Epiphania

Em tempo, foi na semana do feriado de sete de setembro que tudo aconteceu. Era tarde da noite, a cidade vazia – como se fosse uma velha cidade, da velha Europa, velha.
No bar, a mesa de sempre; quatro cadeiras. Três chopps. O Léo nunca bebia, só tônica. Como podia andar com a quele bando de bêbados e não beber? Coisas da idiosincrasia. A pauta era a felicidade. Quando uma pessoa está feliz? Ninguém nunca soubera de alguém que se dissesse feliz. As pessoas estão sempre descontentes com tudo aquilo que têm e que não têm.

– A culpa é da sociedade consumista que sempre empurra, guela abaixo, produtos e mais produtos indiscriminadamente. Você nunca vai conseguir ser feliz enquanto não tiver o “super klepton blupten”. E depois, você vai querer o “super klepton blupten plus” e assim por diante até o fim dos dias.

– Que nada, as pessoas são feliz, só não sabem disso. Quando você recebe um beijo da pessoa mais querida, por exemplo, e sente aquele frio na barriga; é porque você está feliz, mas teima em dizer que é uma “sensação gostosa”.

Nós não consegimos identificar a felicidade mas somos todos felizes e desafio alguém dizer, aqui, que nunca sentiu aquele frio na barriga.

Foi ali mesmo na rua, onde tudo acontecia. A brisa marinha acariciava meu rosto em ondas de frescor que pendulavam no ritmo das folhas das palmeiras na avenida beira-mar. O som bravo das calmas ondas traziam o ruído criador das canções de ninar. Estava calmo. Sem preocupações. Só a porcaria da felicidade. Ali, naquela mesa de bar, sentado com os amigos, foi que me veio a idéia de que tudo aquilo, toda aquela busca chegara ao fim. E se não houvesse felicidade? E se toda essa busca fosse vã. Estaríamos todos enganados a respeito da vida?

Já estava angustiado da companhia dos três, não suportava a idéia que me vinha à cabeça. A vida humana, um erro? Uma coisa fútil e efêmera, sem importância? Não suportava. Levantei e fui andar pela calçada. De ladrilhos, a calçada era de ladrilhos, sabe, aqueles pretos e brancos? Fazia um tempão que eu não via esses ladrilhos, coisa de infância, nem achava que ainda se usavam essas pedrinhas.

Pelas calçadas, os cachorros passeavam com seus donos, contentes, despreocupados. Será que alguém mais pensa sobre isso? Esse aí com o buldog? Será que ele sabe que um dia ele vai morrer e que talvez nada do que ele tenha feito em vida mudou ou mudará significativamente o futuro? Será que ele sabe disso? Derepente começo a me achar um ser de outra galáxia com prioridades totalmente diferentes das pessoas que passam com cachorros ou bicicletas.

Não demorou muito depois do último pensamento. O ruído foi violento. Por um instante não quis saber o que havia acontecido, continuei firme e em linha reta. Um carro desgovernado. Nunca mais ouviu-se o som das ondas como naquele dia.

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7 Comentários on "Epiphania"

  • Monica Murakami diz

    Esta crônica foi realmente muito triste…snif…e eu estava tão feliz.

    Qto a felicidade não sei dizer, mas a tristeza é sempre muito franca e não temos maiores questionamentos em identificá-las.

    Responda rápido: vc está feliz?

    bjos

    Obs.: O cenário bar, bebidas e amigos está muito presente em suas crônicas. Por que será?

  • Rafael diz

    Tá bom, eu sei que é triste. Mas a feliciade é assim: depois que ela vai, fica a tristeza.

    PS: Sou um bêbado e daí? hehehe, brincadeira.

  • Leopoldo diz

    Essa crônica realmente me fez refletir… Por que será que o Léo que não bebe continua andando com esse monte de bêbados? hehehe…

    Ou é depois que a tristeza vai embora que fica a alegria?

    Mas legal para caramba!!! E vamos que vamos!

  • anninha diz

    Nossa! Que denso.

    Amei! Poético, questionador, denso, trágico e profundo, sendo de certa forma cotidiano, como quem diz “ouça o som das ondas!”…

    Realmente gostei muito, Rafa.

  • anninha diz

    Ah! Ainda em tempo de entrar na discussão?

    Creio haver uma forte, ainda que sutil, diferença entre “ser” e “estar” feliz.

    Sejamos felizes, o estar vai depender das ondas…

    Bjo.

  • Fabiane Secches diz

    Concordo plenamente com a Anninha.

    Sejamos felizes. Felizes tristes ou alegres. Mas felizes.

    Sabe que outro dia eu estava pensando nisso?

    Não sou o outro com buldog, mas se um dia a gente se cruzasse na rua, vc não precisaria se sentir um ser de outra galácia. Não acho que todas as pessoas pensem nisso, mas acredito que sejam mais do que imaginamos. A crônica é alegre e triste. E, mais do que isso, a sua crônica foi muito feliz! Beijos e parabéns.

  • Fabiane Secches diz

    Galáxia e não galácia… foi mal. Bjos.

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