Vila Perdida

Essa é uma história de esperança, estrelada, por que não, por uma criança. O nosso protagonista é Tião, o menino que ora sacoleja na traseira da condução. Fora já é final de tarde, o sol mingua e a noite chega, sem alarde. O carro segue o caminho de barro rumo a Vila, escondida da cidade e, pelas próximas horas, da claridade. O lugar também é chamado de Vila Perdida, pobre povoado de periferia, esquecida do pessoal lá de cima.

Aqui não se encontra água encanada, rua asfaltada ou gente empregada. É terra de vida que se sustenta a duras penas, de quem mal e mal se alimenta. Esse povo molambo vive mesmo à base do escambo. Uns poucos têm trabalho, mas que consolo: a carteira assinada os leva para o outro lado da estrada. O coitado é obrigado a deixar o lar se quiser trabalhar, porque para quem mora aqui o traslado é por demais demorado. O operário não é mais que marido de sábado e pai de feriado. São as famílias de vigília, como se diz, dividindo o grotão com as famílias que por um triz são, e que se ainda são, é graças à caridade de algumas pessoas da cidade, não por outra razão. A vida não passa de uma contingência na Vila do eterno estado de emergência.

Hoje, porém, o dia vai acabando bem. Foi data de lhes estenderem a mão. A missão distribuiu comida na comunidade ferida. O cheiro de janta já se espalha sem demora pelos barracos afora. Será noite de bucho forrado, sono embalado e corações confortados. Mas daqui a pouco. Por agora ainda um coração palpita com aflição. É o daquela mãe ali no ponto, ansiosa por ouvir o ronco que anuncia o retorno da cria. Quando vê o ônibus do seu Tião, acaba-se a preocupação. Ela espicha o pescoço, acha o garoto solto, folgado. A semana não é terminada, por isso o menino não teve companheiros durante a jornada. Neste dia pôde vir esparramado, mas há outros, muitos, em que o filho padece no coletivo lotado.

Todo dia é, para ambos, o mesmo sofrimento, mas a causa é de grande merecimento. Essa mãe e esse filho têm o sacrifício por ofício. Ela, de esperar o menino retornar, ele, de estudar. Sim, estudar. Quem vê dupla tão esfarrapada pensa logo tratar-se de gente iletrada. Enganam-se em tudo, pois os pais de Tião têm estudo. Trabalhavam muito, e bem, honestos, perseverantes, como convém. Tinham tudo encaminhado, aí veio o petardo. Uma crise insistente tornou a companhia insolvente. Nem a boa formação lhes garantiu a função ou mesmo, ainda que pior, nova colocação. É a depressão, diziam uns, recessão, diziam outros, que desastre, as empresas não alcançaram a projeção. Os acionistas, bravos, faziam questão de todos os centavos. Diretores, gerentes, supervisores seguiram cortando vaga, até que não sobrou nada. Nem para eles, nem para ninguém. Lutaram por cada vintém e no fim acabaram sem trabalho também. Como se vê, a saga de Tião e sua vida mal tratada é fruto de uma longa derrocada.

É a mesma história do resto da escória. Toda essa gente arrasta semelhante corrente. Muitos outros sacrificados também eram qualificados. Tinham formação e ambição, ausentes na nova geração. Prostrados, não vêem mal em terem filhos desarticulados. De que lhes vale ler e escrever se trabalho não hão de ter? Se querem mesmo saber, não tem importância. A escola, além de distante, é irrelevante. Pobres pais, substituem ganância com ignorância.

Nisto que a família de Tião é diferente: fazem questão de que a escola ele frequente. O menino também acredita na necessidade da escolaridade. Desde cedo carrega esse credo. Sabe que ser entendido e entender são formas de poder. Por isso se empenha enquanto as letras desenha. Uma a uma estica, pouco a pouco desembaraça o novelo da escrita. Sem pressa faz do caderno uma peça mágica em atmosfera tão árida.

Isso é tudo do Tião, autor falastrão? – inquire o leitor com certo rancor. Entendo. Afinal, no início fiz um anúncio: propus uma trama de esperança, depois enveredei pelo drama. Que triste texto este, um retrato do esgoto que só de pretexto usa o garoto. No papel principal, Tião deveria é conduzir a ação e não ser veículo de mera ilustração. Usei um artifício, admito, mas em seu benefício. Não incorri na mentira, não me esquivei da premissa, ao contrário, cheguei no destino sem desatino. Apesar de toda lamentação, os pais do Tião sabiam que a educação era a saída para sua condição. Mostraram o horizonte, ali defronte, apontaram a via da cidadania. Então, já descobriram a minha picardia? Não? Pois dou a resposta que tanto queria: lhe incutiram coragem e agora é Tião quem age. Forjo a minha narração de outra declinação. Alcancei o fim da estrada, a promessa de menos apuro. Conto tudo daqui, do meu futuro.

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2 Comentários on "Vila Perdida"

  • Ricardo diz

    caramba paulão …

    não tonhalido seu texto … cheguei a subir a barra de scroll, por duas vezes, pra ter certeza que estava no CR. Literatura de primeira seu texto! parabéns mesmo!!

    impressionante …

  • Ricardo diz

    caramba paulão …

    não tonhalido seu texto … cheguei a subir a barra de scroll, por duas vezes, pra ter certeza que estava no CR. Literatura de primeira seu texto! parabéns mesmo!!

    impressionante …

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