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Aliança - (01-08-2003) Quase não se enxergava naquele banheiro. Culpa da espessa cortina, suspensa, agora lerda quase parada, o contrário de há pouco: tão ágil, subindo rápido e cobrindo tudo do chão até sua cabeça. Devagarinho, abriu a porta do box. Pedindo desculpas, miudamente, alcançou a toalha. Em pouco o ar retomou sua paz e ela, engolida de novo pela brancura, pôde enxugar-se em pequenos longos movimentos. Depois enrolou a toalha em volta de si e abriu a porta. Parou no limite do quarto, o vapor agitado à s suas costas, ambos hesitando em sair. Aos poucos a névoa que envolveu seu corpo foi se dissipando, mas perpetuou-se aquela em que havia mergulhado. No quarto, nada. Apenas a cama desarrumada, nas mesinhas de cabeceira os dois copos d´água meio bebidos e sua aliança. Tudo diferente de antes do banho. Na sala, nada. Tudo igual. Na cozinha, mudanças poucas: um copo, um prato e alguns talheres ainda pingando no escorredor. O expediente estava para começar, ela agora estava sozinha. Não precisava ter pressa. Seu único compromisso era só dali a horas. Assim, gastou o tempo que quis estudando cuidadosamente, de toalha, a roupa do dia. Passou por todos os tons, vestiu-se escura, saiu de preto, levando nos braços, nublada, a gabardina cinzenta que fazia par com o dia. Trancou a porta da frente, deixando atrás de si o apartamento arrumadinho, o quarto com ares de hotel. Dentro do táxi, rememorava a conversa tida antes, bem cedo: - Então. O acordo foi selado com sorrisos de um e de outro e um beijo dos dois. Foi quando encerrou o assunto entrando no banho, quente, não relaxante, sufocante ainda. A bruma daquela manhã não a largara desde o apartamento; não no táxi, não neste café no aeroporto. Era o que estava turvando tudo: a xÃcara de expresso, os saquinhos usados de adoçante, os pequenos grãos que ficaram na mesa, o anel dourado pertinho do pires. Seus olhos fixos, fixados, na argola difusa brilhante. Perdeu-se ali por muito tempo, inquirindo a aliança, evaporante à s suas vistas, mas para seus dedos tão sólida e definida como sempre antes. Resgatou-a a voz nos alto-falantes informando da chegada, vindo da cidade que deixara havia meses, do vôo. Terminou o café, já frio, afastou a xÃcara e, com a mão em concha, cobriu a aliança. Levantou a cabeça e acompanhou o movimento de passageiros desembarcando no saguão. Avistou um sorriso, acenou-lhe o homem, quase sumido naquela gente toda. Ele ia vencendo as pessoas, caminhava em sua direção. Ela se ergueu e escorregou o anel para dentro do quarto dedo da mão esquerda. Diametral, foi receber seu marido. |
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Tatinha - link 25-01-2003 03:44
Hum, hum, hum… Realmente, nessa você me surpreendeu… Até o final não deu pra entender toda aquela “névoa”. Essa é pra ser lida mais de uma vez, com certeza… Não sei direito o que achar, mas gostei do estilo, está muito bem escrita. E, se o seu intuito é experimentar, diversificar, então você conseguiu. Acho que é isso. ;-) |
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Juliana K. - juliana.k@terra.com.br 25-01-2003 07:31
Bonitas imagens…gostei! |
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Rafael - rafael@wg.com.br 28-01-2003 09:23
Paulo Coelho, ficou bom mesmo esse seu texto. Gostei, cara. Parabéns. |
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Paulo R Vasconcellos - prvasc@terra.com.br 28-05-2003 10:55
Envolvente. |