Receita

As três estavam iguaizinhas. Todas em volta da mesa redonda, com o rosto apoiado sobre as mãos trançadas, contra o tampo de fórmica. E todas olhando para o centro a mesa. Ali estava o motivo dos sorrisos e do descarado cheirinho de orgulho na cozinha. Bem naquele ponto, lá no meio, o bolo delas se exibia todo. Era uma beleza: todo branco, com suspiros e morangos alternados ao longo da sua circunferência. Tinha saído perfeito. Certeza. O aroma que se desprendia devagarinho, junto com o calor, não deixava dúvidas. De vez em quando seus olhos escapuliam do bolo e iam atrás uns dos outros. Quando se encontravam, a cumplicidade deixava ainda mais doce o sucesso da aventura.

Elas curtiram o triunfo enquanto a dona da cozinha, a mãe da Laís, deixou. Ao primeiro sinal de inquietação das três, ela invadiu a área para arrumar a bagunça junto com as meninas. Foi logo recolhendo os talheres e distribuindo tarefas menores para cada uma. A Nat, a irmã mais velha da Laís, chegou na hora que elas começavam a desempoleirar das cadeiras. E deu a desculpa que elas queriam para justificar o corpo mole e mantê-las presas à mesa:

– Posso pegar um pedaço?

A resposta, positiva, veio da pia, onde a desordem ia perdendo terreno rapidamente. A Laís, que já não tinha gostado da resposta da mãe, ficou ainda mais contrariada com o protesto das amigas. Parecia que tinha sido combinado. Numa voz só a Lívia e a Aninha avisaram “Esse pedaço é da sua parte, viu, Lá!”. Meio irritada, tratou logo de arrancar a pá da mão da irmã e salvar o que era seu. Bem a tempo, aliás. Dessa vez o perigo tinha passado, mas cedo ou tarde elas teriam que abrir o bolo. E aí, como ficaria? Para evitar brigas, a mãe da Laís sugeriu o lógico: dividir o bolo logo em partes iguais e cada uma faria o que bem entendesse com a sua. Ela mesma cortaria, sob o olhar atento das meninas, assim todo mundo ficaria contente. Mas antes precisava dar uma olhadinha numa outra coisa, um minutinho só. As três concordaram e ficaram na cozinha esperando. Elas e a irmã da Laís. Foi a Nat que disse:

– Sabe, lá na faculdade a gente dividiria o bolo de outro jeito.
– Sério, Nat? – surpreendeu-se a Lívia.
– Por que? Como seria? – emendaram ao mesmo tempo as outras.
– Bom, é que muito mais coisa conta, né? Não é só o trabalho de cada uma. Tem o quanto cada pessoa contribuiu….
– Como assim? – a dúvida era de todas
– Às vezes todos vão lá, arregaçam as mangas… Mas a ajuda de um vale mais que a do outro, entenderam?

As três fizeram que “sim” com a cabeça. A Nat continuou:

– Se vocês quiserem, a gente pode fazer isso com o bolo. O que vocês acham? Seria mais justo, não seria?

As meninas se entreolharam. Ficaram meio assim, em dúvida. Foram para um canto, cochicharam… Realmente, parecia que do jeito da Nat a divisão ia ser mais justa mesmo. Voltaram dispostas a aceitar o método dela, mas não sabiam como fazer. No fim a própria Nat se ofereceu para conduzir o processo. Por um pedacinho do bolo, claro. A gente desconta essa bobagenzinha e divide o resto de acordo com a contribuição de cada uma, certo? Certo! E começaram a listar.

A Lívia tinha levado quase todos os ingredientes: ovos, farinha, a massa, os morangos. Além disso, tinha levado todo o chantilly e a cobertura usada como recheio. Quanto deu? Calma, calma, só vamos saber no final. Passaram para a Aninha. Ela tinha um trunfo e tanto. Era dela a receita. E aí? Ainda tinha a Laís. Ela tinha entrado com a infra. Emprestou a cozinha, os talheres, os eletrodomésticos e a mãe, que afinal tinha limpado quase toda a cozinha. Só faltava mesmo guardar a louça do escorredor. A Lá é a que entrou mais pesado, concluiu a Nat. As meninas discutiram um pouco, mas acabaram concordando que a cozinha e serviços embutidos valiam por metade da empreitada. E a receita, quanto vale? Bom, sem receita, nada de bolo. Mas a Lívia resmungou que sem farinha também não ia ter bolo. Só que a receita traz as quantidades certas, rebateu a Aninha. A Nat acabou ponderando que a receita e os insumos no fundo tinham o mesmo valor, já que um sem o outro no mesmo nível ia prejudicar o resultado final. Assim, cada uma somou um quarto ao bolo. Tudo certo, portanto. A Nat já se preparava para cortar o bolo, com seu pedaço devidamente deduzido, quando reparou que estava faltando um item na conta. Parou, percorreu as anotações e por fim perguntou do suspiro, quem havia levado o suspiro. A Laís respondeu que o suspiro elas tinham pego da despensa, por que? Então peraí, isso muda as coisas. Com cinquenta por cento mais um, é a Laís que decide como dividir o bolo.

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3 Comentários on "Receita"

  • Juliana K. diz

    Tenho várias receitas de bolo de chocolate, troca com a de morango e suspiros? rs…

  • malena diz

    muito boa essa, hein! essa democracia…

  • Paulo Limão diz

    Paulão, você baseou seu texto em fatos reais, ou é só impressão minha…? ;-)

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