Proposta de Referendo

Dá licença que eu quero participar. Também tenho uma proposta para um referendo. É hora de aproveitar essa disposição da sociedade de se mobilizar e pôr em pautas perguntas maiores. Não é uma crítica aos outros, não. De modo algum. Temos que começar por algum lugar. Além do quê, está certo começar com temas mais pontuais e específicos para irmos treinando. Ajuda a tirar a pressão. Se erramos ou nos atrapalhamos, não tem muito problema.

Agora que vencemos esse medo da estréia, porém, chegou o momento de pensar grande, de ir para as cabeças. De assumirmos de vez o nosso papel – não só de brasileiros, mas de cidadãos do mundo. Chega de bairrismo. Se nós podemos ajudar o mundo, patriotadas não devem nos deter. Conclamo todos a deixarem de lado qualquer diferença mesquinha, qualquer reserva, e se elevarem à estatura da nossa nação no cenário global. Fazer jus à boa figura de que gozamos junto à comunidade internacional é praticamente um dever cívico. Portanto, não nos apequenemos. Vamos usar a Alegria e a Boa-Índole tão características do nosso povo para ajudar a humanidade e, com Jeitinho, resolver os problemas que assolam o planeta.

Nós temos o poder – não, mentira, a responsabilidade – de mudar o mundo. Sabe como? Apertando um botão, nada mais. Mas, ao contrário do dos presidentes dos EUA, o nosso botão mudará o mundo para melhor. Muitos dirão que a possibilidade de resolver as mazelas globais desse jeito não passa de uma ilusão, de um sonho. Com conflitos tão numerosos e questões tão complexas espalhadas por aí, talvez a idéia soe mesmo um pouco pretensiosa para a maioria. Vão falar em ingenuidade. Uns tantos até podem chamar de viagem. Ainda haverá o pessoal que nem vai se dar ao trabalho de procurar um adjetivo, vai só dar risada mesmo. O negócio é não ligar. Um pouquinho de paciência com eles e as coisas se ajeitam. A participação é obrigatória, certo? Então eles terão que levar o assunto a sério, se envolver no debate e votar quando aparecer na urna eletrônica a minha foto com a pergunta “Você é a favor da utilização do meu ´ultra-mega-super-master-hiper raio da morte´™?”. Depois, sentindo os efeitos práticos, darão o braço a torcer. Certeza.

As mudanças serão sentidas quase instantaneamente. Até os mais impacientes ficarão maravilhados. Já nos dias seguintes ao uso do ´hiper-ultra-mega-super-master raio da morte´™ será possível notar o salto em todos os indicadores sociais e econômicos. Para começar, haverá uma correção imediata na distribuição de renda. Ao mesmo tempo, a fome será praticamente eliminada. As instituições nacionais e internacionais serão fortalecidas graças à milagrosa melhoria do nível da classe política. O aumento incrível de bom senso circulante só será menor do que a tolerância racial, sexual e religiosa inundando todas as esferas da vida social. Nem tudo vai ser perfeito, obviamente. Enfrentaremos uma difícil discussão da nossa relação com o meio-ambiente, mas pelo menos essa dê-érre vai valer a pena. Só temos a ganhar com um relacionamento mais maduro com a natureza. Cedendo aqui e ali, com um pouco de boa vontade, provavelmente conseguiremos espantar aquele velho fantasma da escassez – isso para ficar em um exemplo. Como não quero enganar ninguém, devo dizer: o analfabetismo não será erradicado. Ele deve encolher bastante, mas ainda teremos trabalho a fazer nessa área de educação. A boa nova é que não faltarão pessoas dispostas e capacitadas para atacar a questão. Sem contar que o fim da corrupção e o imenso aumento de eficiência em todo tipo de sistema e processos garantirá que as melhores soluções sejam implementadas com uma senhora vontade.

Sem contar as transformações em áreas de primeira grandeza, como na cultura e no nosso estilo de vida. Mulheres bonitas, inteligentes e legais comporão a esmagadora maioria da porção feminina da humanidade. As damas acostumadas a reclamar do sortimento masculino do mercado terão uma aguardada e deliciosa surpresa. Vai parecer que aqueles caras que todas vocês dizem querer dão em árvore. Por uma dessas desgraças que acontecem quando fazemos escolhas, artistas clássicos e de vanguarda como Silvinho Blaublau, Mirisola, Todd Solonz, Clodovil, João Kleber e Tati Quebra-Barraco vão sumir. O lado bom é que as bandas, escritores, cineastas e etecéteras remanescentes escreverão livros, músicas, peças, shows e etecéteras imperdíveis de verdade. A provável extinção da necessidade de filas no banco, na padaria, na balada, nos bares, nos restaurantes, nos estádios, nas casas de espetáculos (e de tolerância), na faixa de pedestres, nas avenidas, nos estacionamentos, nos shopping centers, nas lojas, nos aparelhos da academia, nas rodas lisérgicas e etílicas e uns outros poucos lugares provavelmente frustrará alguns paulistanos. Quero que saibam: entendo o pesar pela privação de uma opção de lazer tão enraizada, apesar de restrita a apenas alguns aspectos da vida social da cidade. Peço, no entanto, que sejam magnânimos. Conto com um desprendimento muito parecido, senão maior, dos amantes de cidades maravilhosas e carnavalescos. Sacrifícios engrandecem a alma, lembram? Entusiastas do futebol, força! Não desanimem! Pode levar um tempo até o esporte se reorganizar depois da realocação dos juízes e da maioria dos dirigentes (e mesmo de um punhado de jogadores), verdade. Vocês devem se concentrar em não perder de vista a emoção e beleza resultantes, óquei?

Eu poderia continuar aqui, listando as conseqüências positivas, mas parei para reler as que escrevi. Realmente parece conversa mole. Não é verdade, mas não tenho como demonstrar o contrário neste momento. Estamos correndo atrás disso. Já tem um monte de gente dando duro e trabalhando com imparcialidade para levantar dados objetivos, necessários se queremos um debate bem-informado e de alto nível. Durante a campanha, prometo que vou fundo no assunto. Até lá as pesquisas estarão prontas, assim como os relatórios de especialistas e as simulações de uso do ´ultra-hiper-super-mega-master raio da morte´™. Acredito cem por cento nos argumentos a favor. Sem dúvida, com a força deles e a consciência de vocês, cidadãos de bem, o “sim” ganha com folga.

Claro que a vontade da pessoas é meio imprevisível. Pode acontecer de a sociedade decidir não querer o mundo que temos o potencial para ter. É errado, mas do jogo democrático. Qualquer um pode fazer uma escolha estúpida e votar “não”. Eu vou ficar desiludido, vou perder minha fé no sistema, mas, por mais idiota que seja, a opinião das pessoas deve ser respeitada. E vou respeitar. O lance é ter maturidade e encarar a adversidade com naturalidade. Vou ter que ignorar o resultado e botar o ´hiper-ultra-mega-super-master raio da morte´™ para funcionar assim mesmo. Espero que, como eu, elas saibam respeitar uma posição diferente e não tentem simplificar a questão colocando rótulos. É fácil apontar o dedo, julgar os outros e dizer: “supervilão”, “gênio do mal”, bobagens do tipo. Agora, se não rolar nem esse mínimo de compreensão, tudo bem também. Paciência. Mas que não reclamem se, depois de apertado o botão, elas estiverem lá em cima ajudando a recompor a camada de ozônio, entre os 5,2 bilhões de pessoas vaporizadas.

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10 Comentários on "Proposta de Referendo"

  • Murilo Boudakian Moyses diz

    Eu voto “SIM” apenas pelas explosões que esse raio vai causar!

  • Rafael diz

    Finalmente alguém com idéias maduras! Estava ficando sem esperanças . . .

  • paulo vasconcellos diz

    espera só até o superman ler isto.

  • Kris diz

    Eu voto “SIM” pela vida. Inteligente.

  • diz

    A cifra de 5,2 bilhões foi obtida por meio de pesquisas objetivas?

  • SIM !! SIMM!!! SIIIIIMMMMM!!!!

  • Paulo diz

    Hum… zé, na verdade é cinco bilhões, duzentos milhões e um. Espertinho. :P

  • Van diz

    não… talvez… sim… depende… pode votar nulo??? hahaha

  • manda diz

    me convenceu! é SIM!

    na verdade cê me conhece e sabe bem que eu sou contra a violência né?

    mas em casos como o do graminha ontem a gente não pode considerar a utilização do “raio da morte” como um ato de violência ;)

  • Mais um voto para o ” Sim”!!!

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