Campanha de Utilidade Pública

Ah, mano, era uma cavalinha. Peito, bunda, tesão. É, é, isso aí mesmo…. Cê tá ligado! Então, a mina ali, e tal, resolvi chegar junto. Que cê sabe, esse tipo de mina vive dando mole, mas é só neguinho encostar que ela começa a fazer cu doce. Bota aquela calça enfiada, barriga de fora, e depois fica fazendo cu doce. Mas tudo bem, né? Já tamo ligado como é a parada, aí a gente finge que nem pá e fica lá, só dando moral. Mas essa, ah…. Essa foi diferente. Sei lá. Ela falou comigo sussú, não teve essa presepada. Quando eu cheguei, ela abriu um puta sorriso. Mina feito ela nunca sorri, elas ficam só ali, te filmando, olhando em volta, essas merdas. Ela, não. Ela era a mais na boa… Desculpa, o ar condicionado irrita e… Não tem ar? Ah…. Deve ser um cisco… É, nos dois…. Pô, mano, é cisco!… Bom, a mina era na boa… Aí aquela coisa, a gente ficou ali, trocando idéia e tal, e beleza, legal, aí começou a rolar. Depois que começa, cê sabe, azeite…. Mas… Eu não sabia, não sabia que ia dar nisso! E ela…. Eu não sabia!… AHHHHH! Vagabunda! Ela acabou com a minha vida, a putinha!

Olha, vou falar que não foi falta de informação, não. A gente sabe. Só não se liga quem não quer. Ainda mais no nosso círculo, na nossa idade. É tudo gente feita. É que fica fácil apontar para os outros e tentar arranjar uma desculpa, dizer que o governo tem que fazer isso, que as ONGs, que o diabo a quatro. A saída mais deprê é a dos pais. Cara, eu vou culpar meus pais? A essa altura da vida? Tudo bem que eles também estão doidos para achar um responsável, uma explicação qualquer, e com um pouco de esforço você pode até fazer com que eles acreditem que a culpa é deles, que eles te traumatizaram quando cê era moleque, séculos atrás, e isso levou onde levou. Mas é mentira! A real é que todo mundo sabe. Eu sabia. Sabia que tinha que ficar esperto. Mas fiz isso? Não! Então, a culpa é de quem, deles? Claro que não. É minha! Só minha. Nem foi intencional, mas não parei para pensar. Azar meu. Agora eu tenho que assumir os meus atos, enfrentar as conseqüências.

Nossos levantamentos mostram que não há um fator determinante: não importa muito classe, religião, região, idade. Claro que existe alguma concentração em certos estratos, mas não é nada muito relevante. A incidência é meio homogênea. Por isso que é importante não desistirmos das campanhas de conscientização. O trabalho de prevenção é fundamental. Muita gente até sabe, mas eles ficam presos naquela ilusão perigosa de que só vai acontecer com os outros, com a turma dos outros. Aí, de repente, vêem um amigo deles, ou eles mesmos, nessa situação difícil e não sabem como lidar. Quando eles chegam e nós conversamos, é duro. O principal sentimento é um remorso enorme, porque eles tinham conhecimento. Acho que compete a nós não só espalhar a informação – tarefa que tem sido desempenhada muito bem – mas, sobretudo, qualificá-la. O que está faltando é esse último passo: primeiro, saber; depois agir de acordo. A idéia do risco tem que ficar mais real. Sem apelação, sem terrorismo, com um foco na tomada de consciência, mesmo. Fazemos muito esse trabalho com quem chega aqui, junto do tecido social deles. A iniciativa tem dado certo. Agindo direto nesses grupos, sejam eles de risco ou não, o drama de um acaba servindo para abrir os olhos dos outros.

Eu tinha ido com umas amigas. Passaram lá em casa e me pegaram. Eu que tinha ficado de comprar as vodkas. Comprei umas duas garrafas e a gente já foi bebendo, para chegar na festa bem. Mas só bebida, porque as outras coisas tu encontra lá dentro. O que? Ah, o que tu quiser. Tu faz um charminho, aquela coisa, os guris arranjam o que tu pedir. A gente chegou na festa tudo meio bêbada, já, e ali dentro tava foda, tri cheio, som, luz. Eu fui ficando bem louca! Louca mesmo; mesmo, mesmo. De tudo! E aquele monte de carinhas em cima. Teve um que eu gostei, que bateu… Bom, nem preciso dizer onde deu. Não sei se é porque eu tava muito louca. Não sei. Pode ser que fosse acontecer de qualquer jeito, comigo caretona. Até acho que é isso. Que não fez diferença. Já teve outras vezes e foi bem isso, brincadeira de uma noite, sem nada de mais, sem dar nada. Eu acredito em destino, que as coisas estão escritas. Não tudo, claro, mas algumas estão. Devem estar. Isso aí, por exemplo. Aconteceu porque tinha que acontecer. É a única explicação.

A verdade é que cada um tem uma história. Há aqueles que se deram mal logo na primeira vez, tem outros cuja sorte só acabou depois de um longo histórico de abuso. Comum a todos, só o quadro. É normal a perda de apetite – e de peso, consequentemente; a pessoa se retrai, se isola do convívio da família, dos amigos. Então vêm os ciclos bipolares, os episódios de euforia e apatia, ataques de ansiedade ocasionais e uma ou outra doençazinha oportunista. Um panorama complicado, pendendo para a depressão. Ainda estamos em uma fase muito empírica, é verdade, mas através da observação clínica avançamos muito nos últimos anos. Hoje temos diversas ferramentas para o tratamento. Agora, o principal é a disposição individual. Para qualquer terapia, para elas funcionarem, a pessoa precisa aceitar a sua nova condição. Não estou falando de entender, mas de aceitar. Quando ela finalmente aceita o ocorrido e o impacto que isso terá na sua vida dali em diante, aí sim existe alguma chance de sucesso. Quem não reconhece as limitações com que vai precisar lidar todo santo dia da suas vidas, é triste dizer, mas esses já estão desenganados.

Nossa, foi o quase mais quase do mundo! Tipo, eu tava ali, na bica, indo… A sorte foi uma amiga minha não ter largado mão. Nunca tinha rolado nada parecido. Meu, só faltava eu me ferrar assim, de cara. Aí eu soube desse lance dos doutores… Achei que podia ser uma boa para mim, para entender a minha história, né, e eu vim. Tem cada caso…. Gente que não tinha idéia do que estava fazendo, gente que pensou que sabia como levar, como controlar… É só olhar para eles para ver no que deu…. Cada caso… Cisco? Não! Eu sou assim, emotiva, mesmo… Lesa, eu, né?… Isso porque escapei de boa! Só sei que agradeço sempre por não ter entrado nessa. Deus me livre e guarde! O pessoal me zoa, diz que eu estou tentando ser o anjo da guarda de todo mundo. Eu tento ajudar meus amigos, mesmo. Pena que nem todo mundo presta atenção. Há pouco tempo minha irmãzinha – assim, irmãzinha amiga, não irmã, irmã, que eu não tenho irmã, só irmão – então, essa menina, eu avisei para ela: toma cuidado, se previne…. Mas ela nem quis saber. Se apaixonou, coitada.

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9 Comentários on "Campanha de Utilidade Pública"

  • Van diz

    Texto apaixonante! Parabens :) BJ, van

  • malena diz

    ah, mas é bom! eitcha doencinha boa

  • Kris diz

    Doente. Mas muito bom..hehehe

  • José Ignacio diz

    Do mal… o pior é que a gente não aprende!

  • José Ignacio diz

    Muito bom o recurso das diferentes vozes, estão reproduzidas com fidelidade, variações sutis de tom… dá para imaginar os tipos por trás de cada uma…

  • Raquel diz

    Paulo, essa sim eu captei!! Parabéns! bj

  • Hummm… sinto um buquê calvinístico nesta safra. Um tanto frutado, mas encorpado na medida certa. Acompanha bem um jantar a luz de velas.

  • Caramba Mano! Bem bacana!

  • Van diz

    querido, estou com saudade dos textos… vc não vai colocar um novo? beijos, van

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