Um papo conceitual

No canto esquerdo da cidade, em uma rua qualquer …

– Então Manuel, você viu o show do “bichinha” ?
– Que é isso Tanaka, que preconceito besta …
– Que é que tem o preconceito?
– E porque o show do “bichinha”?
– Meu! Eu tenho preconceitos sim: qual o problema com isso?Todos Têm.
Manuel responde rapidamente:
– Eu não, desculpa mas eu não tenho.
– Como você não tem preconceitos? Você viveu isolado da sociedade desde que nasceu?
– Não, mas me descuple: eu não tenho!
– Tudo bem que você não seja preconceituoso, mas que tem, tem! Uma coisa é ter e saber que tem. Outra é ter, achar que não tem e confundir o “ter” com o “ser”, entende?
– Não. Como pode ter “neguinho” que tem preconceito e não é preconceituoso?
– Olha só? Tá vendo?
– Tá vendo o quê?
– Deixa pra lá, você não vai entender Manuel.
– Não, agora eu quero entender. Vamos só …….. atravessar a rua, porque tem uns caras suspeitos ali.
– Viu só? Estar mau vestido, não quer dizer que ele vai te roubar.
– Mas…..mas….. ah, vai … isso não é preconceito, fica aí me encucando. Eu tenho vários amigos “negões”, “japas” e até gays, como posso ter preconceito?
– Viu só?
– O quê?
– “Negrão”, “japa”, é assim que acontece. É melhor você aceitar que tem e viver com isso do que ficar se iludindo que não tem preconceitos e que é politicamente correto.
– Não entendo! Pra mim, ser politicamente correto é o correto.
– Então, Manuel. Se é politicamente correto é o conceito e não o pré-conceito.
– Não sei, não tô entendendo muito bem….
– Pô Manuel, tu é burro mesmo. Vou explicar mais uma vez.
Por exemplo: quando você fala que mulher não sabe dirigir, que quem está com muita fome acabou de chegar do Ceará, que a combinação de roupa de fulana é “puta baianada”, tudo isso são conceitos que vêem da sociedade e se instalam na sua cabeça de tal forma que você acaba não percebendo; tornam-se seus conceitos sobre esses assuntos, sem que você se dê conta. Se você tomá-los como verdadeiros, aí então passará a SER preconceituoso, mas eles sempre existirão nas nossas cabeças, não adianta querer ser idealista ou politicamente correto. É besteira. Quase impossível. O que se pode fazer é reconhecer que você TEM pré-conceitos e tentar não utilizá-los como verdades.Fui claro?
– Tanaka! Que papo de “playboy” que não tem o que fazer!
– É, já vi que, de tudo o que eu falei você só entendeu o seu nome. Tudo bem Manuel, eu conheço sua família, sei da sua história, não tem problema. Vamos ali na esquina tomar um café.

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