Máquina do Tempo

O menino tinha só oito anos no dia em que viajou no tempo pela primeira vez. A tarde estava chuvosa, e a casa, vazia. Não vazia, sem ninguém, mas sem atividade nenhuma. Todos dormiam – menos ele, claro. Ora essa, imagine só, dormir assim, só por dormir. Que desperdício! Já chegava ser obrigado a dormir quando não tinha sono, quando ainda estava cheio de coisas para fazer. Nunca que ia querer dormir quando podia ficar acordado.

Estava decidido a aproveitar a tarde. Perambulou pela casa inteira: assistiu-se na TV, deitou-se nos almofadões para ouvir a sinfonia muda tocando no aparelho de som, imaginou quantas aventuras estavam presas na estante. Acabou aconchegado no calor gostoso do tapete polar. Estava quase dormindo quando ouviu o trinco da porta. Tomou um susto, que no fim das contas foi à toa. Era só o seu avô chegando para encontrar o neto sonado e, por isso mesmo, emburrado. O menino imediatamente se empoleirou no colo do vovô, reclamando que não tinha o que fazer, que estava chato.

– Então por que você não tira uma soneca? – perguntou o velhinho
– Ah, vô, a gente perde um tempão quando dorme.
– Que bobagem! É o contrário! Você ganha!
– É?
– É.
– De verdade?
– Ahã – o avô se aproximou do menino e segredou baixinho – É que dormindo você pode viajar no tempo….
– Duvido! Eu nunca vi o futuro, nem acordado nem dormindo.
– Ah, mas é que só dá para ver o passado. Além do mais, é muito difícil fazer isso sozinho. Mas se você quiser nós podemos ir juntos – os olhos do menino brilhavam – Que tal? Quer?
– Quero!

Àquela primeira viagem se seguiram muitas outras, que por sua vez foram seguidas por muito mais viagens ainda. O destino dos exploradores podia ser diferente a cada vez, mas o ritual era sempre o mesmo. Tão logo acordavam, avô e neto se punham a comparar o que tinham visto – as pessoas, os lugares, tudo.

Os relatos do avô deixavam o menino fascinado, e, ao mesmo tempo, um pouco frustrado também, por não conseguir ver as mesmas coisas. Nessas horas o velhinho o tranquilizava, lembrando ao neto que tinha um passado maior que o dele e que ia lá há muito, muito tempo. Garantia que se ele continuasse indo acabaria conhecendo os mesmos lugares e as mesmas pessoas das histórias. Quem sabe, até mais.

O garoto não desistiu. Parou de ir apenas quando, obrigado a viajar sozinho, percebeu que não sabia como. Acabou redescobrindo o lugar em que pretérito e presente se encontrarm depois que filho nasceu. Tinha voltado a conjugar o verbo dormir na primeira pessoa do plural.

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4 Comentários on "Máquina do Tempo"

  • Jackie diz

    Adorei essa.

    Que meigo!

    :o)

  • Plaf-plaf (aplausos)!!!!

    Muito bom, parabéns! Adorei seu conto. A forma como você se expressa é fascinante, ganhou uma admiradora. Grande abraço.

  • Joaquim diz

    Não entendi…

  • paulo diz

    adorei esta crônica

    preciso elaborar uma para o curso.

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