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Reclame - (08-06-2002) Reclamar é uma espécie de esporte nacional brasileiro. Só não dá para ser categórico porque reclamar dispensa disputas e adversários. Quando uma queixa leva ao confronto já não estamos mais falando de reclamação, mas de discussão, de elevação de voz ou de pugilato. Reclamação que se preza foge de briga. Seu isolamento do nascimento até o último resmungo é questão de sobrevivência. Como não é sinônimo de injustiça, reclamação nem sempre é muito coerente, e portanto se torna presa fácil até para argumentos de adolescentes. Tudo isso talvez a afaste dos ideais olÃmpicos e do fair play, mas não do coração brasileiro. Se a gente pudesse chamar reclamação de esporte, não tenho dúvidas que ela seria mais popular que futebol. Reclamar é muito mais democrático que jogar bola. Primeiro porque as mulheres adoram, segundo porque está ao alcance de todas as idades e tipos de condicionamento fÃsico. Nunca se é velho demais, ou gordo demais, ou fumante demais para reclamar. Sem contar que o Brasil tem as condições ideais de treinamento. O brasileiro pode reclamar do trânsito, dos polÃticos, do serviço público, dos preços, dos polÃticos, do trabalho, dos impostos, uns dos outros e até dos polÃticos. Ou de qualquer outra coisa que der na telha, porque a questão não é apenas de infra-estrutura e dedicação, mas de talento também. E reclamar é uma coisa que está no nosso sangue. Temos, inclusive, um calendário para isso. Informal, vá lá, mas muitÃssimo organizado: o planejamento de trabalho é sério e seguido à risca. Além do treinamento intenso no dia-a dia, ele prevê a utilização das eleições minoritárias e das OlimpÃadas como preparatórios para o grande evento. A apoteose da reclamação ocorre mesmo a cada quatro anos. Por uma dessas coincidências fortuitas que só o destino explica, fomos agraciados com a Copa do Mundo e as eleições presidenciais caindo na mesma época. Durante esse perÃodo o paÃs pára para se queixar da seleção e dos polÃticos, nessa ordem. Especialistas e anônimos se reúnem em volta de mesas pelo Brasil afora para detonar o desempenho do time, a convocação, o penteado do técnico, o salto dos jogadores. Em rede nacional ou em botecos, as pessoas não fazem outra coisa senão reclamar das derrotas, empates, e já que estão no embalo, das vitórias. Passado o frisson esportivo, as atenções se voltam para o campeonato de vale tudo. Aà é a vez de a classe governante mostrar que golpe abaixo da cintura também vale, desde que bem aplicado. Sempre, claro, com a consciência de que mais importante do que levar o adversário à lona é fazê-lo com classe. Por isso os candidatos mantém uma conduta livre de preconceitos e um discurso inclusivo: reclamam indiscriminadamente do que aparecer pela frente. De vez em quando um deles escorrega e ofende uma minoria, como o molequinho que comparou o trabalho quente de um instituto de pesquisa com paezinhos recém-saÃdos do forno dos patrÃcios. A febre é tão grande que até o governo, esse grande reclamado, se anima a distribuir suas lamentações. Então oposição, situação e ocasião se abraçam para reclamar das siglas internacionais, do mercado e da imprensa. Envolvida pelo clima, até a imprensa reclama da imprensa. E nós, sortudos, reclamamos de todos eles. Tanta organização e paixão colocaram o Brasil no mapa da reclamação institucionalizada. Hoje fazemos parte do primeiro time da diplomacia mundial e podemos dizer com orgulho que o Itamaraty é uma das grandes forças na produção de queixas. O engraçado é que a nossa supremacia parece não incomodar as ciosas potências tradicionais. Talvez seja porque só se reclama daquilo que não se pode mudar. |
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paulo - prvasc@terra.com.br 21-06-2002 02:33
isso é tão verdadeiro que o brasileiro costumava chamar propaganda de reclame. Ironicamente, acho que ninguém vai reclamar deste texto. Ou subestimo o talento e a criatividade do paÃs do reclame? |
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Paulo - paulocoelho@cronistasreunidos.com.br 22-06-2002 10:31
Bom, o Murilo já reclamou. Mas até aÃ, ele é mestre na arte… E eu, segundo dizem, um talento que ainda precisa ser lapidado. Mas isso vale para qualquer um de nós. Ou não? |