É a Economia, Estúpido!

Antes de mais nada, um aviso: o tema escolhido é recorrente nos anais da crônica. O mais coerente a partir daqui seria, então, enveredar por uma série de analogias entre as particularidades do trabalho dos economistas e alguma outra coisa que parecesse incongruente, como, por exemplo, religião. Como muitos traçaram esse tipo de paralelo com competência e presença de espírito, dá para pular a parte em que tais relações são estabelecidas, bastando usá-las quando for conveniente. O resto do tempo será gasto na construção de uma abordagem histórica que não perca de vista o drama individual. Para a coisa funcionar você deve aceitar que a Economia é hoje o sistema de crenças de maior alcance global e que nenhum ser humano reconhecido pela ONU lhe escapa.

O senso comum sobre o sistema econômico estabelece que ele não só é abstrato o suficiente como internacionalizado o suficiente para tornar viáveis as postulações das teorias do caos. Considerando o desnível de solidez das suas unidades políticas constituintes e a interdependência crescente entre elas, mesmo os mais céticos de vez em quando param para se perguntar se uma borboleta – física ou metafórica – realmente não tem poder suficiente para desarrumar o mundo. Cronistas costumam ironizar fundamentos, como o jargão litúrgico impenetrável, e fazer restrições à sua própria existência, mas nas entrelinhas não se atrevem a negar a tangibilidade dos efeitos da Economia. Como as características de seus movimentos são desiguais – suaves e pontuais nas benesses, furiosas e abrangentes nos reveses – e como ela tem essa incrível propensão a profecias auto-realizáveis, a prudência manda não arriscar e acender velas em mais de um altar.

O domínio da Economia nos grandes centros urbanos já está consolidado. O estilo de vida de uma metrópole para outra é tão parecido que, à exceção da língua – um inglês um tantinho diferente de business center para business center – e de alguns traços culturais nativos persistentes na arquitetura ou em um ou outro hábito pouco ortodoxo, Roma, Nova York e São Paulo são igualmente familiares e salubres. Mudar de uma para outra não requer prática nem mudança de status quo. Os mais entusiasmados atribuem o fenômeno a um intrínseco pendor apátrida, só que tomando o pulso dessas cidades com mais calma, o cosmopolitismo soa menos como um sinal de convergência através do progresso do que como homogeneidade resultante de um processo de aculturação. É deselegante, mas precisamos desmistificar a questão – o international airport way of life que ostentam não tem fundo genético. Sua origem está na trajetória da Economia, nada mais.

Como esta é uma narrativa épica, a história não pára em um punhado de cidades. Estamos falando de uma escala mundial. Pois então. Inicialmente circunscrita, mas livre da prisão ontológica, a Economia pode crescer. Sua influênca transborda das capitais para as regiões adjacentes, com um ou outro pulo. Assim, mais rápido ou mais devagar, vai dissipando dúvidas e avançando, alcançando os limites das regiões metropolitanas e aproveitando a fertilidade das fronteiras agrícolas.

Sua mão ainda é invisível em uma série de lugares, mas seu pé já está firme nas bases do poder. O noticiário político na mídia impressa e nos telejornais há tempos não fala de convicções em um sentido mais amplo. Mas não tem mistério. O ocaso das ideologias deixou a impressão que a política tradicional é puro mexerico, bem como a certeza de que a única posição da classe se sustenta sobre os cotovelos e joelhos. Aí fica fácil entender por que pauta de jornal sério é Economia política. É vendo e ouvindo Economia que sabemos o quanto ela vai permitir que o PIB cresça, qual a taxa básica de juros recomendada, quanto ela acha que os impostos vão crescer, quanto isso significa de aumento nas contas, etc. Acreditando ou não, é ela que tem que ser consultada quando se quer saber quanto vale a vida.

Nas megalópoles convertidas a Economia vai mais longe. Onde sua ascendência aparece de cara limpa, ela constitui um sistema de valores que dita as regras de organização e moldam os códigos de conduta e moralidade locais. Manter um estilinho urbano super básico e despojado, o mínimo aceitável para uma classe que é média apenas fora da curva de Gauss, não é tarefa simples. Por isso, para chegar lá, as pessoas não hesitam em empenhar o presente em nome do futuro, em investir toda uma vida no trabalho ou em poupar sonhos. Mesmo as taxas debitadas diretamente de princípios e reservas éticas são aceitáveis. A competição é acirrada, a Economia não permite caprichos. Vá lá. Agora, dava para passar sem a escassez de afeto que assola o cotidiano urbano. Economia é sufocante; mesquinharia, insuportável.

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3 Comentários on "É a Economia, Estúpido!"

  • Caramba mano!!Sabia que você não ia aguentar diálogos bobinhos por muito tempo!

    Quanta palavra difícil junto! Afemaria, tou orgulhoso!

  • Kris diz

    ufa….então não foi só eu que achou dificil…hehehe

  • …onde coloquei aquele bendito manual de sobrevivencia p/os portadores de I.C.E(Inhorantes Cronicos em Economia)- sofro deste mal e acabo de ter um ataque ao ler esta coluna.

    Mas por vias das duvidas e sem certeza de necas de pitibiribas.

    Mandou bem viu?

    (?)Mára- sou ela. sou?..sou..acho.

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