Miss Brasil

O Brasil é a terra da pegação. Umas coisas pegam, outras nem tanto, sejam elas restaurantes, músicas, leis, enfim, o que for. Natural para um povo conhecido por sua firmeza. Não é só porque alguém disse que seria daquele jeito que tem que ser daquele jeito. Se a proibição de falar ao celular ao volante não parece lógica, é só ignorá-la; se achamos que as restrições ao cigarro ferem a nossa liberdade, azar delas. Ser firme, porém, não é ser contra. Por isso, do mesmo jeito que existe o repúdio instantâneo, há a adoração imediata. Aquelas coisas que simplesmente, inexplicavelmente, pegam. Mais ainda, grudam. E não fica só nisso. No meio dos dois extremos, espremidas entre o amor e o ódio, se alojam as coisas que nós gostaríamos que pegassem mas que não pegam. Apesar de ser impossível prever se algo vai pegar ou não, a observação atenta pode dar algumas pistas. As leis, por exemplo, estão sempre na lista dos que não pegam. O que aparece na TV, por outro lado, vive pegando. Como eles, o terreno do que seria legal se pegasse também tem um gênero dominante: concursos de beleza. Ou, para ser mais exato, os concursos de miss. Desfiles e concursos patrocinados pela circuito da moda não entram nessa categoria. É só ver a SP Fashion Week. Sem dúvida, pegou. Isso acontece porque eles não são verdadeiros concursos de beleza, mas uma espécie de feira anual para reposição de peças da indústria. A busca de new faces é a resposta pragmática a uma necessidade comercial. As candidatas, inclusive, sabem disso e não ligam. Estão atrás de retorno financeiro e um bom plano de carreira. São operárias em busca de ascensão profissional. Bem diferente das meninas concorrendo para miss. Quem quer ser Miss sabe que não basta ser só um rostinho bonito e um corpão de tirar o fôlego. Miss que se preze precisa ser bonita por dentro e por fora. Ser pura de coração. A garota que participa desses concursos não está de olho nas recompenas. Pergunte para qualquer uma. Elas vão dizer que as oportunidades, se aparecerem, serão apenas consequência. Importante mesmo é a chance de participar de algo tão bonito. A candura dessa e outras respostas marca bem a diferença entre uma miss e uma top model. Chega a ser injusto comparar os concursos de Miss à decadence sans elegance dos feirões da moda. Os jurados e fãs de concursos de Miss querem ver tanto o conteúdo como a embalagem. O formato dos eventos é uma prova disso. O regulamento é complexo e o sistema de pontuação leva em consideração muito mais do que o enchimento do maiô. As candidatas têm oportunidade de mostrar que são antenadas, ligadas em cultura e que podem opinar sobre os problemas do mundo. Demonstram até talentos insuspeitos, em um desfile ímpar de números musicais, dramáticos e acrobáticos. Só não se vê muita verve para o humor, mas ninguém parece sentir falta. Humor, afinal de contas, é politicamente incorreto. Terminadas todas as apresentações, é escolhida a menina mais bonita e carismática. Ela, a vencedora das vencedoras, a virtuosa entre as virtuosas. Esse anjo é corada Miss. Apesar dessa fórmula magnífica, os concursos de Miss nunca vingaram no Brasil. Houve uma época em que eles até ensaiaram, mas ficou só na promessa. No fim, acabaram mesmo morrendo. O motivo é um mistério. Talvez tenha sido a falta de seriedade de setores importantes, como a TV. De repente foi porque as nossas misses entendiam errado o conceito de beleza interior e acabavam em revistas masculinas. Seja como for, concurso de Miss não pegou por aqui. Curioso, se pensarmos no prestígio que eles alcançaram em outros países. Em muitos deles as misses atraem a atenção da imprensa e vêem tudo o que dizem ganhar repercussão nacional. Na Venezuela, o sucesso em concursos de Miss pode levantar carreiras políticas. Lá tem até Miss Universo se candidatando à presidência do País. Uma considerável diferença cultural, já que aqui é presidenciável que se comporta como Miss. O eleitor vota no candidato mais bem apessoado e ele, abnegado, devolve a honra: faz questão de ficar só com a faixa. A coroa ele crava na cabeça do povo.

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4 Comentários on "Miss Brasil"

  • Ricardo diz

    Demorou pra eu entender aonde voce queria chegar! Mas valeu a espera… muito bom Paulao!

  • anninha diz

    Putz! Muito boa, mesmo.

    Sabe quando a gente fica até sem jeito de comentar? É assim que estou.

    Achei gloriosa sua dissertação e análise da forma de pensamento e comportamento do brasileiro e do Brasil enquanto sociedade.

    Preferia não ter misses, mas alguns patinhos feios com a faixa!

  • Opa! Opa!

    Peguei uma Verissiminiana aqui!

    Essa é daquelas do caderno de política, vai? Confessa !!!

    (muito bom, senhor. mandabala!)

  • lilli diz

    Muito bom! gostei deveriamos ter mais pessoas como voce em nosso paisss.

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