Connaisseurs

– Agora, sim! Aqui, de frente para… – as palavras falham. Indica do que fala só num gesto ao mesmo tempo de reverência e incredulidade, abanando os braços enquanto abaixa a cabeça. Aí faz uma pausa. Respira fundo. Continua. – Agora dá para entender a urgência.
– Não falei? Não falei?

Para quem ainda tem dúvidas, não custa esclarecer: trata-se de um trecho notório, não, mais ainda, obrigatório, de dois homens entregues a uma prática saudável e muito cara ao gênero – a alimentação de obsessões. É um padrão tão observado, estudado e repetido que a expressão seguinte só pode ser “E aí?”, “Então”, “Que tal”, ou outra pergunta que permita ao outro finalmente entrar no jogo, encaixando uma opinião já de saída; algo como:

– Robusto!

Como relações dessa natureza são baseadas no respeito e admiração mútuos, e até por uma questão de educação, essa primeira sentença é recebida com uma virada de olhos para cima, que pode ser traduzida como “óbvio” ou “dããããã”. É uma forma elegante de indicar ao outro que ainda é a vez dele:

– Mas, olha…. Apesar de encorpado, não sei, parece que….
– Sim?
– Espera… Preciso ter certeza… Talvez….
– Deixa ver se adivinho. Não sabe se é cítrico demais ou se está no ponto certo.
– Isso! É exatamente isso! Você…. Né?
– Sem dúvida. Essa pergunta me atormentou que você não faz idéia.
– E qual a sua conclusão?
– Então… – abre um sorriso de antecipação. É a deixa para o outro. Completam a resposta num coro – Não tem fórmula!

“Não tem fórmula” é perfeito. “Não tem fórmula” é melhor do que dizer “Perfeito”. É a fronteira final. O limite da eternidade. A certeza de que o assunto é inesgotável e que; bom, já deu para pegar a idéia.

– Se você prest – não conclui. Se interrompe, corta a gafe no meio. O convidado ainda não acabou. Ficou barato, só na censura ocular. Cabia fácil o “shhh, shhhh”. Foi por pouco. Mirim, mirim.
– E macio. Bem macio. Aposto que é daqueles que ainda por cima vai melhorando com o tempo…. É ou não é? – O outro só faz aquele movimento: cotovelos para trás, mãos espalmadas coladas no peito. Aquele. – Sabia! Só podia!

Ah, a satisfação!

– Tem mais. Chegou a –
– Reparei, claro; ô se reparei!
– Uma beleza, uma beleza…. Lindo trabalho….
– O tanto exato de madeira. Nem mais, nem menos; na medida para valorizar o todo, o conjunto, sem roubar a cena.
– A classe típica dos produtores.
– Quase uma assinatura… –

Olhar cúmplice. Contentamento transbordando.

– Aliás, para quem conhece, para quem realmente conhece, isso é a assinatura.
– Já que falamos da assinatura… Consegue dizer o ano?
– Que é isso agora?! Pegadinha….?A essa altura? Faz favor, né?
– ;-)
– Mas sabe o quê? Quem vai te pegar sou eu. Quer saber o ano? Vou dizer!
– Sério? Porque nos últim –
– Eu sei. Todos têm essa mesma característica. A mesma “assinatura”. Mesmo assim, aposto que acerto.
– Você é que sabe….
– Pronto?
– Manda.
– 2-0-0-3. Dois mil e três.

Espanto. Emoção. Estupefação.

– Como…?
– Fácil. Aqui, ó – inspirando. O outro acompanha – Está vendo?
– O aroma?
– Sim.
– É baunilha. Extrato clássico.
– Não, não. Tenta mais uma vez. Presta atenção – os dois inspiram de novo.
– Tá….
– Achou?
– Achei. Bem leve, tem um traço novo….

O êxtase, o êxtase.

– Tem. Uma fragranciazinha leve, leve…. Incidental… Um detalhe exclusivo, coisa fina, que ninguém mais tem….
– Parece familiar…. O que é?
– Babaloo banana!

O ÊXTASE, O ÊXTAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH

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7 Comentários on "Connaisseurs"

  • Van diz

    Hahaha… eu sabia que não podia ser algo tão na cara… Tinha que ser vc! Adorei…

    Este está bem mais leve, hein? Acho que vc tem desfrutado bastante esta iguaria descrita no texto… Beijos! Smack! Deu pra ouviro barulho da bola estourando??? van

  • Ricardo diz

    Vi essa menina nascendo. Segurei no meu colo, e agora … olha aí! Brilhando como uma crônica adulta! Muito bem carinha! Já sabia q ia ficar bom, e ainda sim me surpreendi. Muito bom! As frases pela metade dão uma verdade gigantesca ao texto! Isso aí!

    Vamo que vamo!

  • diz

    Estou extático.

  • diz

    Vai se tornando melhor a cada leitura, conforme o humor se expande no palato e novas camadas de ironia vão se desvelando…

  • Rafael.... diz

    Ficou muit b – voc sabe.

  • Anônimo diz

    eu digo que devemos sempre respeitar a opinião de um profissional…é….seja lá qual for a área….afinal, foram anos de estudo e devoção para que a pratica levasse a perfeiç…

  • Fujii diz

    ops….esqueci de colocar meu nome…foi mal….

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