No Banheiro

É que escureceu de repente, sabe? Do nada. Não do lado de fora, claro. Era baixa madrugada, então lá já estava escuro. O banheiro é que se enfiou nas sombras sem aviso. Estava ali tranqüilo, folheando uma revista. Revista, não livro. Onde já se viu? Todo mundo sabe que não se leva livro para o banheiro. Não, nem que seja só a passeio. Como, por sinal, era o caso – a revista estava mesmo só a passeio. As pessoas sempre pensam o pior quando a gente fala de banheiro e publicações, mas desta vez ela estava ali porque sim. Qual o problema? O banheiro é um cômodo como qualquer outro. Ainda mais quando se mora sozinho. Se bobear, mais pessoal que o próprio quarto. Não interessa. O fato: estava no banheiro. Com uma revista. E bem. Estava, estava; bem, super bem. Só que no banheiro. Aí tudo apagou.

A vida é feita desses pequenos grandes momentos. Quando podia ser uma coisa a mais, um acontecimento a mais, um acaso a mais. Só que não é. A gente sabe que não é; entende que não se trata de um instante do cotidiano que se anula em seguida, mas de um daqueles momentos definidores que, se temos sorte, reconhecemos na hora e, se não, vamos entender o que era muito depois, com o estrago feito. Porque apesar de ser perfeitamente compreensível, há que se concordar que ficar à toa no banheiro, só porque o banheiro era o lugar mais convidativo da casa num dado momento, não é a coisa mais normal do planeta. Por mais que todo mundo vez ou outra venha a fazer isso, não é o tipo de coisa que muita gente faz regulamente. Outra prova de que não pode ter sido à toa. Tudo confluiu. Estava ali, folheando calmamente, sem nenhum senso de urgência que ditasse o que fazer no banheiro, e, sobretudo, estava bem. Quando- BANG!

Coincidência demais. O que só pode querer dizer que não é coincidência coisa nenhuma. Quando essa consciência surge, bom, aí a cabeça começa a funcionar e tentar identificar as razões ocultas, os símbolos, enfim, entender as perguntas para que as respostas a esse teste-surpresa do destino sejam as certas. O importante nesse tipo de situação é deixar os preconceitos, as soluções pré-concebidas, de fora. Caretice só serve para atrapalhar e espantar a chance de ouro. Momento definidor não é decidir entre dois ônibus, caramba. Tem que ter a mente aberta. São escolhas verdadeiras na sua frente. Às vezes elas podem ser surpreendentes, outras nem tanto – e nem assim deixam de ser completamente previsíveis ou totalmente inesperadas.

Graças a essa mentalidade que, passado o susto inicial, começou a decodificação daquela escuridão. O primeiro passo foi entender a mecânica. Para desvendar o mistério era preciso responder a uma única pergunta: “o que diabos aconteceu com a luz?”. Assim alternativas começaram a ser experimentadas, sempre com o cuidado de evitar explicações condicionadas pelo sistema, com seu poder de soar verdadeiro sendo falso e soar falso sendo verdadeiro e tudo o mais. Em um mundo concreto e caótico, a explicação poderia ter um motivo físico besta qualquer. Talvez, talvez. Mas essa é a bóia dos imbecis. E estava legal, e não era imbecil. Tinha que continuar procurando. Numa visão mais ampla, mais sistêmica, deveria percorrer a História daquele ponto para trás e de lá de volta, resgatando os nexos causais e as implicações do acontecimento. Coisas muito importantes sobre a luta de classes, o fim da história e os descaminhos da humanidade teriam seu ápice naquele momento, iluminando um legítimo representante da classe média remediada, meio trabalhador meio proprietário meio dois, portanto ali no meio de tudo isso. Depois ainda seria preciso decompor os símbolos cuidadosamente, de forma que o contexto da transmissão da mensagem revelasse novos significados, ou mesmo a estratégia e cronograma de divulgação recomendados para o trabalho de difusão junto ao resto da humanidade. Pena que por mais que fizesse sentido, no fundo soubesse: não era esse o caminho.

Restava a estrada de baixo. Abandonar o universo dos outros e cair de cabeça no próprio, para então encontrar no apagão uma mensagem enviada especificamente para uma pessoa, cuidadosamente planejada no foro cósmico para quem realmente precisa dela. Um chamado à razão em oposição a uma existência entorpecida por todo tipo de agente. Uma chance de salvação individual. Era a hipótese onde as peças melhor se encaixavam. Estava no banheiro porque estava no banheiro. Podia estar em qualquer outro canto, mas estava ali. Sem motivo aparente. Quer coisa menos arbitrária? Aquele banheiro é a coxia de uma tragicomédia particular. Tudo que tem lá viu de camarote os espetáculos mais deprimentes que o homem pode imaginar. Para falar a verdade, quase tudo.

O basculante, por exemplo. Sempre aberto, oblíquo. Dissimulado. O basculante sempre pôde desviar o olhar, escolher ignorar. Como o espelho, que vive de fingir que não é com ele, fica enrolando, tentando inverter o que aparece na frente dele, e na prática só repetindo com ar de indiferença. Eles têm a opção da neutralidade. Podem deixar de ver os tropeços, as poses inglórias, a prostração diante da privada, as noites esparramadas dentro do box molhado ou em posição fetal no tapete úmido. As ocasionais viagens, nem sempre livres de turbulência. Ou as várias visitas – até os vizinhos reclamam. Se já é duro encarar os vexames do dono da casa, colocar mais gente é pedir encrenca. Seja “mais gente” mais uma pessoa, ou muitas “mais uma”, ou pior, amigos do dono da casa desfilando – ahem – gostos parecidos. A diferença entre os que não têm a sorte de se alienar está na atitude. O capacho não faria nada, nem a própria privada, coitada, que há tantos anos engole tudo quanto despejam nela. Até engasga, ok, mas sempre engole. Já as paredes, não. Com aquelas dezenas de olhos escancarados, vêem até sem querer.

No fim das contas, talvez não fosse uma mensagem universal, ou um convite à interpretação da história, mas que era um recado, era. O que aconteceu naquele banheiro é um protesto solitário de um grupo descontente, um verdadeiro assalto a uma consciência inapelavemente culpada. Um levante revolucionário tramado em silêncio e lançado na calada da madrugada. Ao se fecharem, represando assim a luz, os ladrilhos fazem seu alerta: do jeito que está não pode ficar. Qual o destino de tanto desgoverno? Quantas humilhações são necessárias? Já não é aqui o fundo do poço? Basta! Os indícios de um propósito eram claros: estava no banheiro; e bem, inteirão, imagina, nem de longe travado, claro que não. No ponto para poder perceber. Se o toque tinha sido recebido, atitudes precisavam seguir. A palavra chave naquele momento era comprometimento e isso precisava ficar claro. Assim, de pé, em voz alta, assumia a razão dos azulejos e prometia providências. Estava na hora de crescer e abraçar mais responsabilidades, concordava. Dali para frente seria um homem sério. Palavra. Como? Ia arranjar uma tartaruga, uma esposa, ter filhos, trocar a lâmpada do banheiro. Lances assim.

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5 Comentários on "No Banheiro"

  • Kris diz

    ainda bem que ela não cospe…

  • Rafael diz

    Cara. Saboneteiras pra vc. Depois a gente fala sobre o texto. Abraço. rs

  • Você tá bem?Tem certeza? Não sentiu quando parte de seu cérebro esvaiu-se de seu corpo nesta fatidica alta madrugada lá seu banheiro?

    Olha, de uma coisa eu tenho certeza!Esta é a mais criativa e longa explicação/desculpa para um aspecto simples e peculiar da Vida e seus imprevistos.

    Então vê se troca LAMPADA do banheiro logo e PARA de arrumar desculpa pra isto!.

    valeu a atualização de meu vocabulario!

    Bjs

    Mára

  • ..acho que este texto possue uma ligação intra-cosmica com aquele desabafo rebelde literario de seu colega de letras,de revista literaria e talvez de banheiro, Kris seu eu não me angano escreveu dias atras sobre “cocô.cocô,cocô”Acredito que vc deveria repensar todo o texto e suas conclusões levando em conta esta mau cheirosa e estranha ligação.

    abreijos

    Mára

  • José Ignacio diz

    Assim como papel higiênico, alguns textos também possuem camadas…

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