A sorte de Maciel

A vida nos prega peças, não!

Maciel era um rapaz magro e baixinho. Sempre fora assim, desde que percebeu que era gente, nunca crescera. O mundo era muito grande! – dizia toda vez que comentavam sua altura. Cabelo curto e penteado, Maciel era um ser único. Filho de pais muito velhos, logo cedo aprendeu que era ele quem cuidava dos pais. Sujeito puro, amável, Maciel adorava contar histórias para seus pais, sempre no cair da tarde. Tudo da sua cabeça, jamais havia ouvido uma história. Seus pais, Dona graça e seu Manel, eram muito velhinhos, nem se lembravam de como era ser criança. Criança que é criança, um dia cresce. Maciel, não; era baixinho. Também, “o mundo era muita grande!”.

A criança não cresceu, mas o curso natural da vida se fez! Desolado, sem familiares, Maciel não sabia o que fazer. Ele não sabia como viver sem ter pra quem esquentar o café de manhã, sem ter pra quem fazer a cama ou lavar barra da calça. Maciel estava só.

E no campo, quando se está só, é hora de ir ganhar a vida na cidade grande. Era assim que seu Manel falava. A inocência foi à cidade, curioso, Maciel aproveitou a multidão – nunca tinha visto tanta gente junta, devia ter umas 10 pessoas – e subiu naquele troço engraçado que mais parecia uma carroça sem cavalo. Aquele troço balança mais que cavalo chucro. Foi em um desses balanços que Maciel percebeu um homem sentado com cara de mau. Não que Maciel achasse que o homem ali parado fosse realmente mau, mesmo porque ele não sabia o que era esse tal de mau – só ouvira falar nisso uma vez que sua mãe leu a bíblia pra ele dormir – mas parecia descontente com alguma coisa. Maceil sempre aprendera a amar os homens, acreditar na palavra deles, muito da sua credulidade vinha de dona Graça, carola de nascença.

Aquele mundo de gente passando pelo homem e entregando uns papéis estranhos. Foi, então, que ele lembrou que seu pai havia lhe dado uns papéis como aqueles. Fora as lembranças, era tudo que sobrara dos pobres coitados. Devia usar sabiamente, não podia se desfazer daqueles papéis por qualquer coisa. Dona Graça e seu Manel nunca tiveram muitos pertences, uma frasqueira, um cachimbo preto e as coisas de casa que todo mundo tem. Maciel deveria ser esperto. A fila andando e ele observando o processo que se repetia. O homem sentado pegava os papéis e as pessoas passavam.

Chegou sua vez. Então, era ele e o homem que estava na sua frente, descontente. Maciel enfiou a mão – preta, calejada da lida – no bolso roto de sua calça que sua mãe costurara antes de morrer. Pensou nela com tanta força que seus olhos se espremeram formando umas rugas no canto do rosto. Lentamente, tirou um papel. Cem reais. Olhou tenramente para o papel como se olhasse nos olhos de seu Manel antes de dar boa noite e fazê-lo tomar o chá de camomila (seu Manel tinha problema pra dormir, era muito agitado). Entregou o papel e viu seus pais partindo outra vez. Não podia deixá-los ir novamente, aquele papel era sua única lembrança. Decidido, Maciel tomou da mão do homem e fez o percurso inverso da fila pulando para fora e disparando a correr. De súbito, o cobrador assustado, gritou pega ladrão. Puro reflexo. Reflexo, também, do policial bem treinado que deu voz de prisão. Maciel só gritava: “meus pais, meus pais” e corria, corria. O policial, bem treinado, fez o que tinha que fazer.

Maciel foi sepultado como indigente no cemitério da LAPA.

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3 Comentários on "A sorte de Maciel"

  • Carlota diz

    Rafa,

    Só para não perder o costume, seu texto é maravilhoso. Vc, tem como poucos, o dom de colocar em palavras; assuntos tão pesados, de forma muito sensível.

    Parabéns!!!! mil beijinhos

  • Rafael diz

    Pois é, foi um texto bastante despretensioso, mas saiu direitinho. Tbm gostei. Valeu !

  • paulo diz

    Seu desalmado, coitado do Maciel!

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