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Eu, Eu Mesmo e a Metalinguagem - (11-07-2002) Ninguém nas ruas. O vento cortante e a chuva fina espantaram todo mundo. Na verdade, ele pensa, o frio e o feriadão. Por um motivo ou pelo outro, não encontrou nenhum dos mendigos, viciados e putas que se espalham pela sua rua e redondezas. Apertou o passo quando avistou o prédio. Queria fugir do frio, e até aquele caco velho, caindo aos pedaços, parecia aconchegante. Entrou, passou pelo vigia, um velho que roncava feito o diabo, pelo elevador quebrado e seguiu direto até as escadas. Subiu uns vinte lances antes de chegar à portinha com seu nome no final do corredor estreito. Destrancou a porta e entrou. Destrancou a porta e entrou. - Tá, já ouvi. Destrancou a porta e entrou. - Eu ouvi, pô. E não vou entrar, ok? Destrancou a porta e - Ô! Pára! Não vou entrar, Paulo! - Que droga é essa de “Não vou entrar”? Você não pode ficar parado aà na porta! - Mas eu vou. - Por que? - Ué, e eu vou saber? - Deveria. Se insiste em não entrar, tem que ter um motivo. - É você que está escrevendo. Como é que eu vou saber porque você inventou de fazer essa coisa de metalinguagem? - Bom, o Ricardo vive fazendo, me deu vontade de ver o que pegava. - Tá, beleza. Mas e agora? Como é que vai ser daqui para frente? - Não sei, ainda não decidi… Só queria ver como era, mesmo… E eu vi. Acho que agora posso retomar a história - e o outro, interrompendo - Opa, opa, opa! Não é bem assim. - Claro que é. Como você disse, sou eu que estou escrevendo. - Ah, é? E eu, hein? Sou só um personagem para você usar como bem entender? - É. - Não mesmo! Eu fui isso aÃ, mas agora eu mando em mim. Sou independente, tenho opinões e só vou fazer o que eu quiser. Chega dessa coisa de ser pau mandado. Tenho direitos! - Direitos?! - Direitos, sim senhor! - Que tipo de direito? O que você quer para eu poder continuar? - Quero sair da história. Ela tá uma droga. Canastrona demais. E a alternativa é fazer uma coisa tipo Ed Mort, que não é nem original nem fácil. - Aà sobra o quê? - Já que estamos aqui, podemos continuar nessa conversa. Mas para ela ficar decente precisamos de uma uma abordagem mais legal. - Olha, acho que já vi todo tipo de metáfora nessa coisa de personagem falando com autor. Com certeza é bem mais clichê que a minha historinha com ar noir. - É nada. Só te digo uma coisa: P-S-I-C-O-L-O-G-I-Z-A-Ç-Ã-O - Psicologização?!?!? - Exato. A gente transforma isso aqui em um diálogo de você com você mesmo, entende? - Hum…. Não deixa de ser uma idéia… - Mas nem pense em se aventurar muito. Esquece o Jung, o Lacan, que você não tem bagagem para isso. Fica com os seus rudimentos de Freud e tenta não passar muita vergonha. - Vamos dizer que eu topasse. Como é que seria? Quem é quem? - Eu sou forte, alto, e o mais importante, tenho belos e fartos cabelos. Falo o que penso e sou o que sou. É mais do que claro que eu sou tudo o que você gostaria de ser. - E eu? - Você é o autor, o cara que fica regulando, me dizendo o que eu posso ou não fazer. Você é a prisão. Todos os fatores limitantes. Ó o drama aÃ, o conflito entre o que se quer fazer - eu - com o que querem que eu faça. - Sei. Então, numa abordagem mais psicológica, como você chamou, você sou eu? - Sim…. - Tá bom, fecho com você. Tem uma coisa que eu quero fazer mesmo, e como eu sou você, acho que vai funcionar. - o outro eu, concordando com a cabeça, pergunta: - O que é? - Olha só: Ele destrancou a porta e entrou. |
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Rafael - rafael@wg.com.br 25-07-2002 03:59
Hehehe, essa tal de metalinguagem dá pano pra manga. Muito bom, estilo de sempre e por isso: muito bom! |
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Murilo Boudakian Moyses - mumoyses@hotmail.com 25-07-2002 04:20
“…belos e fartos cabelos” que coisa… |
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Ricardo - ricardo@cronistasreunidos.com.br 25-07-2002 11:10
Muito bem !! hehe |
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Paulo - paulocoelho@cronistasreunidos.com.br 26-07-2002 08:02
Vi que vcs gostaram dos meus belos e fartos cabelos. Quem não tem sabe da sua importância! Valeu pelos comentários, mamutes. |
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paulo roberto vasconcellos - prvasc@terra.com.br 30-07-2002 08:49
E tudo isso só pra atravessar uma porta. |