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Máquina do Tempo - (07-12-2003)

O menino tinha só oito anos no dia em que viajou no tempo pela primeira vez. A tarde estava chuvosa, e a casa, vazia. Não vazia, sem ninguém, mas sem atividade nenhuma. Todos dormiam - menos ele, claro. Ora essa, imagine só, dormir assim, só por dormir. Que desperdício! Já chegava ser obrigado a dormir quando não tinha sono, quando ainda estava cheio de coisas para fazer. Nunca que ia querer dormir quando podia ficar acordado.

Estava decidido a aproveitar a tarde. Perambulou pela casa inteira: assistiu-se na TV, deitou-se nos almofadões para ouvir a sinfonia muda tocando no aparelho de som, imaginou quantas aventuras estavam presas na estante. Acabou aconchegado no calor gostoso do tapete polar. Estava quase dormindo quando ouviu o trinco da porta. Tomou um susto, que no fim das contas foi à toa. Era só o seu avô chegando para encontrar o neto sonado e, por isso mesmo, emburrado. O menino imediatamente se empoleirou no colo do vovô, reclamando que não tinha o que fazer, que estava chato.

- Então por que você não tira uma soneca? - perguntou o velhinho
- Ah, vô, a gente perde um tempão quando dorme.
- Que bobagem! É o contrário! Você ganha!
- É?
- É.
- De verdade?
- Ahã - o avô se aproximou do menino e segredou baixinho - É que dormindo você pode viajar no tempo….
- Duvido! Eu nunca vi o futuro, nem acordado nem dormindo.
- Ah, mas é que só dá para ver o passado. Além do mais, é muito difícil fazer isso sozinho. Mas se você quiser nós podemos ir juntos - os olhos do menino brilhavam - Que tal? Quer?
- Quero!

Àquela primeira viagem se seguiram muitas outras, que por sua vez foram seguidas por muito mais viagens ainda. O destino dos exploradores podia ser diferente a cada vez, mas o ritual era sempre o mesmo. Tão logo acordavam, avô e neto se punham a comparar o que tinham visto - as pessoas, os lugares, tudo.

Os relatos do avô deixavam o menino fascinado, e, ao mesmo tempo, um pouco frustrado também, por não conseguir ver as mesmas coisas. Nessas horas o velhinho o tranquilizava, lembrando ao neto que tinha um passado maior que o dele e que ia lá há muito, muito tempo. Garantia que se ele continuasse indo acabaria conhecendo os mesmos lugares e as mesmas pessoas das histórias. Quem sabe, até mais.

O garoto não desistiu. Parou de ir apenas quando, obrigado a viajar sozinho, percebeu que não sabia como. Acabou redescobrindo o lugar em que pretérito e presente se encontrarm depois que filho nasceu. Tinha voltado a conjugar o verbo dormir na primeira pessoa do plural.



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Jackie - link - jackiejbs@hotmail.com • 30-07-2003 01:20

Adorei essa.

Que meigo!

:o)

Roberta - link - poetisaurbana@hotmail.com • 11-08-2003 12:48

Plaf-plaf (aplausos)!!!!

Muito bom, parabéns! Adorei seu conto. A forma como você se expressa é fascinante, ganhou uma admiradora. Grande abraço.

Joaquim • 14-08-2003 11:34

Não entendi…

paulo - paulocesar_schmitz@hotmail.com • 10-09-2003 08:19

adorei esta crônica

preciso elaborar uma para o curso.

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