ELA

Ela era linda! Seu perfume invadia o corredor por onde passava. Todos notavam. Todos sentiam. Olhar para ela ativava os hormônios, os sentidos!

De longe, era a mais graciosa e elegante figura que já se viu na 8ª série. Morena, olhos castanhos como duas pedras de bálsamo inglês. Nunca vi um bálsamo inglês, mas deve ser lindo! Seu cabelo sedoso. Cheiroso.
Eu, um pobre coitado. Mal cabia nas minhas próprias roupas. Coisa de adolescente que cresce mais rápido que o tempo livre para as compras. Era um sujeito comum. Tomava banho todo dia e ia pra escola, mas o perfume dela era mais forte. Não havia quem não notasse. Se por acaso deixasse cair o lápis …….. Todos em um só movimento. Abaixavam e pegavam o pobre coitado do lápis. O lápis dela!

De certo, muitas notas foram diminuídas pela falta de atenção na aula. Era impossível olhar para a lousa. Não havia matemática, português, nem educação artística que desse conta de intererssar aos caras como nós. E se ela sentasse na sua frente?! É ……… na minha frente! Eu bem que me esforçava nos estudos. Mas era covardia. Imagine como acelerava o meu coração só de ouvir sua voz se dirigindo a minha pessoa – carinhosamente. Pedindo a borracha empresatada. Borracha é uma coisa que tem um valor muito pequeno quando se é jovem, serve mais para munição nas guerrinhas de sala de aula. Mas eu tinha muitas. Tinha tantas quanto ela precisasse. Imagina se eu ia deixá-la sem a borracha?! Nem pensar. Ela era minha inspiração diária. Era ela que me fazia ir à escola. Ela era a minha “garotinha ruiva” !!!!!!!!!

É. Mas o dia mais triste da minha vida foi quando ela me convidou para sair. VOCÊ PODE IMAGI………… calma. Ela-me-convidou-pra-sair! Você sabe o que é isso para um garoto de 14 anos? Tirando a gagueira e os cinco minutos de mudez posteriores, acho que eu acabei aceitando, dizendo sim ou coisa parecida. Não lembro. Sei que no outro dia estávamos nós tomando um sorvete ………… olhando as estrelas ……… É, olhando as estrelas (a sorveteria tinha teto sim. Não estrague o momento!)! Olhando as estrelas ………… estava tudo indo muito bem, nem podia acreditar. Eu estava fazendo tudo certinho. conversamos um pouco para tentar nos conhecermos. Modo de dizer. Eu conhecia cada parte do corpo dela. Cada perfume que ela usava. O cheiro do cabelo. As roupas que ela usava. Era a garota perfeita.

Mostrei as constelações da Ursa Maior, as Três Marias, a estrela de Belém. Contei para ela todas as histórias que eu conhecia até que cheguei na lua ( modo de dizer). A lua é o ponto estratégico de todo encontro romântico. Não é à toa que é a madrinha dos enamorados. Aquele ponto brilhante no céu exerce um fascínio milenar sobre nós que chega à beira do inexplicável. Ia ser na lua que eu finalmente tentaria algo inédito no mundo. Falei nas sombras do coelho e no lado negro da lua. Contei todo o folclore de São Jorge e o dragão. Atenta a todos os detalhes, ela olhava fixamente para o satélite. Era esse o momento. Minhas pernas tremiam. Fui me aproximando como quem não quer nada. Meu braço já estava abraçando todo aquele corpo de mulher. Fui em direção a sua lânguida boca. Úmida. Entreaberta. Foi quando ela deixou de olhar para cima e virou em minha direção. Olhou-me nos olhos. Era o meu momento. O que procurei por anos. O momento que só havia nos filmes, ou nos livros. Quando minha boca aproximou-se da boca da mais perfeita garota da escola, ela sussurrou:

– Você acha que algum dia ……………………………………. São Jorge vai voltar para a Terra?

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2 Comentários on "ELA"

  • paulo diz

    Quem mandou idealizar? Deu no que deu! Mandou bem, mamute.

  • Rafael diz

    É …. parece que todos no site estão nesta fase: meninas daquela época….. hehehe

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