Exercício sem Título, Nome ou Número

A fachada podia ser vista de longe. Seus pés ainda teriam que se desviar de muitas armadilhas espalhadas pela calçada antes de alcançar o letreiro de néon. Não fazia muita diferença naquele instante porque era justamente esse desafio que absorvia sua atenção. Estava concentrado em evitar os buracos, cocôs de cachorro e pocinhas que podiam tanto ser de água (suja) como urina. Mesmo a idéia da sola de seu sapato em contato com coisas tão nojentas já causava um certo desconforto. Sabia que sua pele não ia entrar em contato com nada daquilo, mas queria evitar pisar de qualquer jeito. Então, andava olhando para o chão. Se a iluminação da rua fosse só um pouco melhor, ou se a Lua desse uma mão, quem sabe pudesse levantar a cabeça com maior frequência. Azar dele, quem manda ser refém meio patético de uma maniazinha?

Interessa que ele tenha erguido os olhos no momento certo. A senha pode ter sido um acidente familiar na calçada, por que não? Marcar o caminho através de buracos ou rastros de chorume é a mesmíssima coisa do que fazê-lo assinalando prédios e árvores. A mania de andar com o nariz esfregando no chão faz surgir referenciais que gente mais altiva sequer imagina. Agora, quem é capaz de dizer que ele não parou onde parou não por conta do proto-tique e sim porque bem ou mal estamos sempre atentos ao entorno, ainda que não demos por isso? Estamos aqui fazendo pouco desta figura à toa? Enquanto falávamos de seu método de caminhada, deu de ombros desviando das palavras jogadas à sua frente para que tropeçasse, discretamente consciente de tudo ao redor. Perfeitamente lúcido.

Parou diante do hotel, a entrada do outro lado da rua. Arrumou a postura, enfiou as mãos no bolso; mirou a porta. Tranqüilo. Nem estava prestando muita atenção – é de se duvidar que pudesse descrever os azulejos cinzas (e feios) emoldurando a porta de vidro preto lotada de cartazes promocionais, adesivos de cartão de crédito – eles aceitavam tudo, até tíquete; o destoante toldo vermelho estilo meia-joaninha-de-saia; as janelas de alumínio; lá em cima, o letreiro com um nome ´tropical english´ berrando em vermelho e azul. Seu único vínculo ao lugar estava em uma idéia, uma memória; mais exatamente, na idéia de uma memória: não existia fato para ser lembrado, a personagem não era inventada.

Encontrando a outra metade desta lembrança inventada, não resistiria. “Sempre que passo aqui lembro de você, sabia?”,”Puxa! Isso é elogio!”,”É, bom, eu sei que não é… Normalmente não faria…”,”Hã”,”Ah, essas coisas funcionam assim. Se o lugar é lindo ou um lixo, e daí? Para mim lembra e acabou. E não acho isso ruim. É, simplesmente.”, “Então tá.”, “Nem perde tempo fazendo esse tipo de jogo”. Nada de termos ríspidos ou duros. Eram claros. Queria ser objetivo e não deixar dúvidas sobre como deveria ser a interpretação. Ao mesmo tempo, não dependida dele. Alguns passos teriam sido dados, alguma observação pontual teria sido feita, algum tempo teria sido gasto, enfim, até “Só acho meio emblemático ser associada a um troço desses”,”…”,”Não?”, “Já falei. Você quer que eu comente o quê?”, “Acho que merecia mais”. A reunião está no fim, faltam umas poucas palavras, a fala capaz de calar os gestos, dar a deixa da saída, “Todos merecíamos mais”. Sem conseguir desviar dessas, permitiria ao queixo mais um mergulho e sumiria sem arrastar risos ou lágrimas. Deixemos. Que vá sem peso.

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3 Comentários on "Exercício sem Título, Nome ou Número"

  • diz

    Sem título, nome ou número, mas com nota dez!

  • Van diz

    Cada vez mais style… CLAP CLAP CLAP! beijinho

  • Rafael diz

    Confesso que estou sem impressões, sem reações ou intenções, mas mais uma vez a escrita perfeccionista foi realizada.

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