Enjoy

Eu queria uma vida que valesse mil vidas, mas só tenho uma. Talvez meia. Como posso saber o quanto vale minha vida e quanto eu realmente aproveitei. Nunca é o bastante. Você pode correr por praias paradisícas, coqueiros pendendo frente a força dos ventos e mergulhar em um profundo e azul mar refrescando seus pensamentos do sol, atroz, que faz iluminado o seu dia perfeito. Andar por caminhos inexplorados e sentir-se um verdadeiro explorador, cultivar o contato com a natureza e ainda assim: pra que serve a vida? Egoísmo pensar que você ganhou a vida pra simplesmente realizar seus desejos. Você não nasce, e, então, não existem “seus desejos”. Vamos ser altamente altruístas e pensar que nascemos para ajudar as pessoas, para semear a paz e cumprir com uma tarefa “maior”, uma indicação divina – preste atenção que não estou falando de Deus e sim de divindades, seja lá quais forem. É muito bonito descobrir que o ser humano pode ajudar as pessoas que precisam e com isso fazer o bem. Mas …………… e se não houvessem pessoas? Por qual motivo alguém teria que nascer? Não existiriam pessoas para serem ajudadas e o propósito da vida seria vão. Aliás, o primeiro a nascer não teria função nenhuma e sua vida não teria um sentido, pois seria o único; e ajudar a si mesmo seria um tanto quanto individualista: o que foge da teoria altruísta.

Não vamos desistir. Vamos dizer que nós nascemos porque nascemos, sem uma explicação lógica. Simplesmente nascemos. Nascer não é o problema, o problema é o porque nascer. Não há necessidade de mais pessoas no mundo. Estamos cheios de políticos, assassinos, miseráveis, milhonários, famintos, empresários, mendigos. Pra quê mais? Por que eu deveria ter um filho e largá-lo nessa porcaria de planeta? Eu mesmo não consigo explicar porque estou aqui (tá, eu sei a história da cegonha), por quais motivos eu teria que fazer uma outra vida passar por tudo isso? Porque eu teria a iniciativa de trazer à vida uma pessoa que vai enfrentar um sistema vendido e injusto que transfigura a humanidade com a qual nascemos e cria a crueldade daquele que mata e destrata contratos sociais, seja lá o que isso represente hoje. Para quê tanto masoquismo? Vamos morrer em paz e esquecer que a raça humana um dia existiu.

Vamos deixar a natureza nos consumir e dar fim a essa raça que por onde esteve nada criou e só fez desmerecer qualquer plano divino ou o que quer que seja esse propósito inalcansável.

Cansei de ser o filho, não nasci pra ser filho e muito menos pai. Não nasci para ser publicitário, médico ou garçon. Não sou uma profissão nem um tipo estigmatizado pelas negras páginas de revistas comportamentais. Não sou irmão, nem neto; sobrinho ou tio. Sou apenas …………. eu. E o que isso significa ninguém consegue me dizer. Eu não consigo explicar.

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5 Comentários on "Enjoy"

  • Murilo Boudakian Moyses diz

    Rafa, até concordo em parte. O homem já tem o peder de autodestruição e de controlar sua procriação…é só esperar para ver quando ele vai usa-lo.

  • anninha diz

    Ninguém consegue te dizer, nem você consegue explicar, mas tenha certeza que um dia você vai saber, e quando souber, também vai saber que sabe.

    Gostei do texto, da reflexão em si. Mas pra mim não servem esses argumentos, não penso assim, vejo o outro lado, o lado bom das coisas. Claro que não só os espaços inexplorados ou o sol e o ventos sobre o mar azul, mas o lado bom de TODAS as coisas. E não venha me dizer que não consegue vê-lo, eu sei que sim. Vá lá que para escrever esse texto teve que colocá-las de lado, só não deixa essa pseudo-realidade tomar conta.

    Gostei do texto, mas acho que sempre tem espaço pra mais um. Se for mais uma pessoa super-hiper-fashion-rica-e-altruísta-cujo-nome-comece-com-“A”-e-termine-com-“nninha”-então… *rs*

    Bjão.

  • Rafael diz

    A frase sempre vale: Mostre, então, o lado bom de TODAS as coisas. Escreva pra gente contando como é esse lado.

    Bjs, Rafa.

    PS: isso é um desafio.

  • anninha diz

    Vixe! Já tô te devendo um há mais de 1 ano! *rs* Pra ser mais exata, desde 30/07/2001…

    Quem sabe? Não vou dizer que aceito, ainda, mas tira a luva de pelica e manda um tabefe, quem sabe no tranco, vai? *rs*

  • Fabiane Secches diz

    Filosófica…

    Pense naquela música do Lulu: “Eu não pedi para nascer/ eu não nasci para perder/ nem vou sobrar de vítima das circunstâncias/ eu tô plugado na vida/ eu tô curando a ferida/ às vezes eu me sinto uma bala perdida…”

    Gostei das suas divagações e até me identifiquei. Beijos.

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