Sobre Padarias

O Ricardo tentou, mas ainda não conseguiu escrever sobre padaria. Eu, por outro lado, quero me manter mais ou menos em dia, só que não tenho tema. Então decidi dar uma mãozinha para ele preparar a massa e resolvi escrever sobre padarias. Olha, cara, não tou roubando receita dos outros, ok? Só quero ajudar!

A gente poderia começar dizendo que a padaria é um espaço de afirmação cultural. Uma afirmação que não fica só atrás do balcão, não, mas daquelas que se estampam em letras garrafais na fachada. Toda atividade que é definidora de identidade de imigrantes traz um “ria” no nome. Tem as pastelarias, as pizzarias, as lavanderias, as drogarias, as tapeçarias. Confesso que não sei como isso se aplica a sorverterias, por exemplo, mas até aí nada de mais. É difícil mesmo recuperar a origem de todos os “rias”. Ainda conseguimos apontar uma ou outra, mas a maioria se perdeu na História. Culpa da falta de interesse em documentar esse importante aspecto da evolução da sociedade brasileira. E do sucesso dos empresários.

À medida que os empreendimento “rias” cresciam, os filhos e sobrinhos do dono já não conseguiam dar conta de tudo. Precisando urgente de ajuda, começaram a contratar. Sem muito critério, já que quem tinha experiência no ramo também estava às voltas com suas lojinhas. Assim, um português desiludido com broas de milho passou a ter a chance de encontrar a realização em um delicioso pastel de queijo. Para desgosto da família, aprendia o novo ofício e logo alçava vôos maiores com a sua própria pastelaria. O fenômeno se repetiu nas outras especialidades e a miscigenação de “rias” avançou em progressão geométrica, fazendo com que os vestígios de sua origem se perdessem para sempre nas brumas do tempo.

Contrariando todas as expectativas, as padarias foram um dos maiores focos de resistência nesse movimento evolutivo. Talvez porque os portugueses que aqui aportaram tenham aprendido com as perdas históricas da terrinha, talvez por terem resistido a uma invasão de setecentos anos. Ou talvez, ainda, porque nenhuma outra cultura aguentou o tranco de uma atividade em que o sujeito acorda três horas da manhã e termina o dia depois das onze da noite. Jornada que, definitivamente, não é para qualquer um.

A atitude dos padeiros também foi fundamental para armar uma oposição ativa. Ao invés de contarem apenas com a insalubridade natural do seu trabalho, trataram de colocar mais umas pedras no caminho de quem quisesse corromper a pureza da “ria” deles. Primeiro fizeram como seus antepassados e adotaram as armas do adversário. Tal qual os portugueses de então, que sobreviveram ficando um pouco mouros, as padarias o fizeram se tornando um pouco supermercado. Se seus ancestrais puderam admitir palavras estranhas e prédios esquisitos, eles podiam aceitar sucos em caixa, copos de requeijão e pacotes de biscoitos. Só que o inimigo brigava com armas mais poderosas do que sonhos e baguetes: contavam com estoques, preço mais baixo, dinheiro para expandir. Eram parte de corporações que não lutavam para perder. Para se ter uma idéia, eles passaram a vender até pãozinho. Não era, assim, o pãozinho, mas eles estavam tentando. Questão de tempo até acertarem a mão.

Incapazes de encarar ataques frontais sozinhos, os padeiros foram atrás de alianças. No começo abriram as portas apenas para lanches e alguns salgados. Em nome da sobrevivência, não puderam impedir a entrada dos pê-éfes. Pressionados pela crescente ameaça das rotisseries dos supermercados, que agora arriscavam croissants e pães de queijo, os portugueses foram obrigados a engolir outro “ria” em suas dependências. Começaram a servir e entregar pizzas e se transformaram em meia padaria / meia pizzaria. Por causa dessa política de associações, instalou-se um conflito nas bases que murchou a resistência. O movimento já ameaçava desandar de vez quando a bomba que decretou o fim de mais uma “ria” caiu no colo deles. O supermercado havia descoberto como fazer o pãozinho.

Epílogo

Todas as padarias foram ocupadas pelos supermercados… Todas? Não! Algumas padarias povoadas por irredutíveis portugueses ainda resistem ao invasor. E a vida não é nada fácil para as guarnições do Carrefour, Pão de Açúcar, Extra….

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2 Comentários on "Sobre Padarias"

  • Gostei das padarias. Faltou pesquisar a origem do termo “padaria” para definir aqueles traseiros avantajados…

  • Jacaré diz

    Os megamercados representam a patifaria do pãozinho.

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