dos apaixonados (caralho, que brega!). Sorte sua, se fosse diferente, os maiores prejudicados seriam os moradores de locais longínquos, como Barueri, ops, Alphaville, por exemplo.

  • Agora é comigo.

    Não por causa do brega, mas por causa da distância. Minha namorada, vocês sabem, mora longe à beça. Lá em Lins, lembram?

    Pois é. Acho que eu ganho. Lins está a exatos 444 Km, ou 4h30, de Sampa. Não sei se vale a pena (hehehe… claro que vale!), mas que eu prefiro ir a Lins do que gastar 1h30 pra chegar em Barueri, ops, Alphaville, SBC ou São Miguel Paulista, putz, eu prefiro.

  • Camila diz

    Vc quer morrer é ?

    Se não vale a pena não vem mais, mas tb não tem mais trufa (se é que vc está comigo por causa das trufas).

  • van diz

    Querido, eu nao sei se ri mais com a cronica ou com os comentarios… e olha que eu estou aqui a nao sei quantos mil km do Brasil. Beijo grande! Saudade, van

  • Sérgio diz

    Paulão. Tenho uma palavra para essa crônica. E nem é original é. Plagiando acintosamente o grande narrador de amenidades ribeirão pretanas, só posso dizer uma coisa: típico!

    Esse texto é muito autobiográfico; não? Bom, não importa, é autocrítico e gostoso de ler. Muito bom!

    P.S.: essa não é para você Paulão….

    “Tem coisa que aparece do nada e a gente não sabe de onde vem” – Anônimo da Zona Norte” – Pergunta: Vandreza, c tá bem?

  • Paulo diz

    Biográfica? Nããão….

    Pô, depois de morrer com R$15 por causa daquela %$#& de máquina, eu tinha que transformar o mico em alguma coisa, né não?

    Van, meu, que ótima surpresa! Como é que tá a vida aí nas terras geladas? E quando vc volta???

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