Presunto

A turma se juntava para falar da vida mais ou menos todas as semanas. Já era um evento semi-tradicional, apesar da sua periodicidade não ser lá grandes coisas. Reconheciam o fato, mas se defendiam dizendo que uma vez marcada a reunião, a reunião estava marcada. Ninguém podia faltar. Até porque senão a noite não seria completa. É que o acordo era que quem cedesse a casa não precisava se preocupar com mais nada. As comidinhas e bebidinhas eram responsabilidade dos visitantes. Eles decidiam os itens da lista e a sua divisão.

Desta vez o encontro era no apartamento do Aurélio e da Bete. O Beto e o Rafa chegaram com o vinho, a Jô com mais um namorado novo e umas azeitoninhas e o Tonho com o gelo. Sempre deixavam o gelo para ele levar de sacanagem. Diziam que ele já estava acostumado, já que era o único que sempre aparecia sozinho. Só estava faltando o Deco para completar o cardápio. Como a falta dele significava uma ausência importante – a da comida – ele era o assunto. Ficaram ciscando em volta do tema um tempo, mas finalmente a Bete fez a pergunta que todo mundo queria fazer.

– Será que ele vem?
– Tem que vir – retrucou o Aurélio – Ele sabe que quando a gente marca, tá marcado! Ninguém fura.
– Mas e se ele furar ?
À pergunta do Beto se juntou a observação da Jô:
– É. Afinal, ele não é de se atrasar. Pelo contrário, o cara é maníaco com horário.
O Tonho, abrindo o vinho, foi direto ao ponto:
– Se ele não aparecer vamos ter que sair para comprar alguma coisa. Ou pedir uma pizza.
– Opa, pizza, não!

A discussão agora era entre o Aurélio, o Beto, o Tonho e a Jô. Eram eles, mais o Deco, a formação original. A Bete e o Rafa já tinham uns bons anos nas costas, mas sabiam que quando a conversa começava assim era melhor dar uma de agregado mesmo e ficar de fora.

– O pior é que ele se ofereceu para trazer a comida. Sacana. Podia ter avisado que não vinha, a gente se virava.
– Calma, Beto, ele não vai deixar a gente na mão. Ele vai aparecer e vai trazer a comida. Aposto. – O Rafa não se conteve:
– Sei… Será que ele vai trazer mais alguma coisa?

A maldade na pergunta não passou despercebida. Aliás, o Rafa fazia questão que as maldades no que ele falava não passassem despercebidas. E morria de satisfação quando elas incendiavam o ambiente. O Beto ainda ensaiou uma censura, mas era tarde demais. A Jô já tinha se animado.

– É mesmo. Será que dessa vez a Cris vem?
– Faz tempo que ele não aparece com ela, né? Acho que nem lembro quando foi a última vez.
– Deixa eu ver…. No nosso último encontro ela não foi porque tinha viajado para um congresso. E no outro, porque estava trabalhando até mais tarde.
– Isso. No aniversário da Jô ele também apareceu sozinho. E no jantar do Rafa e do Beto, ele disse que a sogra não tava muito bem e que ela precisou ficar com a mãe. Acho que a última vez que encontramos com a Cris foi na reunião na casa deles, né, amor?
O Aurélio confirmou – A Bete tá certa. Foi aquela vez mesmo… Isso tem o quê, uns dois meses?
– Por aí – concordou a Jô. E continuou – Engraçado… Agora que me toquei…. Nem no telefone eu falei com ela. Toda vez que eu ligo ou é o Deco que atende ou cai na secretária eletrônica….
Todos concordaram. Não tinham reparado antes, mas pensando bem, era verdade. Fazia dois meses que ninguém sabia da Cris. Quer dizer, sabiam o que o Deco contava. E ele não andava ele mesmo nos últimos tempos.

– Esquisito…. O que será que está acontecendo?
– Deve ser uma daquelas crises que todo casal tem de vez em quando.
– Não pode ser. Se fosse, alguém aqui saberia. É outra coisa.

O clima estava ficando cada vez mais carregado. Então, para desanuviar o ambiente, o namoradinho da Jô resolveu descontrair:

– Hum…. O cara estranho, a mulher sumida… Diz aí, quem sabe ele não deu um jeito nela, hein?

Ninguém riu. Ficaram quietos, se encarando, até que a Bete, de novo, falou o que todo mundo estava pensando:

– Será?
– Bom, ele é todo metódico, certinho. Vivia com a Cris para cima e para baixo. Aí, sem mais nem menos, só aparece sozinho, começa a dar umas desculpas que dá licença…
– Ele sempre foi ciumento… –
O Tonho resolveu emendar o comentário do Beto
– E não é de estourar fácil, mas quando estoura, é melhor sair da frente. Perde a cabeça mesmo, todo mundo aqui sabe.

Todos olharam para o Aurélio, que além de ser o amigo mais antigo do Deco era uma espécie de oráculo. Vira e mexe ele soltava umas previsões e umas análises completamente tortas que acabavam acontecendo mesmo. Encurralado, sacou uma citação:

– “Eliminadas todas as possibilidades, a que restar, por mais improvável que seja, é a verdadeira”

A sala mergulhou num silêncio grave de novo. O Aurélio tinha razão. Não tinha outra explicação para a mudança do Deco. Ele matou a Cris e deu sumiço no corpo. E estava evitando todo mundo para despistar. Vai ver ele até estava arrependido, morrendo de culpa pelo que fez, certamente num acesso de fúria cego. Mas o que ele podia fazer? Agora tinha que acobertar o acontecido, arquitetar o desaparecimento da Cris, afastá-la da sua vida aos poucos. Aí, um dia qualquer, passado tempo suficiente, ele vai chegar para todo mundo e dizer que acabou, que ele e a Cris se separaram. A coisa não vinha bem, eles tentaram, deram um tempo, mas no fim não teve jeito, cada um seguiu o seu caminho. Será que ele veria nos olhos deles que eles sabiam? E agora que eles sabiam, o que iam fazer? Não podiam denunciar o Deco. De repente até foi legítima defesa, vai saber. A coisa ia por esses rumos quando alguém se dispôs a ser a voz da razão.

– Duvido que ele tenha matado a Cris… Acho que teve só uma uma crise de ciúmes ou coisa do tipo e está mantendo ela em cárcere privado. Faz mais sentido, nao faz?
– Ah, é? Mas e aí? Se ela escapa, acaba com ele. O Deco até pode ter prendido a Cris um tempo, mas cedo ou tarde ia ter que se livrar dela…. Pensa só, ela presa, ameaçando denunciá-lo quando escapasse… Não tem outra saída….
– A gente está falando do Deco, pelo amor de Deus! Tudo isso é um absurdo! – protestou o Beto. Os outros ficaram mudos, e aquele “será?” ficou no ar.

Nesse momento tocou a campainha. Era o Deco, em pessoa. Ele estava sorridente, relaxado, mas não parecia contente. Entrou com uma peça de presunto defumado debaixo do braço se desculpando pelo atraso. Enquanto ele acomodava o presunto na mesa, a Bete foi buscar uma tábua e uma faca. Assim que o Deco começou a fatiar, o Rafa perguntou da Cris.

– Ela não vem – respondeu seco, mas com a voz meio embargada.

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4 Comentários on "Presunto"

  • Kris diz

    Hehehe…o pessoal tá mórbido ultimamente…tesão…

  • Rafael diz

    Tô com medo.

  • Fabiane Secches diz

    Esta está bem “Verissima”. Gostei…

  • Ricardo diz

    Cara … essa tua crônica fez até sucesso aqui no trampo, Parabéns! Muito boa, e com a boa marca PC!

    Vc sem dúvida, é o mais erudito (no bom sentido) dos Cronistas.

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