O Dia em que Zé troca-tapa entortou o repórter

Na pequena cidade de Itaberaba, em 1956, nasceu a criatura mais formosa e meiga que já habitara aquela terra. Seu nome: José Raimundo dos Santos, o Zé. Cresceu sob o estigma da beleza e bondade, ia sempre à escola, nunca faltava (sua mãe não permitia). Era o melhor aluno, o mais bonzinho, fazia de tudo para atender os desejos de sua mãe, afinal; tuberculosa e raquítica, ela não aguentaria muito tempo. Porém não suportou muito tempo o estigma da bondade e delicadeza. Tornou-se um grande jogador de futebol e foi para a cidade grande. Como jogava! Em pouco tempo tornou-se um dos maiores jogadores do país. Driblador! Ágil, daqueles que quando pegam a bola e olham o gol, ninguém segura. Contudo, Zé era uma espoleta, se alguém conseguisse pará-lo era briga na certa. Foi assim que o Zé virou o Zé troca-tapa. Tinha jogos que ele não chegava nem na metade do primeiro tempo, mas não foi bem assim naquele domingo de 1981.

Brumadinho contra Taboiã, o clássico nacional mais importante. Zé troca-tapa entrou em campo com a vontade de acabar com o jogo, só sair de lá com a artilharia e o título em baixo do braço. A concentração era total, não podia se deixar irritar como nos outros 17 jogos em que fora expulso.

O juiz deu o início da partida. Zé troca-tapa saiu com a bola pela intermediária. Abriu pela ponta, tocou pro Batuca que lançou o Washington. Washington dominou e tocou pro Zé troca-tapa na área. Driblou um, dois, e perdeu a bola.
O jogo era bom, emocionante. Zé troca-tapa estava acabando com o jogo, fazia todas as jogadas, lançava, cabeçeava, cobrava falta, o Taboiã parecia o time de um homem só. O time adversário corria atrás do homem do jogo, mas só conseguiam pará-lo com faltas. Faltas viloentas. O Zé conseguiu “amarelar” metade do time do Brumadinho, faltava apenas o gol que o consagraria como o maior jogador de todos os tempos. Foi então que Zé troca-tapa recebeu a bola na linha do grande círculo. Dominou; com uma ginga de corpo deixou dois volantes, de umja só vez, para trás. Avançou pela direita tabelando com a canela do adversário, passou por mais um. Cortou pra dentro e ficou de frente pro gol.

Lá de trás, acompanhando a jogada estava o meia armador do Brumadinho. Corria desesperado em direção ao Zé troca-tapa. Quando Zé parou de frente pro gol, o Balú (era esse o nome do desesperado armador do time adversário) pulou em uma tesoura voadora e foi chegando por trás, derrubando o Zé na altura do joelho. O público ficou emudecido. Era briga na certa. Era briga da grande, foi a entrada mais violenta do campeonato, quase um crime. Depois da dor, Zé troca-tapa levantou, parecia furioso. Caminhou na direção do Balú e levantou o braço em um movimento lento e plástico. Acertou a cabeça do adversário com um …………………. afago, e acariciou-o em um perdão revoltante. Como podia? O cara ficou quase aleijado! Por muito menos já tinha derrubado meia dúzia, porquê? A torcida ficou sem palavras, até o momento em que o jogo reiniciou e num chute assombroso o Brumadinho marcou o gol da derrota de Zé troca-tapa. O mundo caíra …………. Ninguém poderia imaginar………………

Na saída do campo, foi que tudo aconteceu. O repórter de campo, Dornelles da Veiga, foi perguntar, justamente, para o Zé, o porque da derrota e se havia alguma mágoa do jogador que tinha agredido ele. Bufando, e nitidamente cansado, o atleta mais furioso da história virou-se para o repórter, que encolhido esperava o pior. Zé troca-tapa encheu o peito e começou: ” A nossa equipe foi muito aguerrida no que tange a parte tática, contudo técnicamente fomos muito aquém do que se espera de uma equipe que costuma entorpecer os seus torcedores. Paradoxalmente, alguns componentes do time tiveram um bom desempenho, o que em teoria poderia ser o suficiente, mas não o foi. Como a única coisa que realmente vale na teoria é o dinheiro, já que é apenas um papel do qual o valor advém da imaginação das pessoas, a nossa equipe foi inocente e se deixou levar assim como Anaximandres, que acabou derrotado. Permita-me, ainda, fazer uma exegese assodada à respeito do meu concolega Balú: não teve ele a pretensão de me causar mau, pois nem todo ser é mau como dizia Maquiavel. Balú foi, somente, mais uma vítima da pulsão que jorra em nosso ser e não soube controlá-la, perdoem-no. Obrigado” . E saiu para o vestiário como acontece em um jogo qualquer. Dornelles ficou parado pensando ….. pensando ….. pensando ….. pensando ….

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