Resolução

Já faz ano que não fiz. Se tivesse feito, ah, s´eu tivesse. A essa altura, tudo seria diferente. Eu, celebridade nacional; internacional, até. Seria conhecido, respeitado, admirado. Nadando em dinheiro, eu, uma máquina de fazê-lo: livros, palestras, colunas em jornais, eventos, feiras, um tele 900 meu só. Eu, também, ser imortal, não meu notório homônimo. Eu não; tudo por causa da crônica que eu não escrevi Dezembro último.

O texto trataria de Ronaldo. Não só de Ronaldo, bem entendido. A tese era: Ronaldo é o futebol brasileiro encarnado. Atualmente. De quando em quando, temos. Um jogador, tão bom, find´as contas, incontestável, ganhador do plano mítico, expressão viva do esporte; bretão nascido, brasileiro criado.

O Brasil cinco vezes coroado, consolado duas. O primeiro segundo, ainda ascendente – principado perto de assumir-se império. Depois, Rei, general, conquistou, três vezes aclamado. Sucumbimos apenas a outro rei, menor, rei na barriga – tirante, vitórias, glórias. Então, rei morto, rei não posto. E muitos, muitos, anos, muitos. Enfim menino-majestade, mesma idade; garoto, do banco, aembasbacante, padrinho do tetra e fã do baixinho marrento. Mas o halo, o halo luzia, lume nos clubes, campos, arenas, terrenos baldios, em nosso território, todo. Era o começo. Tão somente. Dali a anos, no quarto, subiria o degrau glorificante, jovem afinal empossado. Vemos; não vimos: choro, desconsolo de novo.

Ele capengava, seu joelho. Capengávamos cá, iniciando: mesas viradas, reviradas, longa sem vergonhice. De tímido, surdo incômodo, explodiu ruptura. Tendão antes, craque intra-rompido, dirigentes co-rompidos, inter-rompida História da bola. Matemática, exata imoral, de torcidas leis, pobre torcedor: em vinte e cinco, o último foi décimo quinto. Lutas. Para ficar, para rebaixar, para voltar. Recurso do rebaixado julgado, assegurada permanência; refeito dele o joelho. Fagulhas concorrentes. Mas débeis; sete apenas, no mítico, minutos; humanos, dias. Outra cisão. Outra operação. Ainda outra competição. Regras, não, luz, sem.
Apesar, resistência. Operários, sangue azul, desafiando o desmandante cruzmaltino. Na batalha um já, quando fatalidade lá, o alambrado, interrompida novamente a redenção. Gente ferida, muita, deputado, presidente, um ambos, monstruoso: faixa negra rasgando a mortalha branca, adorno da cruz rubra.

Em vermelho-sangue, preto-danação, dali, desenhou-se o verde e amarelo. Brilhos todos, esquecidos. O amarelo, a supernova, opacos. Breu sem brechas. Quase tudo perdido, hora de gritaria, muitas brigas. Dos atritos, faísca, nova ignição, o Fenômeno voltava. Jogou um, gol, jogou dois, gol, promessa de fogo até a traição do músculo frio. Mas era tarde, o rastilho pegara, sua pólvora espalhada. Cá disputavam os bons: azulão e furacão. Este, supremo, lavou o rubro-negro, agora inocentado, mancha removida do pálido, então, ouro. Obra dele, convalescente, Fenômeno sim, amarelo incendiado, no verde, em campos do Sol nascente, provaria, o próprio era.

E eu, eu era o profeta dessa, assertivo, ainda na incerteza, quando ele não fulgurava, ameaçava. Melhor: seria. Não escrevi. Deixei correr, levei outros temas à frente. Parte foi tabu: me prometi não falar de futebol. Desculpa, também, porque de parte a parte, a última foi é medo de errar. Miseravelmente. Intuí, não arrisquei. Vi a quinta estrela na oitava confirmação dele. Gritei quieto. Quieto, vi: a tese amalucada, já provada, encorpar. Mais. Mais. O futebol brasileiro, eu vi, recuperado, saudar mais dois raios na Vila, brilhantes, arrebatadores, esperamos duradouros, enquanto ele, Fenômeno, conquistava o mundo uma segunda, uma terceira, vezes mais do que num ano pode caber. Ano passado, calado, não errei. Este acertarei sem dúvida, embora erre.

Resolvido.

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1 Comentário on "Resolução"

  • Rafael diz

    Pois é….. você teria acertado….. embora, agora erre.

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