O cheiro da manhã

Crisântemo! Era esse o cheiro que exalava aquela manhã. O nevoeiro se espalhava por toda a rua. O dia ia ser ensolarado, mas às 4:00 da manhã nem o primeiro raio de sol atreveu-se a cortar o céu. Era penumbra, gélida e afiada. O vento? Não te conto do vento porque me dá calafrios; só de pensar! O silêncio era rajada de fogo contra os ouvidos de um único transeunte que, comigo, compartilhava aquela noite, manhã, fosse o que fosse. Seus passos eram lentos e contínuos, porém indecisos. Eu caminhava na mesma direção dele, e ele; parecia não me notar e seguia sem se distanciar muito. A distância era grande mas eu podia ouvir sua respiração pulsante e o vapor que se condensava no ar, denso, úmido, era quase impossível não perceber a força que tinha que fazer pra atravessar o ar que segurava meu corpo e puxava para baixo. Não, não ia me ajoelhar diante desta força. Precisava continuar. Seguir em frente. Precisava de determinação! Parei. Parei e fiquei escutando o oco som das passadas tímidas que iam.

Inspiração ………. expiração ………. Inspiração ………. expiração ………. Inspiração ………………. . O silêncio.

Nada mais tocava, nada mais fazia barulho. Apenas o silêncio.

Um gato! De repente, um gato. Atravessou o bloco de ar que existia entre as calçadas e sumiu. Na rua deserta e gelada, bem ao longe, onde já não se enxegava mais, um som. Passos fracos vinham em minha direção. Levantei. O som aumentava a cada passo, descompasso. Minha ansiedade crescia na exata proporção da proximidade do som. Com as mãos congeladas tentava desfazer a serração que havia, porém em vão. Era como o exército desembarcado na costa da Normandia, o chão tremia todo. Eu sentia a fúria divina chegando para me buscar, a força que nunca descansa, não dá trégua.

Um ESTRONDO …………………. ops, não fui eu! Droga! Já disse que não fui eu!

Eu corria, corria muito. Os passos ficavam cada vez mais fortes, não conseguia dizer quantos eram. Eram muitos. Corri, corri muito. Não descansei até que os passos ficassem longe, muito longe. Foi a minha maior e mais rápida corrida. Nunca olhei para trás. Nunca soube o que eram, nem quantos. Nunca saberei. Sei que aquela manhã já não cheirava crisântemos.

Droga, já disse que não fui eu!

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