No Meu Mundo

Chove no meu mundo. Chove uma chuva que veio de repente, sem aviso. Uma chuva-chuva, que não é garoa nem tempestade. Daquelas monótonas, exatas, sem raiva, que cobrem tudo num véu de água. Do tipo que esvazia o coração e afoga o peito. 

Sei que é comum chover lá fora, no mundão. Vivo por ali, velado por céus cinzentos e juízos nublados. Ficar lá é pedir para se molhar. Mas aqui não é comum chover, não. O firmamento ri à toa. Neste meu mundo a previsão nunca erra: o tempo é sempre perfeito. Quer dizer, quase sempre, porque agora chove. Então, o tempo aqui é quase sempre perfeito.

Ninguém sabe qual é o segredo. Dizem que um dos motivos é que a base do tempo é boa – ele se sustenta em uma terra semeada de bons princípios. Firmes, eles não se vergam aos ventos nem acompanham a sua direção. Tem quem aponte para o azul do céu, um azul que de tão profundo é cintilante. A gente do local diz o que esse brilho todo é coisa da fé, que ela é que faz o azul mais profundo e mais cintilante. Só que aqui não tem religião. Parece que quando falam de fé, falam da enxergar no fundo de cada uma das gentes o desenho acabado do rascunho que elas são e, depois, de ver nos desenhos de todas as gentes um quadro que ainda não foi pintado. Já ao contentamento que amanhece preenchendo os espíritos daqui chamam de outra coisa: lucidez. A temperatura, gostosa, atribuem à fumacinha das nossas cabeças, que não param de procurar, investigar, entender. São essas as teorias para o tempo daqui – exceto nas poucas vezes quando está chovendo.

Não que muita gente saiba, porque aqui é terra de poucos habitantes e raros turistas – o consulado é encrenqueiro e não dá visto para qualquer um. Exigente, não quer saber de boas pessoas, mas de boas almas. As severas políticas para concessão de visto são um olhar seguido de “bem-vindo, entre e fique quanto quiser” ou um “venha quando puder, estaremos aqui”, porque as boas almas se reconhecem. Como se reconhecem, se cultivam, em sinceras – e incontáveis, porque nenhuma delas cuidou de contar a primeira – recíprocas.

Mesmo sem revistar ninguém, a alfândega daqui sabe que cada alma traz uma biblioteca na bagagem. É que está na constituição do meu mundo uma letra escrita há muito tempo. Ela diz que cada alma é uma biblioteca. Como já sabemos isso de saída, tratamos de praticar um câmbio justo, pagando afeto, imaginação e curiosidade a preço de face. Os que também trazem do mundão sensibilidade ganham com o ágio. Trata-se de artigo raro naquelas bandas, apesar de sua fácil autenticação no lampejo dos olhos. Assim, a economia também garante um céu de brigadeiro.

Acontece que bibliotecas teimam em fechar. Algumas vezes com aviso, na maioria, sem. Aí meu mundo fica mais pobre e o céu deixa de ser de brigadeiro. Porque aqui os céus se dobram às bibliotecas que se fecham. Porque aqui os céus choram pela biblioteca que também era um cachorro. Chove no meu mundo.

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2 Comentários on "No Meu Mundo"

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