Meleca

A Verinha está profundamente irritada com o Rogê. O motivo? O Rui. O Rui é um daqueles amigos pré-casamento do Rogê que sobreviveu ao namoro, noivado e casamento, o que o torna um dos maiores fracassos dela. Não bastasse a gravidade do fato, o Rui ainda parece fazer questão de lembrá-la disso.

Como agora, por exemplo. Além de teimar em manter contato, pega e inventa de aparecer às cinco e meia da manhã de uma quarta-feira. Para ela, as lágrimas do bêbado do Rui não tinham outra explicação senão um lampejo de lucidez que fez com que ele localizasse entre os obituários do jornal a notícia de falecimento da sua dignidade. Já o Rogê estava preocupado com o amigo. Quando o Rui lhe mostrou o jornal, então, passou de preocupado a abalado. Bem abalado. Ela nunca tinha visto os olhos do Rogê tão cheios d´água.

No carro, a caminho do velório, a Verinha se recusava a acreditar que tinha sido arrancada da cama por causa do Meleca. Era só ver o estado do Rui para saber o tipo de exemplo que o Meleca tinha sido. Mas quem olhasse para aqueles dois ia pensar que hipnotizar hordas de crianças todas as manhãs com um boneco foi um marco, que não houve melhor manipulador de fantoches que o Meleca, que o Meleca revolucionou os programas infantis. Pior, perigava acreditar que um verdadeiro levante foi interrompido quando a mão por trás da lenda foi afastada do “MelecaMais” e outros dedos assumiram o manto. Esse foi o único momento em que a voz dos dois saiu firme, trocando as lamúrias pela indignação. Todos sabiam que o Meleca tinha sido contra as Melequetes e seus figurinos apelativos desde o início. Todos sabiam que por trás daquele fantoche havia um homem e sete dedos com necessidades. Dadas as circunstâncias, o Rogê e o Rui  consideraram não só injusto, mas de muito mau gosto dispensar um homem  com uma esposa e uma Melequete grávidas para sustentar. Impressionados com a coragem do Meleca em desafiar os limites pequeno-burgueses da socidade, os dois adolescentes não puderam deixar de condenar o mundo que ali estava, e que agora está aí, ó.

Quase vinte anos depois, ao contrário do Meleca, coitado, a história ainda estava bem viva para a dupla. Isso só deu contornos ainda mais lamentáveis à narrativa da sua tia-avó, a única pessoa velando pelo finado artista. Abandonado por suas mulheres, o Meleca mudou-se para o quartinho dos fundos na casa dela. Ia ficar ali até a poeira baixar e poder retomar a carreira, mas parece que o tempo foi passando e o pó assentou nele. Se enterrou no puxadinho por décadas, até finalmente morrer. Do coração, claro.

A Verinha acompanhava a história da porta. Também estava mortificada, mas não pelos mesmos motivos. Ela aguentou até deixarem o Rui no ponto de ônibus. Aí não conseguiu mais segurar e comentou sobre a admiração do Rogê pelo Meleca. Mesmo depois de tantos anos, mesmo devendo saber, não tinha idéia do quanto aquela figura era importante para ele. Talvez, explicou, porque sempre que a sogra comentava sobre sua fascinação pelo Meleca o Rogê dizia que era exagero. Como naquela vez que ela contou sobre o Meleca que, depois de muita insistência, tinha costurado para o filho. E que o Rogê jurava de pés juntos não existir. Por isso, mas só por isso, que estava tão surpresa. Não tinha entendido direito de onde surgiu aquele fantoche que ele e o Rui colocaram com tanta reverência na mão direita do morto enquanto ela se perguntava sobre que outras bobagenzinhas o marido andava mentindo.

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3 Comentários on "Meleca"

  • Rafael diz

    Hum . . . . . “outras bobagenzinhas” é uma frase muito sua, cara. Curti.

    PS: a luta continua companheiro.

  • marcos diz

    trabaçjho

  • Parabéns!

    Esta é a PRIMEIRA vez que leio algo verdadeiro sobre o que acontece dentro de um casamento. Vida á dois num é facil não!E depois você quebrou um paradigma aí, não é?Aquele velho bordão de que o “homem é sempre o ultimo a saber”-Na verdade é a mulher a ultima, a saber.Mas não a fazer!

    abreijos

    Mára

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