Pequeneza

Gênero menor…..uf!

Queria ver escrever o que eu escrevo, quero dizer, o quanto eu escrevo. Todo dia é dia de crônica. Tudo bem, não tenho sido tão frequente assim. Mas quer saber, vou escrever sobre as pequenezas do dia. Vou e vou fazer do meu jeito. Bem ao estilo gênero menor, mesmo.

Vou falar sobre a nervosa e roída unha, sobre a caminhada frenética por entre as riscas da calçada – uma linha e você perdeu. Escreverei sobre os motoristas desavisados que cutucam o nariz toda vez que estão desacompanhados e parados nos semáforos da cidade, sobre a mocinha da recepção que sempre chega cedo, diz bom dia e você sempre acha que tem alguma segunda intenção, mas nunca tentou nada.Vergonha. Um cronista tem que falar dessas coisas pequenas sem tratá-las como um romance ou literatura do gênero. Imagina um cronista (nem escritor, nem jornalista), escrever um romance sobre miudezas da vida cotidiana. Não pode.

Se não posso, então escrevo crônicas. Crônicas pequenas, quase excertos de um grande livro que ainda não foi escrito. Desço a caneta para falar dos cruzamentos das avenidas da cidade – parece uma feira livre, tem de tudo: malabaristas, hare krishnas, celular, infláveis, etc. Posso falar, também, da esperança dos solteiros em encontrar alguém que vá mudar a sua vida, em um simples dia de trânsito; da pequena timidez frente-a-frente no metrô e o instante que você se pega observando a pessoa que segundos atrás estava a te observar (situação mais constrangedora). Gênero menor tem que tratar das picardias de todo dia, do cara que tropeça e quase cai, da velhinha que não consegue uma boa alma para ajudá-la a atravessar a rua, do cachorro que sempre segue o mendigo, ou do mendigo que sempre tem um cachorro seguindo, coisas menores mesmo, mais superficiais.

Cronista não pode filosofar nem tratar de coisas maiores, isso é coisa de escritor. É quase um postulado. Quem faz literatura são os outros, nós fazemos um pouquinho de tudo e acabamos fazendo crônicas. Isso, um pouquinho de tudo. Quão pequenas são, na verdade, as mentes destes tais que assim pensam e não vêem a riqueza dentro da pequeneza diária. Não enxergam sobre o que realmente falamos e quando falamos. Não é o mendigo e o cachorro, é a amizade incondicional; não é o semáforo, é a pobreza material e a presença de espírito de um povo trabalhador. Perceba que por mais escritores que sejam nada os faz compreender que gênero literário não importa. O importante mesmo é escrever e registrar seus pensamentos; para que fiquem marcados na história, mesmo que seja na pequena história dos seus conviventes.

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5 Comentários on "Pequeneza"

  • malena diz

    tem TODA razão! ótima crônica! deu vontade de ser cronista. qq dia mando um textinho pro site…falando sobre coisas pequenas, claro!

  • Rafael diz

    Essa é a intenção. Escreva pra gente, eu, principalmente, quero saber sobre quais coisas pequenas você escreveria. Fiquei curioso.

  • Filosofia de botequim (ou de banheiro de botequim): nas pequenas coisas é que se enxerga o grande. Deixando o chavão de lado, gostei da ironia.

  • malena diz

    queíssu!!!!!

  • Mond diz

    Perfeito!

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