Depois do Jantar

Oito e meia em ponto a Fernanda e o Mauro se sentam para jantar.

Ela ajeita os talheres nas travessas, revolve um pouco o arroz, mexe o feijão. Tira o avental enquanto passa tudo em revista. Deixa seus olhos correrem pela mesa até se dar por satisfeita. Quer ter certeza de que não falta nada antes de se acomodar. Odeia interromper refeições, qualquer que seja o motivo. Terminada a inspeção, abre o guardanapo de pano e o pousa sobre o colo. Está pronta para começar a ser servir.

O Mauro só quer saber de comer logo. Chega com fome, cansado, esperando o fim do jantar para encerrar o expediente. A essa altura do dia, está completamente sem paciência. Dá uma espiadinha rápida nas opções e trata de fazer o prato. Meio em pé, meio sentado, pega um pouco de salada, derrama um pouco de azeite e manda ver.

A Fernanda começa pelos quentes. Corta um pedaço simétrico de torta de legumes, põe um pouco de arroz junto da torta e ocupa o espaço restante com um peito de frango grelhado bem light. Em seguida enche o copo de água fresca, para depois, finalmente, dar a primeira garfada. Enquanto mastiga, aproxima a lata de azeite do sal e do vinagre.

Ele já está quase no final da salada. Nem chega a engolir tudo antes de abocanhar outro pedaço. Não sobrou quase nada no prato, mas ele resolve reforçar o azeite. Tem que se esticar inteiro para alcançar a latinha. Enquanto se contorce, dá mais uma garfada. Irritado, se deixa cair na cadeira com o azeite a reboque. Joga um pouco no prato, espeta a alface solitária bem no meio e leva tudo à boca. A folha aberta esconde o seu rosto, que vai ressurgindo à medida que dá mordidas no ar e arrasta a verdura para dentro. Quando a alface some , puxa o arroz e despeja duas colheres cheias. Um pouco de azeite escorre pelo seu queixo. Ensaia olhar em volta, mas interrompe o movimento e levanta. Larga o prato pela metade e some dentro da cozinha.

Ela continua comendo no mesmo ritmo. Mastiga uma, duas, três, trinta e quatro vezes e engole. A cada dois bocados, um belo gole d´água. Até agora conseguiu vencer exatamente metade do prato. A torta, o arroz e o peito de frango foram consumidos em proporções iguais.

Depois de provocar um pequeno terremoto na cozinha, o Mauro reaparece carregando uns pedaços de papel toalha dobrados e uma cerveja. Já limpou o queixo, mas passa o guardanapo improvisado pela boca com força para não ficar nenhuma dúvida. Abre a latinha de cerveja. Põe o copo de lado e decide tomar ali mesmo. Volta a fazer o prato. Afasta o arroz, pega o feijão e se serve de duas conchas. Deixa o feijão de lado, junto com o copo, e arrasta o bife. Dá uma misturada no arroz e feijão o com garfo e volta à carga.

A Fernanda mantém sempre o mesmo passo. Considera as refeições pequenos rituais e faz questão de levá-las a cabo sem pressa. Para ela a qualidade de um banquete está tanto nas iguarias servidas quanto em uma boa experiência geral. Mas hoje não pode negar uma certa preocupação com o relógio. Além disso, a comida parece estar levando junto seu apetite. Rumina a idéia de não comer salada. Melhor pular direto para a sobremesa. Nem para isso precisa se levantar. Tem o costume de deixar algumas frutas à mão e na hora pega a que tiver vontade. Escolheu uma maçã.

O Mauro levantou assim que colocou o último pedaço de bife na boca. Deixou tudo do jeito que estava e foi direito para o banheiro. Não fazia questão de sobremesa. Não queria se atrasar para o show. Se um artista badalado tocar em um lugar tão pequeno já é difícil, imagina conseguir ingresso para o concerto. Ele tinha conseguido e fazia questão de chegar na hora. Precisava se arrumar todo ainda.

A Fernanda já estava pronta, mas não podia perder tempo. Tinha que tirar a mesa e deixar a cozinha arrumada, senão teria que limpar tudo na volta, antes de dormir, ou na manhã seguinte, antes de ir para o trabalho. Colocou as luvas de borracha e cuidou da louça com o maior cuidado para não se sujar.

Às nove e quarenta e cinco eles saíram. Uma hora e quinze depois ela tropeçou nele enquanto se esgueirava pelas mesas do bar. Onze em ponto a Fernanda e o Mauro se conheceram.

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11 Comentários on "Depois do Jantar"

  • Fabiane Secches diz

    Simplesmente ADOREI! Confesso que o final não foi surpreendente para mim, mas o que me surpreendeu foi a sensibilidade desta crônica. A sua idéia fantástica de construir detalhadamente as diferenças, e de repente, por ironia do destino, como é mesmo a vida, os dois se conhecerem. Fico imaginado como serão as refeições do casal! Mas é muito mais do que isso… é uma metáfora (eu e minhas metáforas) sobre o casamento, sobre todas as relações.

    O grande Mário Quintana já disse que “A arte de viver é simplesmente a arte de conviver. Simplesmente, disse eu? Mas como é difícil!”

    PARABÉNS!

  • Murilo Boudakian Moyses diz

    Paulão, surpreendente. E eu me perguntando por que diabos eles não trocaram uma palavra durante o jantar.

  • Camila diz

    Já estava achando chato não ter uma briguinha entre os dois, mas o final surpreendeu.

    Pra variar, vc arrasou mais uma vez Paulo.

  • Dani diz

    Muito bom, Paulo. Para variar.

  • Nico diz

    que “meigo” !!! gostei. muito bem-construido .

    mandou bem !!!

  • Anninha diz

    Eu adoro o “o resto é história”!

  • van diz

    Eu já estava com uma raiva imensa da Fernanda, “porque será que ela não grita com ele”!!!!!!!! ótimo querido!

  • Paulo diz

    Fiquei feliz de saber que a maioria foi minimamente surpreendida. Era, afinal, a intenção! ;)

    E se os que não se surpreenderam gostaram tbm, tanto melhor! Valeu, gente!

  • Muriel diz

    Putz……. PERFEITOOOO!!!!!! Sou louca pra fazer Publicidade… USP, entende? Rs. Amei seu site, amei este seu texto. Kra, vc tem futuro!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  • gerpo diz

    desenrolar monotono e de detalhes um pouco exagerados; final previsivel e tolo

  • Paulo R Vasconcellos diz

    Previsível vai ser meu comentário: muito, mas muito bom, mesmo.

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