Senso de Humor

Dois amigos dividem a mesma mesa. O bar é daqueles com chão de losangos brancos e pretos, com balcão e baldes de secos e molhados, mesas rústicas de madeira escura e chope circulando em profusão. Cena clássica de começo de crônica. O impasse, nesse caso, é a porção de calabresa que um deles ainda não tocou. Coisa que, claro, deixa o outro contrariado.

– Pô, qual o problema? Não vai comer, não?
– Vou, vou…..
– Então, vamos lá! Não precisa ficar tímido depois de tanto tempo: pode cair de boca na linguiça!
O um não riu. Só comentou, num tom:
– Taí.
– “Taí” o que?
– Taí o problema. Essas piadas. Esse bar. Eu. Você. Tudo isso aqui e mais um monte de coisa.
– Que tem tudo isso?
– Pára e pensa um pouco. Você não consegue ver nada errado?
O outro já estava levando a sério. Não sabia o que era, mas estava levando a sério.
– Não, está tudo como sempre…. Não está?
– Há quanto tempo a gente vem aqui?
– Faz tempo. Uns seis anos, mais ou menos.
– Isso. Quantas vezes?
– Pelo menos uma por semana.
– Exato. Isso dá mais ou menos 48 vezes por ano. Ou cento e noventa e poucas em seis anos.
– Tá. E?
– Há quanto tempo a gente não faz uma piada de duplo sentido decente? Umazinha que seja que não tenha cara de piada da Playboy? Que não lembre aquelas piadas de tiozinho bêbado em festa de casamento?
– Putz, não sei. Não tinha reparado.
– Eu te digo: um tempão. Desde antes de sobrarmos só eu e você aqui.
– Putz!
– É….
– Putz! Eu não tinha reparado. Não tinha mesmo.
– Pois é. A gente não reparou mas virou esse povo que faz piadinha de “linguiça”.
– A gente faz piada de tiozinho de casamento.
– É.
– Putz.
– É.
– Putz. Tiozinho de casamento.
– E a gente tá vivendo no buffet, ainda por cima. Pega esses garçons, por exemplo. Lembra quando a gente começou a vir aqui? Quem atendia a gente?
– O Gabiroba. Às vezes, o Jambarjan.
– Perfeito. Ninguém sabia o nome deles. Nem eles deviam saber mais. Eram os Gabirobas, os Jambarjans, o que fosse. Velha escola total. Mesmo depois deles…. Lembra quem veio depois deles?
– Lembro, claro. O Merval!
– O Merval. O Merval tinha nome próprio, ok, mas olha o nome. Foi a Era de prata. Uma geração de garçons com nome, mas com aura, entende?
O outro concordava com pequenos suspiros. O um respeitava a pausa e seguia:
– Naquele tempo a gente também era velha escola. Cultivava o improviso, arriscava. Evitava metáforas de futebol. Evitava piadas de “linguiça”.
– Putz.
– Olha para a gente agora. Vem, enche a cara, reclama da mulher, da falta de mulher, do emprego, da falta de emprego… A gente é como esse aqui – apontando com a cabeça para o garçom, que trazia a enésima rodada – nem Gabiroba, nem Jambarjan…. No fim das contas…
– … não passamos de Cristiano….
– Isso aí. Nosso senso de humor é como eles, uma lembraça. Evaporou. Sumiu sem ninguém perceber.
– Putz.
Ficaram os dois em silêncio, olhos marejados, mandando ver no chope. Quando pediram a conta o Cristiano trouxe, por cortesia, a saideira.
Aqueles dois ainda faziam muita gente rir.

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3 Comentários on "Senso de Humor"

  • Kris diz

    Piadas de linguiça são um porre mesmo….mas dependendo da quant de chopps são fantásticas…

    Po nunca me imaginei como garçom…

  • Rafael diz

    É, precisamos mudar as piadas

  • Caramba …

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