Descartável

Hoje, dia 28 de agosto do ano 2000, escrevo para vocês, daqui da minha escrivaninha, essas palavras que vos mostro agora.

Com esta caneta BIC, sobre esta folha de papel (que logo se transformará em bits e bytes) eu peço a atenção de quem descartou alguns minutos do seu dia para ler o que escrevo. Escrevo sobre a fugacidade, sobre a substituição. O descartável; o próximo.Ninguém tem tempo. Tempo para almoço. Não perca tempo; coma qualquer coisa, um lanche rápido, fast food. Comida descartável!

O trabalho. Ah………o trabalho…………e depois o café; em um copo plástico – é claro. Se você trabalha, diga com que tipo de roupa; se não, diga adeus ao seu emprego – você foi apenas mais um copinho de café. Se trabalha social tem que seguir algumas regras, e que por vezes são efêmeras, se vai esportivo ou à vontade, também; pois a moda é cruel. Se tem um estilo, siga-o mais vai durar pouco.

Lá fora os carros. Novos a cada dia, a cada dia mais carros. Computadores a cada segundo e de segundo em segundo ninguém mais é o primeiro.

Meus sapatos estão “velhos” e eu os jogo fora. Mais barato que conservar é comprar. Quem tem tempo para aquilo? Isto é muito mais fácil. Pois é o tempo que nos têm.

Descartáveis são as coisas, os brinquedos, os automóveis, os aparelhos eletrônicos, as bicicletas, os relógios, as roupas, as crianças e os velhos, as alegrias e as bênçãos; descartáveis são as pessoas. Ninguém, realmente, deseja bom dia ou pergunta se você quer ajuda – com a vontade de quem quer ajudar. As pessoas não se olham, não se abraçam. Não existe sorriso, não existe choro, existem máscaras. Um dia você a usa, no outro, joga-a fora. As pessoas não se beijam com o desejo de estar com a outra, beijam por diversão, por ambição, por mera pulsão sexual.

O que eu imaginei, um dia, derrete-se como açúcar nas chuvas ácidas que enchem os reservatórios de água. Ninguém tem tempo para ninguém. Somos descartáveis, com sorrisos descartáveis e roupas descartáveis. Somos, todos, descartáveis!

A caneta ainda dura, mas não sei se vou vê-la novamente. De tudo, o que fica são as palavras. As palavras e os pensamentos.

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