Necrológio

Perdeu-se em ação, dia desses, combatente de patente incerta. Figura bastante sentida, mal notada, deixa ostensiva trajetória e parcas informações. Se dele pouco se soube, menos se disse. Foi arrastado para a luta novo e criado em meio a conflitos. Embora tenaz no cumprimento de sua missão, declarava-se dono de índole pacífica e firmemente contrário à violência. Seu espólio é composto por jogos de conjecturas, coleções de perguntas sem respostas e séries de teorias revolucionárias.

De berço e logradouro irrelevantes, nasceu vazio. Sua enorme voracidade, para muitos a grande força de sua vida, manifestou-se cedo e não demorou a ser notada. Logo eram claras a ânsia com que abraçava o que lhe chegava e o destemor com que se lançava ao que tinha que buscar. Tamanho ímpeto rapidamente despertou a admiração do seu círculo. O fascínio, no entanto, veio acompanhado de hiperbólicas comparações a forças naturais, comparações que, por sua vez, trouxeram receio. A apreensão crescia entre os muitos que temiam ver suas convicções abaladas. O medo foi aplacado somente ao final de seus primeiros anos, quando ele foi tragado para sua primeira grande batalha. Em terreno íntimo, por longo período combateu nas duríssimas trincheiras do auto-conhecimento. Ali, obrigado a se livrar de armadilhas, desvelar subterfúgios, curar-se de emboscadas, se forjou. Ao fim, ao cabo, emergiu dos traiçoeiros anos senhor de si.

A juventude foi marcada pela busca da temperança. Vitorioso no ato inaugural, julgava-se pronto para enfrentar o verdadeiro desafio. Passou a atacar repetida, intensa e ferozmente. Apesar da força empregada, teve retrospecto medíocre. Desta vez não se retirou, mas recuou o suficiente para se preparar melhor e ganhar perspectiva. Então, estudou, viu, leu, experimentou, perguntou, errou, insistiu. Um dia, já bem relativizado, percebeu que não carregava mais aquela fúria absoluta. Armado de hipóteses e flexibiliade, às portas da vida adulta, retomou sua cruzada.

Empreendeu várias campanhas nos anos que se seguiram. Em todas, onde fosse, levava os rituais que o mantinham na fronteira das coisas. Fazia vigília para manter espírito e cabeça abertos, ao mesmo tempo que mergulhava com fervor em rotinas de investigação, especulação e enfrentamento. Equilibrava-se aristotelicamente à distância do despotismo idiossincrático e do relativismo paralizante. Nesta fase encontrou simpatizantes para a causa e colecionou seus maiores triunfos. A comprovação empírica de algumas idéias e os pesados danos infligidos à crença de que bom senso e senso comum são mesma coisa datam desse período. Em uma guerra que jamais terminará, teve no avanço conquistado um grande feito.

A diferença de recursos, entretanto, voltou a se impor. As doutrinas adversárias asfixiaram os insurgentes e começaram a reclamar o que haviam cedido. Pouco a pouco, os dois lados retomaram suas posições originais. Guerra tem dessas coisas. Numerosas vitórias se desfazem na esteira de uma derrota menor. Já tinha experimentado o mesmo dissabor incontáveis vezes. Em todas, reorganizou suas forças, aprumou o estandarte e voltou ao combate. Mas não agora. Na última vez em que foi visto, logo após mais um revés, encontrava-se bastante debilitado por dúvidas. Desapareceu refém de suas incertezas.

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6 Comentários on "Necrológio"

  • Rafael diz

    Pois é. Demora mas vale. Muito bem escrito, Paulão. Parabéns.

  • Anônimo diz

    Reitero os elogios, muito bem escrito.

  • Juliana.K@terra.com.br diz

    Oops, esqueci o e-mail…

  • Também demorei para ler, mas valeu a pena.

    Mais um combatente caiu. Mas a batalha ainda não está perdida. Sempre existe a opção de partir para a guerrilha em vez da luta aberta. E vamos que vamos.

  • Sérgio diz

    Eu demorei mais do que o Leo e (UFA!UAU!) valeu a pena mesmo. Toques auto…

    Bom, acho que descreve a evolução de qualquer um que tem o mínimo de densidade intelectual

  • Gorette diz

    Dificil hein? rs mas vale a pena…

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