Reminiscências de uma estadia

Sempre vesti azul. Nunca fui robusto, mas me contentava com o meu tipo físico. Às vezes me perguntavam porque eu sempre estava com aquela roupa. Na verdade era a Aninha – ô menina curiosa!. Eu usava aquela roupa porque era dela que eu mais gostava. Quando você gosta de alguma roupa, você costuma usá-la; pois é assim que as coisas são. Eu já nem dava muita conta desses comentários da Aninha, achava natural da idadezinha dela. Sempre me atazanando a vida. Mas era a minha única compania nas tardes tenras da semana! A solidão não é coisa pra se brincar. Duro ter que esperar as pessoas virem conversar com você; dias, às vezes meses para receber uma palavra de agrado. Penso que elas ficam encabuladas, constrangidas de expressarem seus sentimentos. É, mas a verdade precisa ser dita: elas conversam com as plantas, é tem pessoas que conversam com plantas. Porque não conversam comigo?

De vez em quando eu fico aqui parado esperando os problemas passarem, finjo de morto, fico imóvel só pra ninguém me notar. Quieto. A brincadeira não dura muito pois as cigarras adoram azucrinar a gente. Não se pode ficar no capim da dona Márcia que as cigarras começam a se engraçar, isso quando não são os besouros a querer atenção! Dona Márcia é boa gente, cuida de mim como se fosse uma mãe mesmo. Vou sentir muita falta desse lugar, desse meu cantinho. A grama que o seu Marco plantou na terra fofa do jardim! Dizem que foi até Itajubá buscar a grama mais forte e verde de todo o Estado. Cresceu que é uma beleza! Também, com o sol que faz por aqui ….

De verdade: o que mais eu sentirei falta é da minha querida e idolatrada. Morando na mesma quadra, um de frente pro outro e eu nunca pude vê-la por inteiro. Toda vez que o vento sopra em direção leste, seus cabelos brilham como tâmaras silvestres parecendo responder ao canto incessante de Éolo. Vejo seus cachos, redondos à perfeição, acenarem para mim como se soubessem que nunca poderei vê-la por inteiro. Pra mim é o suficiente. O que mais poderia querer um sujeito como eu, que nunca nem troca de roupa e fica parado feito besta a olhar os cabelos alheios? Seu Marcos diz que o vizinho precisa cortar aquelas unhas-de-gato pra dar mais claridade e eu sempre apóio, mas ninguém me ouve. Se ouve, faz que não entende.

O caminhão chegou. Não fez questão de prudência, deu um solavanco e parou. O motorista desceu do baú como se corresse atrás de um prato de comida, num instante abriu cadeado, trava e porta. Agora é pra sempre!

– Aninha! Pegou tudo?
– Claro mamãe, peguei todas as minhas coisinhas.
– E o anão lá no jardim?

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5 Comentários on "Reminiscências de uma estadia"

  • Anninha diz

    Amei!!!

    Não tem nem comentário. Ficou show! Mto boa mesmo! Parabéns!

    Aliás, tb adorei a personagem que conversava com o pequeno… *rs*

    Bjo

  • Ricardo diz

    Mamute,

    Parabens pelo texto e pela linguagem. Parece ate que baixou o Sallinger por ai … hehehe

    Muito legal mesmo!

  • Carla diz

    Rafa,

    Você me surpreende a cada crônica!!!!

    Parabéns!!!Mil Beijinhos

  • Sallinger total mesmo. O rapaz está fazendo terapia? :p

  • Maria Vani diz

    Ainda que eu não tenha a “idadezinha” da Aninha costumo conversar com alguns objetos e apetrechos…talvez algum dia eu leia por ai as memórias de um deles.

    Neste instante Rafael, não sei se sou eu quem faz companhia a tua crônica, ou se ela, tão peculiar, que conversa comigo nesta noite macia!
    …e outra vez oubrigada!!!

    Abraço

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