Saraivada de Lucidez

Os autores são filhos de seu tempo e lugar. Por causa disso, são pais de obras que esmiuçam os ideais, os problemas e as lutas próprias de cada época. Regimes totalitários geram escritores e artistas engajados na denúncia, velada ou não, da censura e da anulação do indivíduo. Já em tempos mais democráticos o homem aparece como seu próprio assunto, e os autores soltam a voz para falar da natureza humana olhando de forma crítica para a sociedade, seus sistemas e valores.

Em seus livros, o Nobel de Literatura de 1998, José Saramago, se mostra um homem de dois tempos. O autor que conhecemos tem cerca de 25 anos. Antes disso, durante décadas, foi jornalista. Embora tenha se aventurado mais cedo em prosa e verso, quase toda sua produção literária é do fim dos anos 70 para cá. Não por acaso, o escritor surgiu após a Revolução de Abril de 1974, que instalou a democracia em Portugal pela primeira vez. Saramago tinha 52 anos. Com uma vida construída sob uma ditadura, mas uma obra erguida em um regime democrático, seu tema principal é uma mistura dessas duas condições.

Ele fala do homem, claro, mas não só. Além de se perguntar “o que faz o homem?”, pergunta “O que o homem faz?”. A primeira questão se preocupa com o que nos move, a segunda olha para onde nos movemos. São questões diferentes, mas insperáveis. Além de se debater contra suas fraquezas, esses homens são obrigados a enfrentar suas próprias criações. Na obra de Saramago o homem luta contra o mundo que ele construiu – para provar que merece um lugar nele. Essa guerra toma o centro do palco mais uma vez em seu novo romance, Ensaio sobre a Lucidez.

Tudo começa quando as urnas da capital de um país hipotético são inundadas de votos brancos. O exercício maciço desse direito faz o que ninguém tinha imaginado possível: coloca o sistema democrático em xeque de forma legítima. O problema todo é que o protesto da população é exatamente isso: um protesto. Ele só diz que o que está aí não serve, mas não propõe nada para ocupar seu lugar – e nem deve. Ciente do significado que o alastramento do “mal branco” pode ter, o Governo – com letra maiúscula mesmo – se mexe para conter a “epidemia”, descobrir os responsáveis pela “conspiração” e devolver a Capital à normalidade democrática. A partir daí Saramago nos abre as portas dos salões oficiais e, dos bastidores, nos mostra com o cinismo e o sarcasmo costumeiros a oposição entre os interesses do Estado e dos cidadãos.

A sucessão dos acontecimentos faz crescer o fosso que separa o homem comum dos cargos ( ou indivíduos funcionais ) e deixa a incompatibilidade entre eles cada vez mais gritante. Quem é cidadão não pode fazer parte do Estado, quem faz parte do Estado não é um cidadão. Usando como desculpa o bem-estar da cidade, as autoridades pressionam a população para chegar ao seu verdaeiro objetivo: escapar de um delicado beco sem-saída institucional. Além das campanas, investigações, coerções e outras tantas ações para restaurar sua legitimidade, o Governo se ocupa dos habituais jogos de poder e intrigas palacianos, contando sempre com conivência da Imprensa em suas tentativas de manipular a opinião pública e criar cortinas de fumaça. À medida que a situação esquenta e se torna mais dura, entendemos o título do livro e sua ligação com “Ensaio sobre a Cegueira”, outro romance de Saramago.

Em “Ensaio sobre a Cegueira” todo um país fica cego – só que em vez de presos no escuro, se vêem reféns de um “mar de leite”. Essa cegueira branca rapidamente mergulha a nação nas trevas e põe a civilização de joelhos. Incapazes de percebrem qualquer coisa que não elas mesmas, as pessoas se entregam à lei do mais forte. Toda a estrutura social se esfacela enquanto cada um luta pelo seu quinhão. A única exceção é uma mulher, tão comum como as outras, que inexplicavelmente não cega. Ao mesmo tempo que fazem dela a testemunha solitária do horror, seus olhos a tornam símbolo de esperança. É graças à sua visão que um pequeno mas significativo grupo – formado por um casal de meia idade e um adulto, uma jovem, um idoso e uma criança – consegue se enxergar e se manter coeso. Ao reconhecer seus membros e trabalhar junto para sobreviver, esse corte da sociedade faz mais do que lutar pela vida: representa a resistência da cultura e da civilização, no melhor sentido desses termos, que teimam em não se entregar mesmo quando, metaforicamente cegos, fechamos os olhos para elas.

No primeiro “Ensaio” Saramago aponta que não é só a falta de luz ( leia-se ciência ) que cria estruturas que acabam por se voltar contra as pessoas. Luzes demais também são perigosas, já que conceitos puros resultam em sistemas perfeitos onde gente só tem lugar como idéias. No segundo mostra que com menos intensidade o branco deixa de ofuscar e passa a iluminar. Daí a clareza de visão dos brancosos de “Ensaio sobre a Lucidez”. Eles reconhecem sua alienação das estruturas que deviam existir para lhes servir e recusam serem submetidos por elas. Enquanto os outros permanecem cegos para o que se esconde sob as sombras cuidadosamente projetadas pelas instituições, os brancosos vêem.

Com uma premissa instigante e uma realização de alto nível, “Ensaio sobre a Lucidez” é obrigatório para quem gosta de ler. Narrado com a verve e o estilo que consagraram Saramago, o livro traz o autor na sua forma habitual: afiado, envolvente e inquietante. As digressões, a fluidez de tempo e espaço, o humor, os belos diálogos, a crueldade de ser coerente com a sua proposta, está tudo ali. É impossível emitir uma opinião antes do fim. O último parágrafo é simplesmente magistral e, sozinho, justifica a leitura do romance.

O livro é indispensável também para quem não liga tanto para a linguagem. As questões sobre a relação entre Estado e indivíduo que levanta são bastante importantes no momento que o mundo atravessa. Os exemplos de sua relevância são vários. Nos EUA vão da a vitória controversa de George W.Bush às guerras ao Afeganistão e Iraque, passando pelo Patriot Act e pela paranóia que se seguiu ao 11 de Setembro. Seus efeitos atingem também a Europa, onde há um crescente endurecimento na leis de imigração. O mesmo tema ecoa no Brasil, ainda que de forma diferente. Não estamos vivendo um período de encolhimento das liberdades civis, mas de aparelhamento do Estado e das instituições, no qual se misturam a partidarização de todos os níveis dos órgãos oficiais, o alinhamento de sindicatos, a pressão do Executivo sobre outros poderes e um intenso trabalho na divulgação de um discurso oficial mesmo quando os fatos o contradizem.

É interessante notar que apesar de comunista notório, Saramago não deixa ideologia entrar em sua literatura. Suas preocupações são as de um humanista, não um ideólogo. Sua apreensão é a de quem viu o ontem, conhece o hoje e, por isso mesmo, teme pelo amanhã.

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9 Comentários on "Saraivada de Lucidez"

  • leonardo lobianco diz

    Os cronistas entraram em crise.. agora sao ensaistas… deveriam mudar o nome do site para ensaistasreunidos.com.br

  • Paulo diz

    Leonardo, tudo bem? Bom, a gente sempre se comprometeu com “crônicas, contos, pequenos textos e um pouco de bagunça”. Pode ser esse o caso. Acho legal dar uma diversificada e experimentar um pouco… Mas não se aflija, na próxima as coisas já voltam ao normal (acho). : )

    Abrs

  • Leonardo Lobianco diz

    BLZ.. cara.. o prolblema é que tá meio cansativo a leitura — nao leve isso a mal, vo continuar lendo vcs, isso é critica construtiva

  • Paula diz

    Por falar em diversificada, acho que já está na hora de trocar as crônicas que estão no ar, não? Desculpe a encheção de saco, mas é que este é um dos meus poucos passatempos da internet nas raras vezes em que estou osciosa.

    Um beijo a todos

  • É, Paula, acho que tem todo o direito de encher nosso saco, assim como o Leonardo tem de nos criticar. É sempre bom saber que tem pessoas do outro lado da tela e ouvir as opiniões. Um já fica puxando a orelha do outro aqui no site, mas quando vem um puxão de fora, a coisa muda. Pode (e deve) nos cobrar sim. É bom para termos vergonha na bunda e mexer nossas caras! (ou algo assim)

  • Giove diz

    uou, eu acabei de ler do Saramago A Caverna, devido um trabalho da faculdade sobre A República de Platão (blé). Como não quero fazer um trabalho resumidoteco convencional, resolvi fazer comparações. E olha só, Ensaio sobre a Lucidez é mais um livro influenciado e até crítico ao idealismo platônico, muito interessante perceber isso em Saramago, e acho que vou unir os três livros, Ensaio sobre a Cegueira também, que já havia lido por distração. Muitíssimo obrigada pelo ensaio sobre o ensaio.

  • Giove diz

    Se você me permite, usarei entre aspas suas citações no relatório. Coloco na bibliografia: crônica de Paulo Coelho? rs rs

  • Paulão … é por essas e por outras que sou, de verdade … teu fã!

    Não li o livro, mas como Ecano que sou, posso conversar com qualquer um sobre ele, e ainda parecer que li 2 vezes. Obrigado :-)

    parabéns!

  • SAMUEL FERREIRA SOARES diz

    indispensável também , a realização de alto nível, para tornam símbolo de esperança e perspectiva de forma relutante sobre causas incomuns……..

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