O Erro da Fernanda

Não basta namorar, tem que participar, não é? Foi com esse espírito que me deixei arrastar para um show da Fernanda Porto. O concerto estava prometido para as nove da noite, mas começou um pouco antes. Pelo menos essa foi a minha impressão ao ver os tipos que iam chegando e tomando seus lugares à frente do palco. A coisa toda estava rolando num galpão de uma antiga fábrica, transformado em lanchonete de centro cultural e que, naquela noite, como em outras, faria às vezes de casa de espetáculos. As pessoas circulando pelo salão estavam em total sintonia com a esquizofrenia do local. Era gente de todos os orientações sexuais e estilos desse começo de século – tinha arrumados, modernos, desencanados, estragados, descolados e, claro, deslocados. Não estava muito empolgado com o show, mas a inesperada mistura de tribos me levantou um pouco, sugerindo, quem sabe, uma boa surpresa.

No horário marcado uma voz deu as boas vindas e anunciou a abertura da noite. Todo mundo se virou para o palco e deu de cara com um PC montado no canto direito, lá no fundo. Junto do computador, um DJ solitário com nome de banda inteira fazendo os últimos ajustes antes de soltar o som. A hora seguinte foi de muita batida eletrônica e bases sampleadas, mas de pouca empolgação. Só uns três ou quatro gatos pingados dançando; de resto, uma meia dúzia balançando para lá e para cá sem muita convicção e os outros conversando, esperando pelo principal. Junto com essa hora foram embora também meu fio de esperança e a paciência geral. Depois de uns quarenta minutos, o DJ quase foi corrido pelos assovios da platéia. Apesar dos protestos, manteve o micro ligado até o horário combinado. De um jeito ou de outro, saiu ovacionado.

Quando todos achávamos que tinha chegado a hora, que a Fernanda Porto finalmente ia entrar, eis que aparece no palco um homem com um iBook debaixo do braço. Sem pressa, colocou o aparelho em cima do suporte do teclado – pertinho do microfone – conectou todos os cabos, fez uns testes e saiu. A essa altura já tinham acendido as luzes. Avisaram que dali a um tempinho, mas só um pouco mesmo, começaria o show. Quando as vaias reiniciaram, uns dez minutos mais tarde, apagaram as luzes de novo. Apareceram então o baixista e o percussionista, depois o baterista, mais uns técnicos e finalmente a Fernanda, batucando um tambor pendurado no pescoço. Pulou até o microfone para cumprimentar o público, apertou uns botões no iBook e começou o concerto.

No final da primeira música ela trocou o tambor por um saxofone, apertou mais uns botões no micro e continuou. Entre a segunda e a terceira, substituiu o saxofone por uma guitarra, foi até o iBook de novo e mandou ver. Já estava até vendo a hora que ela ia aparecer encaixada num souzafone. Era divertido, engraçado, mas esquisito. Ela fazia o que tinha que fazer, mas ia no automático: acabar a música, trocar de instrumento, apertar um botão, cantar. Lá embaixo, a platéia continuava morna, com um outro espasmo de ânimo. O show ia nessa levada até que, no meio do que parecia uma pausa ensaiada do vocal, ela soltou um constrangido “deu branco”. Levou a música até o final e se desculpou: “Lugar de errar é em casa”. Ganhei a noite. Não por ela ter errado, mas porque ali o problema ficou claro.

Aquele foi um dos poucos momentos autênticos que elas nos deu. Não por acaso, foi uma das raras vezes que teve uma resposta do pessoal. Todo o resto – pausas, solos, transições – estava dentro do script. Tudo tão milimetricamente programado, tão cronometrado, que se bobear não faria diferença se em lugar dos músicos estivesse tocando o CD deles. Mas aquilo não. Aquilo foi espontâneo. Foi quando, pegos no contrapé, foram convidados a improvisar, mesmo que por um instante. Ali, talvez sem perceberem, nos ganharam de volta, porque nos transformaram de espectadores em testemunhas. Mais ainda, em signatários de um acordo de cavalheiros, cúmplices do silêncio pelo deslize. Bem mais empolgante, convenhamos, que ver a banda concentrada em seus fones para não sair do compasso eletrônico.

Depois fiquei sabendo que aquela foi a última parada antes de sua turnê européia. Tinha tudo planejado para fazer a pista ferver, mas não passou do morno – isso graças a ( e por causa de ) – um imprevisto. Espero que ela aproveite bem a mudança de ares e esqueça o seu laptop por lá. Assim, quando voltar, poderá mostrar a diferença entre jogo de cena e espetáculo.

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2 Comentários on "O Erro da Fernanda"

  • Fernanda diz

    Gostei bastante do seu texto. Confesso que não sei muito sobre a cantora, conheço apenas duas ou três músicas (regravadas). Nunca assisti a um show da Fernanda Porto, por sinal. No entanto, sua crônica me chamou a atençao. Não somente por estar (muito) bem escrita, mas por conter uma lição que, certamente, alcança horizontes que vão além, muito além de uma apresentação musical. A vida é todo um espetáculo (singular), onde, muitas vezes, nos encontramos perdidos diante de nossos passos sincronizados. As pessoas estão tão atentas a tudo, que acabam esquecendo que olhares distraídos enxergam melhor a paisagem. É preciso improvisar sim. Urgentemente. Todos os dias. Porque, no improviso, a vida nos ganha de volta também. :) Fiquemos todos distraídos. Porque somos invariavelmente capazes de fazer diferença. Lugar de errar é aqui mesmo…

  • Juliana K. diz

    Excelente crítica! O show tem que apresentar um diferencial, a alma do artista; se não sair do protocolo, qual a diferença entre comprar e ouvir o CD em casa? Para alguns do show business, o preço, talvez…

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