Ilusões

Todo dia eu desço pelo mesmo lado da cama e abro o armário, as gavetas. Procuro algo para me vestir, algo que me aqueça e que seja legal ou que “orne” com as cores que pretendo vestir. Minha avó que gosta de “ornar” as coisas, se não fica feio – diz, ela.

Depois de passar pelo banheiro em uma higiene demorada, eu almoço (vejo TV ao mesmo tempo) e vou trabalhar. É preciso estagiar para que seu futuro seja promissor, afinal, ninguém; nenhuma empresa aceita alguém sem alguma experiência. Cada dia que passa é um dia a mais de experiência, é um passo a mais para um emprego, para o sucesso.

Por fim, ainda tenho que ir para a faculdade, local onde posso passar um tempo conversando com meus amigos e obtendo o conhecimento necessário para que eu possa realizar-me profissionalmente. Grandes mestres que ali estão, propiciam a troca de conhecimentos entre as pessoas. Pessoas que pertencem á sociedade tal qual ela é constituída, tal qual ela é escrita no papel. Tola tese de estudiosos! As pessoas são livres, segundo estes; segundo a Constituição. Não segundo elas mesmas. À estas não é dado o direito de escolha, o que se resumiria ao direito de pensar. Liberdade de pensar.
Liberdade de agir.

Sou eu, um cidadão; e isso me torna menos livre. Eu não quero aturar empregos chatos – denominados estágios – , eu não quero ter que ser julgado pelo número de anúncios que já fiz ou de prêmios que já ganhei. Eu não quero ter que ser bom em design ou criação, em marketing ou administração.
Eu não quero.

Por que eu acordo todo dia e já penso no dia seguinte, no mês seguinte? Onde estarei daqui há um ano? Por que esta ânsia em estagiar, em trabalhar? Por que essa gana em ser o melhor, o mais qualificado para trabalhar naquela empresa, ou naquela outra.

Sou eu, um cidadão; e isso me torna menos livre. Liberdade dos tolos, liberdade dos teóricos, liberdade do contrato social. Essa, eu não quero, obrigado!

Eu quero a Liberdade desvinculada da sociedade e seus vícios, a Liberdade desvinculada do dinheiro, do sucesso, do trabalho. Quero a Liberdade de escolher o que eu quero e exercitá-la sem precisar me dar conta disto. Abaixo o consumismo, as marcas, as ilusões, eu quero a minha Liberdade, a sua Liberdade, a nossa. Quero acordar cada dia de um jeito, me lavar a hora que eu quiser, se eu quiser e não me importar com o que os teóricos dizem, ou os costumes. Trabalhar com vontade até a hora que eu puder, oito, doze, quantas horas eu agüentar e ainda assim, fazê-lo com prazer. Não quero ser julgado pela minha habilidade de criar, quero ser identificado pela pessoa que sou. Quero o amor e o desgosto, a felicidade e a dor; desvinculados. Quero ser e estar; pensar cada instante presente, não futuro. Quero viver!

Sou eu, um cidadão; e isso me torna menos livre.
Sou eu, um cidadão, escravo de mim mesmo.

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