Filosodia

Estou cansado.
Acordar para que? O sono dos bons é o sono dos ignorantes. Se pudesse, gostaria de não saber o que sei. Não se pode viver com isso na cabeça e achar que o mundo é uma obra divina. Obra do demônio. Saber é sofrer.

Olho e vejo todos eles. Prepotentes ao ponto de julgarem-se criadores da vida. Narcisismo arretado. Tão pequenos e tão vaidosos. Que brutalidades já foram cometidas em nome da vaidade!

Não cabem em si de curiosidade. De onde viemos, para onde vamos, quem somos. Não se contentam em ter na resignação, um fator de resolução. Simplesmente existir. Ser matéria, só. Espírito que invade as crédulas cabecinhas. Cabecinhas de todos nós, pois não há quem aposte no ceticismo eterno.

Estou feio.

No espelho não me vejo. Nunca me verei, nem eu e nem você. A refletida verdade. Quem precisa da verdade? Mesmo que quisesse, não me faria como Narciso. Ser aquela coisa diante de mim no espelho do banheiro? Sou mais que espelho. Sou eu mesmo; e só eu sei disso ….

Estou com fome.

Doce pretensão de ser o que não se vê. Ser muito mais do que se vê. Para os outros somos aquilo que os outros vêem, ouvem, sentem. Meu hálito está horrível. Carnívoro. Restos de animais mortos entre os dentes, porque não haveria de feder o odor da morte? Animais que somos e hipócritas que somos, encontramos uma fenda nas teorias para dizer que somos, sim; mas racionais. Ovos com bacon. Quem come essa droga de manhã?

Preciso trabalhar.

“O trabalho enobrece o homem” coisa nenhuma! Se for verdade, que eu morra servo das minhas próprias convicções.

Estou sujo.

Depois de um dia de pensamentos vazios e meras execuções de tarefas robotizadas, o batismo da consciência. No Jordão, abro a torneira. Sinto o poder da água. Limpa. Fecho o registro e os olhos. Fazer por fazer sem, simplesmente, questionar nada. Não somos responsáveis pelos outros e por isso deixamos todos pra trás. Eles que corram e nos alcancem! Quero saber do meu prato de comida, da minha roupa e do meu teto. Animais racionais que somos.

Estou cansado.

Deitado no sofá, seu braço me incomoda. Estou confortável, mas não consigo dormir. Cessa o batismo do fim do dia e a consciência volta como ave de rapina em uma investida contundente, transformada em um simples braço de sofá. Estou cansado e não consigo dormir porque sei que vou acordar.

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3 Comentários on "Filosodia"

  • Carla diz

    Esta, sem dúvida, foi a melhor crônica que já li, a que mais me tocou. Eu a

    li 3 vezes e em cada uma, me vinham sentimentos e sensações diferentes, que

    se somavam. Rafa, vc escreveu divinamente; poucas pessoas tem o dom de colocar em palavras, e de forma tão tocante, seus sentimentos, suas criticas, indignações, enfim, suas percepções sobre a realidade.

    Parabéns!!!

  • Rafael diz

    Pois é. Esse sou eu. Modesto assim, hehehe. Muito obrigado pelo elogio, valeu!

  • DUDI RAMONE diz

    Cara, na boa, esse texto parece que é uma descrição do que eu sinto, muito legal, expressa muito bem os sentimentos!!!

    Parabéns!

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