Eu, Eu Mesmo e a Metalinguagem

Ninguém nas ruas. O vento cortante e a chuva fina espantaram todo mundo. Na verdade, ele pensa, o frio e o feriadão. Por um motivo ou pelo outro, não encontrou nenhum dos mendigos, viciados e putas que se espalham pela sua rua e redondezas. Apertou o passo quando avistou o prédio. Queria fugir do frio, e até aquele caco velho, caindo aos pedaços, parecia aconchegante. Entrou, passou pelo vigia, um velho que roncava feito o diabo, pelo elevador quebrado e seguiu direto até as escadas. Subiu uns vinte lances antes de chegar à portinha com seu nome no final do corredor estreito. Destrancou a porta e entrou. Destrancou a porta e entrou. – Tá, já ouvi. Destrancou a porta e entrou. – Eu ouvi, pô. E não vou entrar, ok? Destrancou a porta e – Ô! Pára! Não vou entrar, Paulo! – Que droga é essa de “Não vou entrar”? Você não pode ficar parado aí na porta! – Mas eu vou. – Por que? – Ué, e eu vou saber? – Deveria. Se insiste em não entrar, tem que ter um motivo. – É você que está escrevendo. Como é que eu vou saber porque você inventou de fazer essa coisa de metalinguagem? – Bom, o Ricardo vive fazendo, me deu vontade de ver o que pegava. – Tá, beleza. Mas e agora? Como é que vai ser daqui para frente? – Não sei, ainda não decidi… Só queria ver como era, mesmo… E eu vi. Acho que agora posso retomar a história – e o outro, interrompendo – Opa, opa, opa! Não é bem assim. – Claro que é. Como você disse, sou eu que estou escrevendo. – Ah, é? E eu, hein? Sou só um personagem para você usar como bem entender? – É. – Não mesmo! Eu fui isso aí, mas agora eu mando em mim. Sou independente, tenho opinões e só vou fazer o que eu quiser. Chega dessa coisa de ser pau mandado. Tenho direitos! – Direitos?! – Direitos, sim senhor! – Que tipo de direito? O que você quer para eu poder continuar? – Quero sair da história. Ela tá uma droga. Canastrona demais. E a alternativa é fazer uma coisa tipo Ed Mort, que não é nem original nem fácil. – Aí sobra o quê? – Já que estamos aqui, podemos continuar nessa conversa. Mas para ela ficar decente precisamos de uma uma abordagem mais legal. – Olha, acho que já vi todo tipo de metáfora nessa coisa de personagem falando com autor. Com certeza é bem mais clichê que a minha historinha com ar noir. – É nada. Só te digo uma coisa: P-S-I-C-O-L-O-G-I-Z-A-Ç-Ã-O – Psicologização?!?!? – Exato. A gente transforma isso aqui em um diálogo de você com você mesmo, entende? – Hum…. Não deixa de ser uma idéia… – Mas nem pense em se aventurar muito. Esquece o Jung, o Lacan, que você não tem bagagem para isso. Fica com os seus rudimentos de Freud e tenta não passar muita vergonha. – Vamos dizer que eu topasse. Como é que seria? Quem é quem? – Eu sou forte, alto, e o mais importante, tenho belos e fartos cabelos. Falo o que penso e sou o que sou. É mais do que claro que eu sou tudo o que você gostaria de ser. – E eu? – Você é o autor, o cara que fica regulando, me dizendo o que eu posso ou não fazer. Você é a prisão. Todos os fatores limitantes. Ó o drama aí, o conflito entre o que se quer fazer – eu – com o que querem que eu faça. – Sei. Então, numa abordagem mais psicológica, como você chamou, você sou eu? – Sim…. – Tá bom, fecho com você. Tem uma coisa que eu quero fazer mesmo, e como eu sou você, acho que vai funcionar. – o outro eu, concordando com a cabeça, pergunta: – O que é? – Olha só: Ele destrancou a porta e entrou.

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5 Comentários on "Eu, Eu Mesmo e a Metalinguagem"

  • Rafael diz

    Hehehe, essa tal de metalinguagem dá pano pra manga. Muito bom, estilo de sempre e por isso: muito bom!

  • Murilo Boudakian Moyses diz

    “…belos e fartos cabelos” que coisa…

  • Ricardo diz

    Muito bem !! hehe

    “… e o mais importante, tenho belos e fartos cabelos” …. essa frase valeria pela crônica, mesmo que ela não fosse boa.

    Tá vendo … metalinguagem sempre cai bem … parabéns!

  • Paulo diz

    Vi que vcs gostaram dos meus belos e fartos cabelos. Quem não tem sabe da sua importância! Valeu pelos comentários, mamutes.

  • paulo roberto vasconcellos diz

    E tudo isso só pra atravessar uma porta.

    Muito legal.

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