Ah! O futuro

Um bezerro. Coisa bonita que é um bezerro, toda aquela vitalidade e dinâmica próprias de uma jovem criatura – celebração da vida! Quando olho para aquele ser criado pela grande mãe natureza até esqueço que o bezerro de hoje é o bife de amanhã. É verdade, aquela coisinha linda que passeia pelos campos vai crescer e tornar-se um grande e suculento, bife. Pois é; é o que e vejo quando olho para um bezerro.

Muitas pessoas, apesar de fisiologicamente enxergarem – vocês não imaginam que susto tomei quando escrevi esta palavra; que palavra horrível: enxergar – não conseguem ver o que existe pra ser visto, admirado, olhado e todos os outros sinônimos que seguem. Na verdade é um exercício de projeção, daqueles que se faz em dinâmicas de grupo (“onde você imagina estar daqui a 10 anos?”), bem chatos. Você vê hoje e enxerga longe, projeta o futuro daquilo visto …… é bem divertido.

Muitos de nós enxergamos, mas, ainda assim, não vemos a sociedade – odeio usar essa palavra – que se cria sob nossas barbas. Uma civilização bastante democrática e respeitadora do livre arbítrio (tudo bem, exagerei!) na qual as pessoas adoram, por exemplo, furar a própria pele e marcar-se com idéias, imagens; usam o próprio corpo para dizer, quando a boca e a voz não bastam. O mais engraçado é imaginar o dia em que nós estivermos bem, mas bem mais velhos andando por um país, cidade ou rua e olharmos inocentemente para o lado: idosos, como nós, cobertos de tatuagens, pequenas ou enormes, contudo enrrugadas. Difícil acreditar que haverão velhinhas com piercings em seus umbigos ou velhotes marrentos com seus mamilos perfurados.

O baile da terceira idade será uma grande curtição. Um bando de senis chacoalhando o esqueleto ao som do mais puro Tecno ou Drum’bass, enchendo a cara de cerveja e energético – talvez o energético tenha algumas contra-indicações.
Grande terra da democracia! Verão, enfim, o fruto da proliferação da liberdade sexual e todo o aparato GLS desfilando pelas ruas em boas e enormes rugas. Na fila do Banco, naquela preferencial para idosos, estará lá um amontoado de velhos como quaisquer outros esperando a pequena aposentadoria como sempre. Nesse palco vexatório, um velhinh(o) mais simpáico irá virar para trás e beijar aquele outr(o) velhinh(o) bigodudo. Sim, meus caros, veremos tudo isso, mas não de um jeito avesso; de um jeito inédito, afinal ainda não estamos velhos, tão velhos.

Espero que não me condenem pelo tom mais forte da imagem mental que eu provavelmente criei (“eu criei um monstro!”). Espero que haja discernimento entre a percepção do ineditismo e o mau gosto e que passado alguns anos mais, talvez muitos; outras estréias imagéticas possam percorrer nossas mentes antes que percamos a capacidade de, realmente, enxergar.

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5 Comentários on "Ah! O futuro"

  • Mond diz

    Estranho futuro…

  • Ricardo diz

    Que coisa …

    Tava com saudades do Rafael Mamutão Veio de Guerra!

    É ísso aí mamute!

  • Kris diz

    Velhos sempre foram velhos e sempre serão…

    fazendo, escutando e lembrando coisas velhas sejam elas quais forem…

    Mas não podemos nos esquecer que o tempo é relativo né…esse é o x

  • Murilo Boudakian Moyses diz

    Me preocupa o tipo de barulho que as crianças vão ouvir, isso sim pode ser muito triste…

  • O mais triste é imaginar que todas as mensagens ou ideologias que eles queiram passar através de marcas no corpo, no futuro (ah! o futuro…) não passarão de hieroglifos ambulantes. Afinal o bezerro de hoje é o adubo de amanhã.

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