L´Étalage

Era Paris. Eu estava meio desorientado – sabia que deveria estar ali, mas ao mesmo tempo, as coisas não estavam transcorrendo como o esperado. Os meus pontos de referência, em particular uma Fnac convertida em revenda de carros e agora abandonada, não existiam. O céu estava nublado. Uma chuva que não se decidia a cair, se jogava aos poucos, intermitente, hesitante. Dia que se dedica a fazer hora enquanto a noite não chega. Mas as ruas não deixavam dúvidas sobre eu estar ou não em território francês. O chão das ruas era coberto de pedras, como paralelepípedos, mas irregulares, mais medievais; asfalto só em trechos das avenidas principais. Pelas ruas laterais, onde não entravam carros, nem de longe. As lojinhas tinham fachadas estreitas, toldos dos mais variados; grandes vitrines de vidro.

Se não é a França real, é uma das minhas idéias dela, a paisagem emocional que atribuo à Europa Clássica. A bem da verdade, só digo que é a França por causa dela: não há outro lugar para ela; e é Paris porque não conheço Toulouse ou Marselha ou Lille ou etc. Ela estava lá. A essa altura, eu sabia. Tinha visto meus misteriosos planos prévios irem água abaixo (sem trocadilho), mas agora tinha um novo propósito.

Não sei bem se o telefone celular tocou ou se eu fiz a chamada. Era ela. Aquele jeito lacônico; a voz vazia de um pensamento distante. “Tudo bem?”, perguntei; “Tudo”, a resposta; “Você não parece muito convicta.”, “Não, é só cansaço.” – uma pausa – “Cansaço. Só isso.”. Eu sabia que não era verdade. Ela estava com problemas em várias frentes. Sem referências. O trabalho era uma coisa que não servia para nada, simplesmente estava lá; havia um tempo que tinha se desalojado de casa e ainda perambulava em busca de um espaço para configurar como lar; a família, pequena, vivia às turras. Ainda por cima, com muito trabalho e pouco dinheiro. A tudo estava cinza – e se retraía nessa indiferença. Mal suportava a própria companhia. Se pudesse, certamente se afastaria de si mesma também. Eu sabia de tudo. Não me sentia bem-vindo para perguntar ou qualquer outra coisa, mas não tinha como refrear a curiosidade. Me interessava e perguntava por aí. O que sabia, sabia por terceiros. Coletando lascas, fragmentos, fazia o melhor para compor um mosaico que desse idéia da situação. Sem, no entanto, acreditar piamente nele.

Enquanto conversávamos ao telefone, avançava por ruazinhas surgidas quase que ao acaso, cara de moldadas pelo inconsciente de alguém: inclinadas e tortuosas, mesmo na largura cambiante. A essa altura já chovia. A indecisão, ali, não existia mais. As pessoas abandonavam as ruas apressadamente, refugiando-se em lojas e cafés. A água escorria pelos toldos criando um véu líquido que se estendia até explodir no chão. Quem tinha guarda-chuvas o sacou imediatamente, mas mesmo esses, com eles abertos, não se sentiam protegidos e apertavam o passo rumo ao interior dos recintos. As gotas grudando nas barras das calças, nas pernas nuas; invadindo sandálias, tênis, sapatos. Só eu seguia mais ou menos normal. A chuva não me afligia tanto – só um pouco. Pelo desconforto da roupa que começava a grudar, essas coisas. Estava surpreso com a ligação, confuso. Meus passos eram firmes apesar de não serem velozes nem parecerem ter direção certa. A chuva trazia uma claridade nauseante.

Eu andava e ia falando no aparelhinho, e ia olhando as casinhas na rua aleatoriamente traçada e que eu ia subindo – até me fixar em uma. Fachada branca com porta de um escuro bem úmido. Ao lado, uma janela – as vitrines estavam sempre lá, ao longo das ruas, maiores ou menores, opacas ou transparentes; essa, das grandes. As cortinas estavam abertas, revelando um ambiente aconchegante. O vidro começava a ficar salpicado pelos primeiros pingos. Dentro, piso de madeira envernizado, lareira (apagada), uma mesa, a escada para uma sala acarpetada abaixo do nível da rua. Paredes lisas e sem manchas. Não tinha a cara de ninguém – era um lugar aconchegante de um jeito neutro. Diante de algumas das caixas de papelão espalhadas pelo aposento, mexendo em uma mala de viagem sobre a mesa, uma mulher equilibrando o telefone entre o ombro e a cabeça. Falava desinteressada enquanto fazia e desfazia mecanicamente a bagagem. Estaquei. Me aproximei da vidraça. Além da chuva, agora era atingido pela coluna d´água que se atirava do parapeito, colando a camisa e o jeans ao corpo. Sensação incômoda: as roupas pesando, oprimindo. Assim, chegava mais perto não só para confirmar o já descoberto, mas também atrás de um pouco de seco.

Só que as gotas já tinham virado pequenos rios. A maioria vinha trazida pelo vento, caindo diretamente na janela; várias delas cruzando seus caminhos para se juntar às que vinham do chão. A mulher se virou. Ela demorou um pouco para assimilar a minha presença ali. Pôs o telefone de lado sem desgrudar os olhos de mim. Os cabelos negros soltos; melancolia ancorada nos olhos. Ficamos nos encarando por um tempo – a água correndo pelo meu rosto, o cabelo escorrido, completamente encharcado; ela, noutro turbilhão – incrédula, indecisa. Depois, certa irritação, olhar fustigante – era claro o que pensava: “você já estava vindo, estava se fazendo de desentedido.”; (“não, foi acidente, não houve premeditação. Eu realmente não tinha a intenção.” Ela não acreditaria.); na seqüência, um movimento de sobrancelhas: “Pois não deveria ter vindo. Não o quero aqui.”. Nada mais aconteceu. Não fechou as cortinas, não sumiu no interior do apartamento. Não abriu a porta.

Fiquei lá, do outro lado do vidro.

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6 Comentários on "L´Étalage"

  • diz

    Gostei do clima onírico, très joli. Bravo et au revoir!

  • Gabi diz

    Lindo….lindo…

  • Kris diz

    Muuuuuito bom!!! Nossa Paris sempre deveria ser romântica ainda que chuvosa…

  • van diz

    Fiquei imaginando os detalhes… amei :)

  • Parabéns! Maravilhoso!

  • Rafael.... diz

    ParabŽns Paulones, mais uma prova de que sua lapida‹o de textos relamente funciona. E muito bem!

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