Suspleito

O País estava mobilizado. As Autoridades Competentes não economizaram esforços para fazer bonito no evento que todo mundo vinha saudando como “a maior festa da democracia”. Cuidaram obsessivamente de todos os detalhes e, com exceção dos candidatos, estava tudo preparado. Baixaram regras para dizer quem cada postulante podia levar, foram ao rádio e televisão para convidar toda a população, não saíram do ar até o dia da festa, que era para que ninguém deixasse de ir mesmo. E mais do que tudo, se esmeraram na recepção. Puseram uma delas em cada seção. Moderna, novinha, inviolável. A urna eletrônica era a menina dos olhos das Autoridades Competentes.

Sabiam faz tempo que essa jóia de urna seria a musa das eleições. A musa perfeita das eleições perfeitas, tinham certeza. Quem diria, hein? Uma eleição presidencial cem por cento digital. Talvez a primeira eleição presidencial cem por cento digital do mundo, pensavam em êxtase. Transbordando de orgulho, garantiram à imprensa uma apuração em tempo recorde. Até a meia noite, no máximo uma da manhã, toda a nação saberia o resultado. A maioria se entusiasmou.

A maioria, não todos. Sempre tem uma minoria barulhenta e invejosa para querer estragar a festa. Sem muito ibope por aí, esse pessoal resolveu desancar a urna eletrônica. Repetiam que ela era fácil, vendida, promíscua. Diziam para quem quisesse ouvir que ela faria qualquer coisa por dinheiro. As Autoridades Competentes não deixaram barato e saíram em defesa de sua menina prodígio. Garantiram, explicaram, mostraram por A mais B que a urna era mesmo inatacável. Os dois lados ficaram batendo boca, só que sozinhos, porque a preocupação geral era com a melhor forma de comparecer à tal festa democrática. Assim, foram todos votar e não se falou mais nisso. Até que saíram os resultados oficiais.

Haveria segundo turno, como as pesquisas apontavam. Nada de novo. Também conforme as previsões, o candidato do governo estaria lá. Mas ao contrário de todas as expectativas, o adversário dele seria o extremista. Surpresa geral. Eram três no páreo: o homem do governo, a oposição tradicional e estabelecida e um franco-atirador de extrema. Não se sabia se de extrema direita ou de extrema esquerda, nem isso importava, já que na prática dava no mesmo. Todos os levantamentos indicavam como certo mais um clássico do returno presidencial: situação x oposição establishment. Mas eis que o extremista colocou as barbas do velho opositor de molho.

A chiadeira foi instantânea. No começo foi acusação para todos os lados do comitê, do marqueteiro à moça do café, que podia muito bem ser uma espiã dos adversários. Por fim, a palavra “fraude” começou a correr de boca em boca e todos se lembraram das coisas horríveis que andaram dizendo sobre a urna eletrônica. A imprensa doméstica engrossou o coro, sendo reforçada pelos colegas estrangeiros tão logo a coisa tomou ares de crise institucional. Todos acusavam a coitada da urna. Queriam prova que ela não tinha feito o que se dizia que ela tinha feito. As Autoridade Competentes garantiram a lisura da sua urna, mas para seu desgosto, foram obrigados a instaurar um inquérito contra a filha pródiga. Pior: seriam outros a devassá-la, uma vez que observadores internacionais foram chamados para conduzir o processo e fiscalizar o seu comportamento no segundo turno.

As duas semanas seguintes transcorreram tensas. Os institutos de pesquisa com medo de serem acusados de má-fé, os candidatos com medo de serem roubados, a população com medo do extremista e o governo de ver comprovado algum tipo de fraude. Enquanto isso, alheios à eletricidade no ar, técnicos e doutores dos mais respeitados centros de pesquisa mundo afora dissecavam as urnas. Uns a pedidos das Autoridades Competentes, outros, da oposição e outros ainda, para tranquilizar a comunidade internacional. No dia marcado, o País voltou às urnas. Votaram arredios, desconfiados.

O comunicado que dissipou a nuvem de hostilidade pairando sobre o Território Nacional veio no fim daquela mesma noite. O candidato moderado havia vencido com boa margem. Alívio geral. Para desencorajar o lançamento de novas suspeitas, as Autoridades Competentes aproveitaram a ocasião para divulgar os laudos sobre as urnas eletrônicas. Todos comprovavam a sua inviolabilidade. O País recebeu a notícia com alegria, mas em silêncio. Se a urna não tinha sido manipulada, só havia uma explicação para o resultado do primeito turno. Apesar de já saberem o motivo, os eleitores, constrangidos, ouviram as Autoridades Competentes sentenciar em alto e bom som: foi falha humana.

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4 Comentários on "Suspleito"

  • Bom , Mamute! Como sempre, muito bom! O bom do sseus textos, é que faz realmente o nosso site parecer coisa de “gente grande”!

    Bem bacana e, apesar de denso, leve. Vamo que vamo,Mamute!

  • Isabella diz

    Parabéns, Paulo! Muito “lúcido”!

  • Por que mamute?

  • Paulo diz

    Mamute… bem, porque… PRODUÇÃO?

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