Cadeira de plástico

Da janela do carro dava pra ver aquele monte de gente que corria lá fora. Meu pai sempre me mandando sentar e eu queria era ficar em pé pra ver as pessoas passando. Aquele tanto de gente que pra mim não combinava: não achava nenhuma igual a outra.

No caminho de casa sempre tinha um monte de moleque que ficava jogando bola na rua a tarde toda. Só um menino é que ficava sentado em uma cadeirinha surrada. De plástico com pés enferrujados, já estava pela hora de trocar. O menino, sentado, só ficava olhando para a lombada eletrônica. Toda vez que a gente passava por lá havia muita molecada na rua e o menino da cadeira. Não dava pra entender. Todo mundo brincando e o menino lá, parado, olhando para a lombada. O papai passava e, de novo, só no outro dia. Fiz isso muitas vezes. Subia no banco de trás do carro só pra ver o menino da lombada eletrônica.

Foi até engraçado quando eu levei uma multa na lombada dele. Era época de Copa e eu já estava na faculdade, atrasado para a aula. O relógio não havia despertado e saí correndo de casa. Quando passei por ele eu tomei um susto. Chapéu verde e amarelo, todo decorado com uma bandeirinha na mão. Foi inevitável, não lembrei da lombada e pronto! Sete pontos na carteira. Depois disso eu acho que nunca mais vi o cara da lombada de outro jeito que não aquele mesmo de quando eu levantava no banco de trás do carro do meu pai.

Sempre lá, parado, olhando a lombada eletrônica. Ele foi ficando, ficando, de menino ficou moço e na mesma cadeira de plástico surrada e já meio enviesada pelo tempo, ele foi ficando. Como uma pessoa deixa a vida passar por entre os dedos apenas olhando uma lombada eletrônica? Eu já pensava mil coisas. Fantasiava que devia ser alguma doença ou paralisia, essas coisas (a gente sempre imagina desgraça). Mas foi um dia, voltando do trabalho, que eu fui abordado pela vizinha. Dona Joana. Vocês não são capazes de acreditar nesta senhora. Tudo ela sabia, pai do avô da irmã da prima do dono do bar da esquina: ela conhecia. Foi Dona Joana quem me disse que o homem da lombada era perfeitamente normal e se chamava Ovídio, mas não soube me dizer se ele tinha família. Engraçado, sempre quando a gente se sente só logo pensa na família, mesmo que você não esteja só, pode ser um simples sentimento passageiro de solidão.

Muitas vezes, ainda, eu voltei do trabalho e olhei para o Ovídio. Sentado. Depois de anos eu havia descoberto o nome daquele menino que não jogava bola nem brincava com as outras crianças. Eu me sentia íntimo daquela pessoa. Pra mim, era o “Vidinho da lombada”. E parece que o apelido pegou, muita gente conhecia o Ovídio por “Vidinho da lombada”, chegou até a ser ponto de referência da rua.

Quando eu era uma criança eu ainda não conseguia atinar direito com as coisas, mas agora, homem feito, eu me perguntava sobre a vida do Vidinho e passei a me inquerir sobre isso e ocupar grande parte do meu dia no trabalho tentando imaginar qual seria a profissão, ou até se tinha estudado como os outro garotos. Cheguei a sentir muita pena do pobre coitado que passou a vida inteira em uma cadeira velha que mal conseguia segurar o peso dos anos que tinha e continha naquele vai e vem da rua, sempre olhando para a lombada eletrônica com o mesmo olhar de menino que sempre teve. Como um homem pode passar a vida toda preso a uma rotina diária de eventos sem importância e deixar de viver a aproveitar um dia de sol, um domingo no parque? O meu sentimento de culpa foi crescendo já que eu podia há muito, ter parado, conversado, tentado entender e nunca o fizera. Será que o Vidinho tinha amigos? Eu precisava fazer alguma coisa com aquele bolo de angústia que subia a garganta e pressionava meus olhos até lacrimejarem de raiva. Peguei as chaves do carro, desliguei o computador, desci o elevador até a garagem e saí.

No caminho eu refletia sobre as chances que eu reprimi e as vezes que eu quis falar e não falei. Lá mais na frente estava o posto e depois do posto a lombada eletrônica. Eu podia jurar que tudo iria mudar na minha vida e na dele também. Era uma dessas coisas de pressentimento ou coisa que o valha.

Contornei o posto e lentamente foi surgindo a cadeira enferrujada, toda rota e desmantelada. Vazia. Passei reto pela lombada e segui em frente. Minha vida também havia passado.

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7 Comentários on "Cadeira de plástico"

  • Gabis diz

    plástico enferruja?

  • Rafael diz

    Pois é, retórica poética. Aposto que vc conhece uma certa cadeira de plástico que enferrujou um dia.

  • anninha diz

    AMEI, Rafa! Está MUUUUIIIITO boa! Perfeita! Sensível! Reflexiva! Apaixonante.

    Belíssimo texto.

  • Plínio Volponi diz

    E emocionante! De tocar no fundo da alma!

  • Gabis diz

    De tocar almas de plástico! Afinal, as almas também enferrujam!

  • anninha diz

    E como enferrujam… :(

  • Renata diz

    achei ótima a crônica, pois eu estou procurando informações sobre o costume de ficar na porta de casa ou olhando pela janela, costume provinciano, q pude observar historicamente em Tiradentes-MG na secretaria de cultura e turismo, onde antigamente era uma senzala, dois bancos de cimento do lado de dentro da casa encostado na janela de forma q a pessoa sentava lá e via todos passarem pela rua e comentava algo q quem estivesse no outro banco da janela, se vc puder me ajudar estou fazendo uma pesquisa sobre isso e preciso de informações registradas de alguma forma, jornal etc.

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