Aliança

Quase não se enxergava naquele banheiro. Culpa da espessa cortina, suspensa, agora lerda quase parada, o contrário de há pouco: tão ágil, subindo rápido e cobrindo tudo do chão até sua cabeça. Devagarinho, abriu a porta do box. Pedindo desculpas, miudamente, alcançou a toalha. Em pouco o ar retomou sua paz e ela, engolida de novo pela brancura, pôde enxugar-se em pequenos longos movimentos. Depois enrolou a toalha em volta de si e abriu a porta. Parou no limite do quarto, o vapor agitado às suas costas, ambos hesitando em sair. Aos poucos a névoa que envolveu seu corpo foi se dissipando, mas perpetuou-se aquela em que havia mergulhado.

No quarto, nada. Apenas a cama desarrumada, nas mesinhas de cabeceira os dois copos d´água meio bebidos e sua aliança. Tudo diferente de antes do banho. Na sala, nada. Tudo igual. Na cozinha, mudanças poucas: um copo, um prato e alguns talheres ainda pingando no escorredor. O expediente estava para começar, ela agora estava sozinha. Não precisava ter pressa. Seu único compromisso era só dali a horas. Assim, gastou o tempo que quis estudando cuidadosamente, de toalha, a roupa do dia. Passou por todos os tons, vestiu-se escura, saiu de preto, levando nos braços, nublada, a gabardina cinzenta que fazia par com o dia. Trancou a porta da frente, deixando atrás de si o apartamento arrumadinho, o quarto com ares de hotel.

Dentro do táxi, rememorava a conversa tida antes, bem cedo:

– Então.
– Hum?
– Hoje tem o jantar do Saulo. Para agradecer o que demos semana passada.
– Você vai?
– Vou.
– Eu gostaria, mas não vou poder ir.
– Por que não?
– Estou super ocupada.
– Não dá para dar um jeito? Só essa noite?
– Não dá mesmo. Tenho que entregar o relatório. Ele está bem atrasado.
– Dê, quem sabe…
– Olha, sério. Eu só vim para cá por causa dessa bolsa e ela acaba em três meses. Até agora não fiz quase nada da tese e você sabe que ela tem que sair dentro do prazo. Sem contar que enquanto isso tenho que cuidar das minhas coisas também, arranjar tempo para você…. Hoje, realmente, não dá, ok?
– Tudo bem. E semana que vem? A gente podia combinar um teatro com eles e depois sairmos os quatro para jantar. Juntamos o jantar com aquela peça que você quer ver. Assim aproveitamos melhor a sua noite de folga.
– Pode ser. Semana que vem fica mais fácil.

O acordo foi selado com sorrisos de um e de outro e um beijo dos dois. Foi quando encerrou o assunto entrando no banho, quente, não relaxante, sufocante ainda. A bruma daquela manhã não a largara desde o apartamento; não no táxi, não neste café no aeroporto. Era o que estava turvando tudo: a xícara de expresso, os saquinhos usados de adoçante, os pequenos grãos que ficaram na mesa, o anel dourado pertinho do pires. Seus olhos fixos, fixados, na argola difusa brilhante. Perdeu-se ali por muito tempo, inquirindo a aliança, evaporante às suas vistas, mas para seus dedos tão sólida e definida como sempre antes.

Resgatou-a a voz nos alto-falantes informando da chegada, vindo da cidade que deixara havia meses, do vôo. Terminou o café, já frio, afastou a xícara e, com a mão em concha, cobriu a aliança. Levantou a cabeça e acompanhou o movimento de passageiros desembarcando no saguão. Avistou um sorriso, acenou-lhe o homem, quase sumido naquela gente toda. Ele ia vencendo as pessoas, caminhava em sua direção. Ela se ergueu e escorregou o anel para dentro do quarto dedo da mão esquerda. Diametral, foi receber seu marido.

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4 Comentários on "Aliança"

  • Hum, hum, hum… Realmente, nessa você me surpreendeu… Até o final não deu pra entender toda aquela “névoa”. Essa é pra ser lida mais de uma vez, com certeza…

    Não sei direito o que achar, mas gostei do estilo, está muito bem escrita. E, se o seu intuito é experimentar, diversificar, então você conseguiu.

    Acho que é isso. ;-)

  • Juliana K. diz

    Bonitas imagens…gostei!

  • Rafael diz

    Paulo Coelho, ficou bom mesmo esse seu texto. Gostei, cara. Parabéns.

  • Paulo R Vasconcellos diz

    Envolvente.

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