AGORA

Droga, droga, droga……..droga tudo isso – dizia Rafael.

– Eu não consigo sair, droga, droga, droga. Como? Como eu posso…?Não..!!! (balançando a cabeça)

– Tem que ter um jeito! Não é possível! Como eu entrei aqui!?? Eu não queria!!!

Suas pálpebras apertavam-se contra os olhos na intenção de esmagá-los. Seus olhos sangravam lágrimas doces de desespero e aflição.

– Nunca mais, nunca mais. As pessoas é que são as culpadas, eu, você…..ele também…..somos todos culpados – apontando para o nada.

– Quem vem lá? Não consigo ver.

– Ei! Espere, volte aqui…….me a – j – u – d – e ………( caindo sobre seus joelhos avermelhados do tempo)

Sozinho. Inconsolável. Rafael seguia apertando os olhos como se temesse algo que estaria por vir. A impressão era de dor, mas não a dor de um soco ou de uma facada, uma dor imensa, uma dor espiritual. Suas mãos tremiam. O frio aumentava. Espasmos de loucura paradoxalmente o libertavam; e em um berro ele dizia:

– Onde está você??? Porque????? Porque eu????

Subitamente o silêncio voltava. O silêncio ensurdecedor, o zunido agudo que percorre nossos ouvidos quando estamos sós. Aquilo era um tormento infernal, ninguém poderia sobreviver àquilo, às vezes me parecia que seus berros eram o silêncio e a paz que ele podia ter em míseros segundos longe do barulho do silêncio que preenchia todo o lugar.

Sua angústia era marcante, não conseguia pronunciar uma palavra sem que seus olhos vertessem toda a sua dor. Era incompreensível para mim. Toda aquela dor! Num instante eu o conheci, feliz, contente com o mundo, amado, disposto, saudável. Pouco tempo depois chegou aqui onde estamos e não tive escolha: tive que vir com ele, não podia deixá-lo assim. Sozinho.

– Me larga!!! Me deixa ir!!!! Eu quero, mas me deixa ir!!! Eu preciso, eles precisam de mim……..me deixa!!!!

Sua voz já se esgotava de tanto brigar contra o silêncio. Uma batalha inglória! Seus dedos estavam congelados pelo frio, o silêncio e a escuridão o colocavam sob um único foco de luz. Minha lanterna. Eu me sentia o último dos homens pois não conseguia entendê-lo e muito menos ajudá-lo, eu apenas o confortava abraçando-o e compartilhando daquela dor cruel que invadia a alma.

Talvez a dor fosse tanta que fosse inevitável a chegada da loucura. A insanidade atropelou Rafael. Indefeso e fraco, não pôde seguir eloqüente. Não gritava mais. Sussurrava canções ao pé do ouvido do escuro, desenhava no ar.

– Quero KH mas não posso!!!!! Quero KH mas não posso!!!!!………Soda limonada pra KH de madrugada…… Ipiaeeeeeeiiiiiiiiii…….Ipiaoooouuuuu…caaaavaaaaaleeeeiiiiros do céééééu…….

E o tempo não dava trégua à nós dois, seguia tímido segundo à segundo sem hora pra voltar. E que não voltasse mesmo!

– Pára, pára……pelo amor de Deus!!! Me liberta, me aceita, qualquer coisa!!!! Fala comigo….pelo amor que você tem à Deus, me diz alguma coisa………..

Eu sabia o quanto era difícil para ele dizer aquelas palavras. Sempre fora um agnóstico de marca maior, católico de batismo, mas nunca religioso. Crédulo, muito menos. As coisas tinham que estar ali na sua frente caso contrário não existiam e agora ele se curvava clamando por um Deus que ele nunca acreditara, não como diziam as religiões. Curvado, clemente, humilhado, já não se prendia à pouca dignidade que lhe restava, queria apenas uma resposta, uma única. Cruel aquele que não respondia. Não sabia a dor que causava e agora nesse momento eu penso que mesmo se soubesse não teria sentimentos o suficiente para estender a mão e responder. Rafael ficou abandonado ao meu lado, sob a luz de minha lanterna.

E eu? Eu fiquei bem ali. Observando a dor do mundo sem nada poder fazer, inútil e indefeso diante da impossibilidade de ajudar, mas fiquei! Fiquei ali, eu e minha consciência. Um tentando confortar e o outro tentando se encontrar.

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